DE VOLTA AO PASSADO 12º PARTE





Mal o sol nasceu ligaram para o inspector, que lhes deu indicações para não saírem de casa e esperarem por ele.

- Ora bom dia- disse o inspector ao entrar no apartamento, sentou-se no sofá e dirigiu-se a Leonor - o que disse ele exactamente?

Leonor voltou a repetir a conversa que tiveram ao telefone. Desta vez mais detalhada.

- Não estava à espera que ele quisesse encontrar-se consigo. Mas também serve para os nossos planos. Ele disse que tinha dinheiro?
- Disse que me dava. Agora não lhe perguntei se o tinha! Como deve de perceber não era a minha...
- Pois sim...- interrompeu-a - Não deve de ter! Mas dava jeito ter a certeza...
- Quando ele telefonar posso tentar saber
- Mas sem dar nas vistas! Não queremos...
- Não sou idiota, sabe?- Foi a vez dela o interromper, sabia que isso o irritava mas não se importava- Sei o que lhe dizer.
- Espero bem que sim. Ele disse a que horas ligava?
- Não! Espero que não demore.
- Vou falar com os meus homens, importa-se de vir comigo?- perguntou a Afonso- Você fica! - disse a Leonor que olhava incrédula para ele.

 Mas quem se julgava este homem? Bem que precisava de uma aulas de boas maneiras. Podia ser o melhor inspector ao cimo da terra, mas isso não lhe dava o direito de tratar as pessoas desta maneira.
Que queria com Afonso? Estaria a esconder-lhe algo? Apostava que sim. Os homens têm a mania que as mulheres são seres frágeis, que em certas situações só estorvam. Ela ia provar-lhe que estava enganado! Assustou-se com o toque do telemóvel. Bolas! O inspector devia de ter razão, se apanhava um susto destes... O número era privado. Só podia ser o marido.

- Sim?
- Já pensaste? - disse sem mais
- Sim. Já pensei. Mas preciso de saber algo antes de te dar a resposta.
- Diz lá
- Tens o dinheiro?
- Jogando pelo seguro! Se te disse que to dava é porque tenho.
- Só quero ter a certeza.
- O interesse acima de tudo.
- Claro! Se vou voltar atrás quero ter a certeza que tens o que prometes. Não quero sair prejudicada de isto tudo!- Afonso e o inspector acabavam de entrar, fez-lhes sinal para não fazerem barulho-  Alguma coisa aprendi contigo. - ouviu uma gargalhada do outro lado
- Tens razão. Eu também quereria saber!
- E então?
- Podes ficar descansada que recebes o que tens direito.
- Olha, vou ser directa. Um dos funcionários do banco ligou-me, tens a conta a zero. - o inspector começou a bracejar, parecia que lhe ia dar um ataque mas ela ignorou e continuou  -Podes dizer como pensas pagar-me?
- E porque te ligaram?
- Esqueces que a conta é dos dois? Como não tens dinheiro ligaram a ver se eu queria transferir dinheiro da conta poupança que abri para a Maria.
- A Maria tem conta? Também tens os teus segredos.
- Não desvies a conversa.- começou a levantar a voz, estava a enervar-se. Escondera-lhe o facto da conta da filha, mas agora saiu-lhe assim sem mais! Se ele demora-se a responder, era capaz de se descair. Isto era mais difícil do que ela pensava. - Olha, eu não vou voltar atrás sem...
- Já te disse que tenho o dinheiro... tenho umas poupanças... é só ir levantar e depressa tudo estará acabado.
- E o banco? Vais resolver isso? Não quero ter problemas com o banco.
- Já chega dessa conversa! - gritou - Vamos ao que é importante. Onde queres que nos encontremos?
- Onde?! Sei lá!- tentava ganhar tempo, olhou para o inspector em busca de ajuda - Desde que não seja de noite. Não saio sozinha se for à noite. - O inspector já lhe tinha passado um papel do super mercado- Pode ser no centro comercial.
- No cinema?
- Não, na pastelaria que fica no segundo piso à entrada.
- Um sitio publico e iluminado. Tens medo de mim?
- Tenho as minhas razões para não querer estar sozinha contigo.
- Não te vou raptar. A que horas?
- Isso é contigo. Quando tiveres o dinheiro avisa.- desligou sem esperar resposta.

As suas mãos tremiam e estavam geladas pelos nervos. Nem nos seus piores pesadelos pensara que isto podia acontecer-lhe.

- Portou-se muito bem! Dou-lhe os parabéns! -sorriu para o inspector,este seria o seu melhor elogio -Que disse da conta?
- Que tinha umas poupanças e que ia levantar...
- Vega! Estás de olho no homem?- O inspector falou para o telemóvel - Óptimo. Não o largues, não tarda deve de sair. Não dês nas vistas, só precisamos saber quando tem o dinheiro com ele.- e desligou
- Que fazemos agora? - Afonso sentia-se colocado à parte.
- Como ele não o conhece pode ir também. Senta-se no café, e não dê sinal de a conhecer. Tem de estar lá mais cedo, não podem ser vistos juntos. Os meus homens também vão estar por ali espalhados. Assim que ele confirmar o dia e a hora avisa um dos agentes que estão aqui fora, eles já sabem que fazer... A partir de agora é melhor não termos qualquer contacto. Não se preocupe, vai estar meia esquadra de olho em si.

Duas horas depois Rui voltou a ligar.

- Estou à tua espera amanhã às 10 horas. No sitio combinado. -e desligou.

Leonor começou andar de um lado para o outro. E se tentasse mata-la ele mesmo? A pastelaria àquela hora tinha pouco movimento. E isso assustava-a. Pensava que seria só apanhar uns papeis e o dinheiro, no meio de tanta gente conversando estaria a salvo, mas agora não tinha a certeza.

Ligou para a filha, não estava! Falou com o irmão que lhe assegurou que estava tudo bem. Até estavam a pensar em vir a Portugal por estes dias. Fez um esforço enorme para se concentrar na conversa com o irmão e ficou aliviada quando ele desligou. Felizmente estavam bem! Estava a ser tonta. Rui nunca se importara com a filha e muito menos com a família dela. Não tinha motivos para pensar que agora as coisas tinham mudado.

- Não precisas de estar preocupada. Eles não correm qualquer perigo
- Como podes ter a certeza?- disse ao mesmo tempo que as lágrimas escorriam pela cara
- É questão de lógica. Ele não tem dinheiro certo? Se gastou o que tinha para tentar acabar contigo não tem para mandar fazer mal a mais ninguém! E acho que ele não lhe faria mal, afinal pensa que é filha dele. Até os piores assassinos cuidam dos seus.
- Tens razão. Se calhar estou a fazê-lo pior do que ele é. Uma coisa é querer ver-se livre de mim outra é fazer mal à filha.

Afonso abraçou-a. Esperava que o seu pai conseguisse falar com o amigo em Itália e que  proporcionassem  à sua filha e ao tio a segurança que ele queria transmitir a Leonor.
Rezou para que assim fosse! Nunca foi de rezar, mas ultimamente estava a fazer coisas que toda a vida disse que jamais faria.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O Padre X parte

O Padre IX parte

O padre VIII parte