PERFEITO ESTRANHO 2º PARTE






Acordou com uma dor de cabeça terrível. Não tinha dormido nada de jeito, e a culpa era daquele estranho que lhe invadiu os sonhos.
Napoleão começou a latir.

- Já vai. Podes esperar? Doí-me a cabeça e tu nesses berros... tem dó! Qualquer dia não cabes na porta, é só comer, andar não é contigo... um dia meto-te numa academia, dessas, todas finorias  a ver se emagreces.
Ele foi deitar-se na sua manta muito cabisbaixo, como se percebesse o que ela queria dizer.

- Vês como aprendes a esperar?

Acabou de cortar o pão para fazer uma torrada e deitou um pouco de ração na tigela dele.

- Vá, já aqui está. Olha, hoje temos de ir até ao parque. Eu sei que não gostas, mas tem de ser. - falava com ele como se fosse uma pessoa - O veterinário diz que tens de andar, nem que seja uma vez por semana, por isso...- ele deitou-se na manta com um grunhido - Ou tu achas que eu gosto de ir trabalhar a um sábado? Não! Mas tem de ser. É a vida. E enquanto estou fora, juízo! A ver se não furas o sofá com o teu peso.

Fez-lhe uma festa na cabeça e saiu. O dia estava frio, apertou o casaco e meteu-se no carro. Verificou se tinha tudo o que lhe fazia falta. Estava tudo. O seu chefe ia vender a empresa para a semana, se tudo corresse bem, isto é, se não fosse dispensada, teria chefe novo. Corria a voz que o novo patrão ia reformular a empresa. Alguns iam mudar para outras sucursais, mas alguns seriam despedidos. Com a sorte que andava, ainda lhe calhava a ela. Há cinco anos que era assistente pessoal e gostava do seu trabalho. E sabia que fazia o trabalho na perfeição, se dizia algo, era porque tinha fundamento para tal.  Custou-lhe um pouco entrar no ritmo, não tinha horário de saída, só de entrada e muitas vezes tinha de viajar com o seu chefe. Mas era bem paga. Só esperava que o novo chefe, gostasse do trabalho dela e quisesse que ela ficasse ao seu serviço.
Estacionou o carro, apenas o segurança tinha ido trabalhar.

- Bom dia Júlio. A esposa como está?- Júlio era o segurança da empresa, agora estava no turno da noite.  Terminava às nove da manhã, pois a esposa ficara doente e não tinham como pagar a quem ficasse com ela de noite. De dia cuidava ele dela, de noite ficava com a filha.
- Vai indo menina, obrigada. Sabe como são estas coisas...vir é rápido mas curar é que demora.
- Dê-lhe um beijinho meu.
- Será entregue menina.

Sentiu pena dele, era um bom homem. Estas coisas parece que só acontecem a quem é bom. Subiu as escadas. Preferia-as ao elevador. O patrão já estava no gabinete à volta dos contratos dos empregados.

- Bom dia Cristy. Tu sabes onde estão os contratos,os do pessoal do armazém? Não os encontro.... pergunto-me para que quer o homem todos os contratos, se vai despedir alguns..
- Bom dia, Sr. Gomes. Estão aqui neste arquivo.

Passaram a manhã a separar os contratos por datas de cessação. Quando deram a manhã por terminada, já eram duas da tarde.
Despediu-se do patrão no portão da entrada. Entrou no carro à pressa tentando fugir do frio. Só lhe apetecia sentar-se à lareira, mas ainda tinha de ir ao supermercado, precisava comprar comida para o Terrier da vizinha, que tinha ido ao medico e não sabia a que horas chegava,  ia aproveitar para levar umas latas para Napoleão e o mais complicado, tirar aquele preguiçoso de casa.
Assim que chegou a casa mudou de roupa,o fato de saia e casaco não era o mais indicado para ir passear um cão. Estava a vestir o fato de treino quando bateram à porta. Devia de ser a vizinha que vinha apanhar a comida do seu bichano. apanhou o saco da ração e abriu a porta estendendo o saco.

