DE VOLTA AO PASSADO 11º PARTE






Os dias passavam sem noticias do inspector Gaia, se não vissem ocasionalmente os agentes na rua e o "vizinho" da frente pensavam que ele tinha desistido de tudo. A espera estava a acabar com eles.
- Já passaram cinco dias e não dizem nada!Às vezes penso se terão desistido.-Leonor estava cansada.
- Com a vontade que eles têm de lhe por as algemas duvido que desistam.
- Bem que podiam dizer qualquer coisa. Sinto-me uma prisioneira. Eles estavam tão interessados que pensei que isto seria mais rápido.
- Não têm mais interesse que eu em resolver isto. Mas tens razão, parecemos prisioneiros. Vamos sair. Onde queres ir?
- Podíamos ir até ao cais. Ou à baixa, a baixa é tão bonita à noite.- disse Leonor.

Resolveram ir jantar a uma casa de fados, fazia imenso tempo que não ia aos fados.
Assim que saíram, um dos agentes segui-os de maneira discreta e quando chegaram à casa de fados estava o "vizinho" à espera no bar. Dirigiram-se para uma mesa, o "vizinho" depressa ocupou a mesa ao lado, pediu e fingiu interesse no jornal.
Leonor e Afonso pediram o bacalhau especial da casa. Estava delicioso e por momentos pareciam um casal normal. Faltava pouco tempo para começarem os fados quando o telemóvel dela vibrou.

- Sim?
- Onde está? -era o inspector
- Viemos aos fados
- Espero que tenham tido inteligência suficiente para avisar os meus homens
- Mas por quem nos toma? Não somos irresponsáveis. Sabemos bem o que está envolvido, mas estamos fartos de estar fechados. Como não dizia nada...
- Estes civis...pensam que são favas contadas...as coisas levam tempo. E não queremos deixar pontas soltas por onde ele se possa agarrar e fugir pois não? - Atirou aborrecido por ter de dar explicações do seu trabalho e sem esperar resposta continuou- Já recebi ordens superiores. Está tudo tratado. Amanhã começamos a trabalhar. Aproveitem a noite. Amanhã estou no apartamento às nove em
ponto.
- Que simpatia de pessoa este inspector. Não tem pingo de educação.- o "vizinho" riu-se baixinho- Espero que não lhe vá dizer- sussurrou para Afonso que sorriu também.- Ainda bem que sirvo de piada.- sentou-se indignada com tudo aquilo. Que homem rude. Os policias serão todos assim? Sem modos?

Essa e outras questões foram colocadas de lado assim que começaram os fados. No fim da noite percebeu que, apesar das circunstancias, acabaram por se divertir. A noite já ia alta quando chegaram a casa, mas a noite não se revelou reparadora. Estavam demasiado ansiosos.
O sol ainda não tinha saído e já eles estavam a pé quando bateram à porta às nove em ponto.

- Pelo menos é pontual- disse Leonor que estava na cozinha a fazer café.

Afonso abriu a porta ao inspector que entrou sem qualquer cerimonia.

