DE VOLTA AO PASSADO 10º PARTE






Leonor observava as pessoas na rua, no dia anterior ela, era mais uma nessa corrida diária. Nessa manhã simplesmente saíram para colocar um papel na livraria, anunciando que devido a problemas de saúde esta estaria fechada. Depois foram ao trabalho de Afonso, onde meteu férias.
Agora, ali na janela do apartamento dele olhando a rua, parecia-lhe que estava a viver um filme. Como era possível viver com Rui, e nem perceber todas as trafulhices em que estava metido?!
Viveu com ele mais de uma década e não o conhecia. Se lhe perguntassem se achava que ele seria capaz de fazer mal a alguém, dizia em plena consciência que não. Podia ser bruto nas palavras, mas nunca lhe levantara um dedo. Pelos vistos não tinha problemas em pagar para fazerem o trabalho sujo por ele.

- Um milhão pelos teus pensamentos. -disse Afonso abraçando-a por trás e beijando-lhe o pescoço.
- Não valem tanto...- ela tentou sorrir.
-Que estavas a pensar? Espero que em nós.- disse embora soubesse que estavam muito longe disso os pensamentos dela.
-Como é possível viver com uma pessoa e não a conhecer?
- A mim conheces-me muito bem. E eu a ti.
- Sabes o que quero dizer.
-Sei, mas prefiro não pensar nele. Se penso nisso, acabo por fazer justiça pelas minhas mãos ou a usar os mesmos métodos dele. E acabo com ele mais rápido que um gato diz miau.
- Eras capaz? -Leonor olhou incrédula, será que Afonso também tinha um lado que ela desconhecia?
- Não está na minha natureza, nem acredito que se resolva nada com violência, mas quando se trata de quem nos é querido parece-me que ficamos todos um pouco cegos, e em certas circunstâncias e ponderando todos os factores, acho que todos nós somos capaz das coisas mais atrozes e imagináveis para proteger aqueles que amamos.
- Nunca pensei nisso...acho que não era capaz de fazer mal a outro ser humano
- Se a Maria estivesse em perigo olharias a meios para a defender?
- Claro que não!- gritou e encolheu-se nos braços dele, percebendo a perspectiva dele- Tens razão, por ela seria capaz de tudo.
- Não pensemos nisso... aproveitemos este sossego. Não tarda temos aí o inspector com ordens superiores.
- Um pouco arrogante, não achaste?
- Possivelmente... mas tens de admitir que as circunstâncias não são as normais. Mas que cumpre a palavra dada isso já sabemos, temos 2 guarda costas e um vizinho novo no andar da frente.-disse referindo-se aos agentes que o inspector tinha destacado para os proteger.
- O que achas que vai pedir para fazer-mos?
- Isso é que me preocupa. Não fazemos, tu é que fazes - acentuou o tu e percebeu que estava preocupado com ela - Isso é que me tira o sono, saber que apenas poderei estar na tua retaguarda. Os tiros estão todos direccionados para ti. Por isso quero que penses bem. Podemos ir para Espanha...
- Não! -disse rapidamente - Não quero fugir, não fiz mal a ninguém e se o inspector diz que me vai proteger acredito. E dormirei muito melhor sabendo que ele está atrás das grades e que nunca poderá fazer mal à nossa filha.
- Tens razão, é melhor resolver isto de uma vez por todas. Para bem de todos nós.

Deitaram-se abraçados, olhando o vazio. Cada um envolto nos próprios pensamentos, revendo em silêncio o que os preocupava. Como se o facto de dizerem em voz alta tudo o que pensavam, esses pensamentos ganhassem vida.
Quando o sol nasceu já Afonso tinha saído para comprar pão e o jornal enquanto Leonor ficara a fazer café.
A noite não trouxe a calma que tanto precisavam e a espera matava-os por dentro.
Tomaram café em silencio. Afonso leu o jornal depois de ajudar a limpar a mesa. Leonor deu uma limpeza na casa, não que fosse necessário, mas ela precisava de estar ocupada.
Com um apartamento tão pequeno depressa acabou. Durante o resto do dia viram televisão.

- Gostas de palavras cruzadas?- perguntou ela apanhando o jornal que ele tinha deixado em cima da mesinha junto ao sofá- Eu costumava ser boa nisso.
- Não sei, nunca me preocupei em fazer...
- Não acredito que nunca fizeste palavras cruzadas!
- Porquê o espanto? Nunca me despertou interesse.
- Eu faço-as desde a infância. Aprendi com a minha madrinha.
- Menina precoce.. na infância queria era brincar, por volta dos 17,18 anos, passei pela fase das motos e dos carros velozes- riu-se ao ver o olhar de admiração dela - Admiraste? Já fui um James Dean noutros tempos... depois veio a faculdade e digamos que tive outras actividades- deitou-lhe um olhar que mostrava bem quais eram as actividades que falava. E acho que vou reviver uma dessas actividades...que dizes?

Perguntou ao mesmo tempo que abafava a resposta dela com um beijo. Resposta que não tardou a chegar, mas numa outra linguagem...

As roupas estavam agora espalhadas pelo chão, Afonso beijava Leonor com sofreguidão e apertava-a contra ele num desespero contido, tinha medo de a soltar, como se ela desaparecesse, se a deixa-se afastar-se. Leonor olhou nos olhos e teve medo do que viu, tristeza e desespero ocupavam aquele olhar que ela tanto amava, ele apertou-a mais, a ponto de a magoar, como ela compreendia o que lhe ia na alma, ela também estava assim. Tinha medo que no dia seguinte não estivessem mais juntos, queria sentir algo mais... Precisava de sentir que ele estava ali que não era um sonho, sem dar-se conta arranhou-lhe as costas nuas e amaram-se como se não houvesse amanhã.
Algum tempo depois, ela acariciava-lhe as costas no sitio onde o tinha magoado.

- Desculpa, não queria...

Afonso beijo-a calando assim aquele pedido de desculpas sem razão de ser. Ele também a tinha magoado, não era preciso ela dizer,ele sabia-o muito bem. Agora arrependia-se, mas no calor do momento, deixou-se levar por aquela angustia que lhe corroía a alma e lhe apertava o coração. Precisava de sentir que ela estava ali ... Naquele momento estava, mas e amanhã?! Tinha medo e ela sentia o mesmo.

- Não íamos fazer palavras cruzadas? -Perguntou apanhando o jornal do chão e voltando para a cama para junto dela.
- Estás a desafiar-me?
- Acho que é mais a pedir uma primeira lição.
- Ora bem, vamos a isto. 1 horizontal: satisfazer plenamente. Seis letras.
- Isso deixa muitas possibilidades em aberto...- sorriu malicioso
- Não é nada disso.- sorriu também sabendo bem ao que ele se referia - Vá? Não sabes sinónimos de satisfazer plenamente?! Pensa...
- Deitar - atirou ao ar e ela riu-se
- Leva isto a sério. Se dás respostas erradas, as verticais depois não encaixam.
- Ainda temos verticais?
- Claro! Porque achas que se chamam palavras cruzadas?
- Muito bem, vamos lá levar isto a serio... ora bem: ocupar, encher, cumprir...
- Para quem não sabe, sabes demasiados sinónimos.
- Nisso sou bom, o pior é ver qual encaixa nesse puzzle...
- Vamos por hipóteses...
E empenharam-se nas palavras cruzadas como se assim deixassem de pensar no que os esperava.

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