- Aqui está. Espero...- calou-se ao ver o intruso dos seus sonhos, ali ,em carne e osso à sua frente.
- Obrigada mas já almocei.
- Desculpe. Pensei que fosse a minha vizinha. - lembrou-se da noite passada e corou
- Parece que venho em má hora.- olhou para ela de cima a baixo,o que a deixou ainda mais envergonhada -  Pensei em vir convida-la para um café, mas já tem planos.
- Oh! Isto! - colocou o saco no chão- Ia ao parque passear o Napoleão.
- Napoleão?!
- O meu cão... se gosta de cães e de passear...- Napoleão veio até ela ao ouvir o seu nome.. Parou em frente a ele, depois de o olhar bem, cheirou-o e como que a jeito de aprovação, encostou-se às pernas dele.
-Morde?!
- Quem?! Desculpe...Só digo disparates! Não, ele não morde.- voltou a corar. Quem é que havia de morder se não o cão?! Ele acariciou-lhe o pelo. Demorando-se nas orelhas do animal, que se deleitava com as caricias e ela imaginou as mãos dele acariciando-a assim...
- Com uma condição. - interrompeu os pensamentos dela -Que não me trates por você. Ontem não o fazias.  Por falar nisso, ontem nem me apresentei. Carlo. É um prazer. - estendeu-lhe a mão
- Cristy! - disse aceitando a mão dele - Bem, Cristina. mas todos me chamam de Cristy. - retirou a mão com medo de que ele percebesse que fantasiava com ele e com aquelas mãos percorrendo o seu corpo...
- Cristy... é bonito. Se me disseres por onde vamos...

Ela chamou Napoleão para lhe colocar a trela. Mas ele preferiu sentar-se nos pés dele.

- Parece que gosta de si..
- De ti.. -corrigiu ele
- De ti.- ele olhava-a fixamente como se quisesse ler-lhe os pensamentos o que a deixou mais  desconfortável,  ontem sonhara com ele e agora estava ali...agora não estava a sonhar. Ele também teria sonhado com ela? Ná!!! Era melhor não se por a pensar nisso -Vamos?

O passeio correu lindamente, não era só ela que estava fascinada com Carlo, Napoleão gostou mesmo dele, até foi buscar a bola que ele lhe atirou! Com ela sentava-se a olha-la!
Sentaram-se um pouco num banco, ao longe avistavam-se umas nuvens negras.

- Parece que vem chuva!- disse ele olhando o céu - Não é melhor irmos andando? Ainda é longe.
- Com medo da chuva?
- Não gosto de me molhar... não com água gelada. Duvido que alguém goste
- Eu gosto. a chuva tem qualquer coisa especial
- Não vejo o que tenha de especial molharmos-nos.

Ela riu-se, desde miúda que a chuva exercia nela um fascínio fora do comum.
Ainda ele não tinha acabado de falar, e as primeiras gotas começaram a cair. Ainda se deixaram ficar um pouco, mas as gotas começaram a aumentar de intensidade. Correram a abrigar-se debaixo de uma ponte que estava ali perto, mas não conseguiram evitar que se  molhassem. E com a ajuda de Napoleão ficaram mais molhados ainda.

- Napoleão pará!

Mas a ordem não teve o efeito desejado, ele começou a correr à volta deles enrolando a trela nas pernas deles, obrigando-os a juntarem os corpos molhados. Olharam-se olhos nos olhos por uns instantes, mas pareceu uma eternidade a Cristy.
O calor do corpo dele avivou-lhe o sonho e estremeceu. Ele devia de ter visto o desejo nos seus olhos, pois quando ela percebeu, tinham as bocas coladas. Não tinha forças para resistir, entregou-se sem pensar. A língua dele percorreu os lábios dela e forçou-a a abri-los. Quando a sua boca foi invadida pela língua dele, Cristy pensou que tinha morrido e estava no céu... devia de ter gemido pois ele apertou-a mais junto a si. Separou as bocas por uns instantes.

- Começo a gostar de andar à chuva- e voltou a concentrar-se na boca dela. - És mais doce do que eu imaginei.

Doce?! Ela tinha lavado os dentes depois de comer o pudim?! Tinha a certeza que sim...então porque dizia que ela era doce?! Nunca lhe tinham dito tal coisa... um sino tocou na sua cabeça, em sinal de alerta quando Carlo introduziu a mão por dentro da sua camiseta húmida. Há muito que não era tocada assim... nem assim nem de jeito nenhum...tinha de parar aquilo...era um estranho... ela não ia para a cama com qualquer um. Ultimamente com ninguém, se quisesse ser sincera. Mas não estava certo, tinha de parar, por muito que estivesse a gostar.

- Carlo, não...- ele parou mal ela disse o nome dele.
- Desculpa, tens razão, não devia...