- Bom dia. -cumprimentou- Espero que estejam prontos para a luta. Que cheirinho a café! Vem mesmo a calhar.- e sentou-se numa cadeira enquanto apanhava uma das chávenas que Leonor trazia no tabuleiro. - Está fantástico. Nada a ver com aquela surrapa que temos lá na esquadra. Bem, vamos em frente. - calou-se esperando que eles se sentassem-  Não entrámos em contacto pois foi preciso preparar o caminho primeiro. Já tratámos de afastar o advogado do seu marido e arranjámos-lhe um mais maleável e mais dispendioso. -sorriu ao ver a cara de incrédulos deles  - Temos os nossos métodos. Bem, agora é hora de você entrar em cena, vai ligar para a sua advogada e dizer que quer pensão de alimentos, a casa, metade da fortuna dele e tudo o mais que se lembrar. Assim...
- Mas eu disse que não queria...
- Sei em que pé está o divorcio! -disse irritado por ser interrompido. Não estava acostumado a trabalhar assim- Continuando, vai pedir tudo o que tem direito e tudo o mais que se lembrar. O que se pretende é que ele gaste tudo o que tem, e tenha de recorrer ao cofre. Quanto mais você o apertar mais nervoso fica e age sem pensar! Percebeu? E nada de falar disto à sua advogada.
- Ela vai pensar que sou interesseira.
- Que pense o que quiser. Sei que ela tem de saber tudo, mas isto não é um julgamento e quanto menos souber melhor. Assim não corremos o risco de ela se descuidar e deixar escapar algo que faça o seu marido desconfiar. É melhor ela pensar o pior de si do que deitar-mos tudo a perder. Neste momento tenho um agente a falar com o gerente do banco do seu marido. Para ver como vão as coisas. Assim que soubermos qual a resposta do seu marido agiremos. Por agora é esperar.
- E eu? -Perguntou ele que não gostava da ideia de ser ela a servir de isco
- Você faz o mesmo que eu, aguarda... a mim também não me agrada, mas que posso fazer?- o telemóvel dele tocou- Sim -calou-se por instantes a ouvir a voz do outro lado- Fabuloso! Vem imediatamente para o apartamento estou aqui com eles. -e desligou.- Era o Pires. Falou com o gerente do banco, a conta do seu marido está em números vermelhos! O que é absolutamente fantástico. Está onde o queríamos. O meu homem não tarda. Não vai ligar à advogada? -insistiu- O mais rápido possível, em linguagem policial, quer dizer para ontem.- insistiu ele sem lhe tirar os olhos de cima.

Que homem mais irritante! Ela preferia estar à vontade para falar com a advogada, e ali no pequeno apartamento de Afonso, privacidade era coisa que não tinha. Agarrou no telemóvel e foi para o quarto.
Tinha de concordar com ele, embora não concordasse com a maneira como tratava as pessoas, parecia saber o que fazia. E nesse instante era só o que interessava.
Enquanto falou com a advogada, que ficou admirada com a mudança de ideias dela, chegou o agente que tinha ido ao banco. Passou na cozinha e levou-lhe uma chávena de café, que só aceitou depois do inspector autorizar.

- Estavas a dizer?!...- disse o inspector ao homem que acabara de chegar
- Bem, o nosso homem está com a conta a zeros! Levantou na semana passada uma boa quantia e não repôs, nem deu qualquer entrada exterior. O gerente diz que à dois dias pediu um empréstimo e está a ser analisado, mas pela conversa dele vai demorar. - Guardou o bloco no bolso do casaco e bebeu o último sorvo do café. Colocou a chávena no tabuleiro e voltou-se para ela- Obrigada,estava mesmo a precisar.
-Possivelmente levantou o último dinheiro para pagar aos maleantes que a atacaram.- disse o inspector- Agora temos de agir e depressa. Vou falar com os meus superiores e ver que se pode fazer para atrasar o empréstimo. Assim que souber algo avise, e nada de saírem sozinhos -  dito isto saiu com o agente atrás.

- Continuo abismada com a educação dele!
- Que te disse a advogada? -perguntou ele desviando a conversa.
- Que vai falar com o advogado dele ainda hoje.
- Resta esperar... odeio esta espera. Melhor! Odeio isto tudo. Se eu tivesse voltado atrás naquela manhã quando...
- Agora não adianta ficarmos a pensar no que faríamos se voltássemos atrás.

Leonor deu-lhe um beijo e foi tratar do almoço, ele preferia ir almoçar fora, mas ela insistia em estar ocupada. Olhou o congelador. Pasteis de bacalhau, rissóis, croquetes, empadas, uns bifes... sabe Deus de quê, mas nada de verduras ou legumes! Retirou os bifes que colocou a descongelar. Pensava ter visto uma cenouras no frigorífico. Podia fazer um arroz para acompanhar os bifes! Quando tudo terminasse, teria de melhorar a alimentação dele. Mais parecia o frigorífico de um estudante que de um enfermeiro! Quanta coisa para fritar! Nada de verduras ou legumes. Nem a fruta fazia parte da sua alimentação.

Almoçaram e depois de tudo arrumado viram televisão.
O resto do dia correu tão normalmente como foi possível. Embora esgotados pela noite mal dormida anteriormente, já era tarde quando se deitaram.
Leonor assustou-se ao ouvir o telemóvel,o numero era privado, olhou o relógio: uma da manhã! Teria acontecido alguma coisa a Maria? A medo atendeu:

- Sim -disse de voz sumida
- Estás como medo de acordar o teu amante?
- Que queres a estas horas?- suspirou de alivio, era o marido,inclinou-se para junto de Afonso para que este pudesse assim ouvir a conversa.
- Que quero? Diz antes que queres tu? Sua interesseira, primeiro não querias nada, só o divorcio e agora queres tudo! A casa, a pensão de alimentos, metade do dinheiro que tenho no banco e metade da minha empresa de construção civil! Que percebes tu disso?! És igualzinha à tua mãe! Vocês só querem é dinheiro. Para que queres uma pensão de alimentos? A Maria já é adulta não sou obrigado a dar-lhe nada.
- Esqueces que nunca lhe compraste nada? Tu não governavas malandros lembraste? E se quiser? Estou no meu direito, metade do que é teu é meu - Afonso escreveu a palavra advogada num papel e mostrou-lho- Não percebo porque me estás a ligar? A minha advogada está a tratar de tudo com o teu advogado
- Advogado?! Uma sanguessuga é o que ele é! Entre ele e tu levam-me à miséria. - calou-se, Leonor percebeu que estava nervoso, podia imaginá-lo a andar de um lado para outro na sala, como um animal enjaulado. Por instantes teve pena dele, mas só uns instantes mesmo, até se recordar que há poucos dias ele tinha mandado matá-la- Olha - começou ele outra vez - Estava a pensar, em nome dos bons velhos tempos...- ela não consegui conter uma gargalhada irónica
-Bons velhos tempos?! Quais? Porque eu não me lembro deles!
- Não sejas assim... afinal estivemos casados muitos anos algo de bom aconteceu.
- Se tu o dizes...
- Estava a pensar que podíamos livrar-nos dos advogados e chegar a um acordo. Dou-te cinco mil! E o divorcio sem brigas. Combinamos um sitio só tu e eu, dou-te o dinheiro e os papeis do divorcio assinados e abdico da Maria. Que dizes? Não queres a Maria?

 Leonor sentia o sangue a ferver-lhe, como podia usar a sua filha como se fosse um objecto. Fez um esforço por concentrar-se na conversa dele.

- Olha- Afonso continuava- é tarde e apanhei-te de surpresa, ligo amanhã para saber que dizes. Pensa bem e vais ver que é o melhor.

Leonor ficou a olhar o telemóvel quando Rui desligou.

- Sacana canalha!- gritou Afonso- Como se atreve a meter uma miúda nisto? Se lhe ponho as mãos em cima parto-lhe o focinho. E deixa ver se não peço ao Gaia para me arranjar uma daquelas visitas conjugais para lhe dar um recadinho.
- Que faço? Ligo ao inspector?
 - É melhor amanhã, já é tarde.

 Leonor começou a rir ao imaginar Afonso a pedir aquele tipo de visita ao inspector Gaia.  Se fecha-se os olhos podia imaginar o Afonso de vestido justo ou seria o Rui. Desatou a rir, tinha ouvido falar de pessoas que em casos parecidos riem descontroladamente, mas nunca imaginou que ela fosse uma delas. Pois o caso não era para rir.

- Mas do que te ris tu? Não percebo onde está a piada- ela continuava a rir- Podes dizer-me para eu me divertir também?!
- Estava a imaginar a tua visita conjugal ao Rui... os dois à luz das velas sozinhos- as lágrimas caíam de imaginar a cena, não conseguia parar.
- Estás a gozar comigo? Anda cá que te conto como é...

 Afonso segurou a mão a Leonor que tentava fugir, mas acabou por lhe abrir os botões da minúscula camisa de dormir. A fuga acabou com os dois a rir como dois adolescentes no chão da sala com Afonso a aprisionar o corpo dela com o seu.  O riso depressa deu lugar a uma respiração ofegante acompanhada por um desejo que crescia à medida que ele olhava para os seus peitos subindo e descendo à luz da lua.

- Não pensas em mais nada?- disse ela com a voz embargada pelo desejo ao sentir o desejo dele junto à sua anca.
- Tens algo melhor para fazer?

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