Agarrou a trela de Napoleão que se tinha deitado e começou a andar. Cristy ficara para trás, sentiu um vazio dentro dela quando ele a deixou, parecia que estava à beira de um precipício. Como podia sentir algo assim por um estranho? Olhou-o,ele nem parava para olhar para trás. Já devia de estar arrependido de a ter beijado, ela não era propriamente uma mulher vivida. Aquilo era desejo recalcado, só podia ser! Se tivesse saído mais quando Pedro a traiu, se calhar a esta hora, não estava neste estado de excitação! Graças a Deus estava a chover. Precisava mesmo de um banho frio!
Carlo parecia notar agora que ela ficara para trás, e esperou que ela o alcança-se. Não disseram nada mais durante o resto do caminho.
Debaixo do chuveiro, Cristy revia a situação. Se a amiga soubesse chamava-lhe parva, no mínimo!
Bolas! Um homem interessava-se por ela, e ela comportava-se como uma donzela vitoriana...
Lembrou-se do que sentiu quando as mãos de Carlo a tocaram, e tentou comparar com o que sentia sempre que Pedro a tocava. Não se lembrava das caricias dele! Seria possível?! Foi seu namorado desde os 15 anos, e até aos 21, altura em que, este achou bem, ir para a cama com Rita. Uma colega dela no escritório! Felizmente o Sr. Gomes oferecera-lhe aquele emprego e pode deixar de se cruzar com eles. Fizera mudanças na sua vida, mas nenhuma delas incluía um homem. Comprou casa, adoptou Napoleão, e decidiu que dali para a frente, ela seria senhora do seu destino. Não deixaria de fazer o que gostava só porque os demais não aprovavam. Como fez tanta vez por causa de Pedro...aquelas recordações fizeram-na sentir-se uma idiota. Durante muito tempo, quando fechava os olhos via-os nus na sua cama...
Saiu do chuveiro, recordar aquilo não a levava a lado nenhum. Nem a esclarecia sobre o que sentia por Carlo.

Na manhã seguinte ainda não tinha esclarecidos os sentimentos por Carlo. Nem conseguiu chegar a conclusão nenhuma durante o decorrer da manhã, enquanto fazia as tarefas domésticas. Depois do almoço deitou-se no sofá com Napoleão a seus pés. Por muito que tentasse ler não conseguia concentrar-se. Só pensava em Carlo, ele tinha dito que ela era doce. Só de pensar nele sorria.

- Estou completamente louca Napoleão... E de quem é a culpa? -ele latiu olhando para ela- Tens razão, devia de fazer algo a respeito.

Atirou com o livro para cima do sofá, apanhou o casaco e saiu porta fora. Precisava de pensar e conhecia o sitio ideal para por as ideias em ordem.
O Livros com cheiro cada vez tinha mais adeptos. Principalmente os domingos. Sentou-se numa mesa ao fundo e pediu uma das suas bebidas preferidas. Paixão da noite! A chávena fumegava na sua mão e ela perdia-se nos seus pensamentos olhando a rua. Se a sua mãe ali estivesse podia aconselha-la... que saudades dela! Os olhos encheram-se de lágrimas!  Carlo teria certamente a sua aprovação! Elegante, educado, charmoso, sexy...

- Afinal estás aqui.- Ana olhou em redor com ar de aborrecimento. -Não percebo o que vês neste sitio.
- Sabes que gosto de estar sossegada.
- O que um homem faz! Não eras assim antes de Pedro! Tens de seguir em frente!  Eu bem tento  animar-te, só Deus sabe como tento animar a tua vida, mas tu não facilitas rapariga!
- Não me quero animar, estou bem assim. Os homens só dão chatices.
- Amiga,alguns fazem maravilhas. Mas tens de os deixar chegar perto...
- Ana, por favor! Olha, que aconteceu com o loirinho?
-Ai amiga! O loirinho!!

 Cristy não precisou de se preocupar com a insistência da amiga. Ela já estava embalada contando detalhes do seu encontro com o loirinho. Chama-se Paulo e é advogado, veio a negócios por uns meses. E segundo ela faz maravilhas na cama. Nessa parte Cristy desligou havia detalhes que dispensava conhecer.  Não foi preciso muito para convencer Ana a saírem dali. Ana ainda ia passar na discoteca, convidou-a mas ela deu a desculpa de ter de trabalhar cedo e foi deitar-se. Com o vento frio a bater-lhe na cara ela clareou as ideias. Tinha de parar de fantasiar com Carlo. Podia beijar divinamente, e só com um olhar deixá-la a suspirar, mas que sabia dele? Nada!
Se com Pedro, que conhecia desde sempre, foi o desastre que se viu, que podia esperar de um estranho?
Um estranho lindo de morrer,,com uns olhos de a fazer perder o juízo!
E tinha a certeza de uma coisa, com Pedro recolheu os cacos e seguiu em frente, de cabeça levantada mas tinha a certeza, que se decidisse entregar-se a Carlo, não haveria cacos para recolher.
O melhor era dedicar-se ao trabalho, agora mais que nunca, tinha de se empenhar a 200 por cento com o novo patrão, se quisesse ter emprego.  Não se podia dar ao luxo de ir para o desemprego, tinha uma casa para pagar.

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