SEDE DE VINGANÇA 3º PARTE




Liz lia o jornal para Ariane quando Alexandros entrou em casa. Dirigiu-lhe um olhar tão frio como o próprio inverno.
- Boa tarde. Como te sentes?
Beijou a mãe e sentou-se junto desta ignorando-a. O resto da conversa foi em grego, o que irritou Liz. Olhou o relógio, felizmente estava na sua hora de saída. Deixou-os a sós e foi apanhar a sua mala para sair, mas nesse instante ele chamou-a.
- Pode dar-me um minuto antes de sair?
Liz assustou-se. Teria ele descoberto quem era, e foi isso que esteve a contar a Ariane?
Liz abriu a boca para lhe responder, mas ele já tinha entrado no escritório e deixara a porta aberta à espera que ela o segui-se.
- Feche a porta e sente-se.
Liz obedeceu. Ficou em silencio vendo-o mexer em papeis. Mexeu-se nervosa na cadeira.
- Se não está confortável aí sente-se no sofá.
- Obrigada, estou bem aqui.
- Não vou demorá-la, deve de ter um namorado à espera. Só queria comunicar que dentro de dois dias partimos para a Grécia. Espero que tenha o necessário para viajar.
- Sim. Não tem problema. Só preciso de arranjar casa perto da...
Alexandros interrompeu-a
- Só precisa da roupa. E leve roupa fresca, nesta altura está muito calor lá. Fica connosco.
- Mas...
- Nunca ficou em casa de um dos seus "pacientes"?
- Sim, mas...
- Então, não há nada mais a dizer.
Voltou a concentrar-se nos papeis como se ela já se tivesse ido embora.
- Até amanhã para si também.
Liz saiu batendo a porta com mais força do que queria. Aquele homem deixava-lhe os nervos à flor da pele. Nunca conheceu um homem tão prepotente, mal educado, exasperante e extremamente lindo!

Dois dias depois chegavam à Grécia. Liz estava meio perdida com a mistura de línguas que se ouviam no aeroporto.
- Como lhe tinha dito minha querida, Grécia é invadida por turistas todos os dias. Sei que é bom para a economia do país, mas perdeu-se a magia de outros tempos.
- Deve de haver sítios que ainda não foram "invadidos".
- Poucos, na sua maioria são pequenos paraísos escondidos. Alexandros um dia vai levá-la a um desses sitíos.
- Eu não quero fazer-me convidada.
- E não se fez. Como não a posso acompanhar pelas montanhas, Alexandros o fará.
- Farei o quê?
Alexandros olhava para a  mãe sem perceber a conversa.
- Levar Liz a ver as partes que ainda não foram invadidas por turistas.
- Não diga isso mãe. As pessoas podem interpretar mal.
- Na minha idade pouco importa o que os demais pensam. Não te esqueças de arranjar tempo para levares Liz a ver a "minha" Grécia.
- Não comece com essas coisas, ao menos perguntou-lhe se ela quer?
- Claro que quer! Quem não quereria?!

Ariane dirigiu-se para a saída sozinha e Liz não teve outra alternativa se não ir atrás dela.

- Este meu filho... às vezes pergunto-me porque insiste em recalcar a parte grega dele! Ás vezes faz-me lembrar tanto, o meu falecido marido...

Ariane calou-se e Liz ficou sem saber que dizer. Ela sabia muito bem, o quanto doí falar de quem já partiu. Apenas lhe segurou a mão. Quando Alexandros chegou junto a elas, estavam assim, de mãos dadas olhando o chão, cada uma entregue aos seus pensamentos.
Nenhum deles disse nada no trajecto até casa. O que proporcionou a Liz, a oportunidade de observar a paisagem. Nunca imaginou que houvesse tanta oliveira espalhada pelos campos. Nem ovelhas e cabras! Quando a viagem passou a fazer-se junto da costa, ela começou a ver pequenos barcos atracados e outros espalhados pelo mar. Até a brisa marinha lhe parecia diferente de todas as que já tinha sentido.
Estava tão absorta na paisagem, que nem percebeu que tinham começado a subir uma colina. As casas brancas pareciam acabadas de pintar. Quando Alexandros parou o carro viu que estava diante de uma casa enorme. Tinha imaginado que viviam num enorme palacete, mas enganara-se. A casa fazia-a lembrar uma vivenda espanhola. Tinha dois pisos e era rodeada por um jardim muito bem cuidado com as mais variadas flores. Na parede havia uma trepadeira verdejante com uns salpicos de vermelho.
- Entramos?
- Oh,desculpe. A sua casa é linda Ariane.
- Obrigada, a casa é do meu filho. - Liz notou uma certa tristeza na voz dela - A minha está em obras, fica na propriedade ao lado. Agora vamos descansar da viagem.

Alexandros tinha levado as malas com a ajuda de um empregado.  A casa estava fresca, contrastando com o calor que se fazia sentir na rua. Uma senhora muito afável veio abraçar Alexandros, ela percebeu que o carinho era mútuo pela forma como ele a abraçou.
Um jovem de nome Dorian, acompanhou-a até ao seu quarto. Como não sabia falar grego permaneceu calada, apenas lhe sorriu, quando ele fez uma vénia ao deixa-la só.
Abriu a janela, tinha uma sacada que dava para o jardim e podia ver-se uma parte da piscina. Deixou a janela aberta enquanto tirou as coisas para cima da cama. Estava a separar a roupa quando bateram à porta.
- Sim?
Como não obteve resposta foi abrir. Ao abrir a porta encarou com Alexandros.
- Espero que goste do quarto.
- Oh sim. É perfeito. Obrigada.
- Vim dizer-lhe que a minha mãe deitou-se. Como não fala grego e o pessoal da casa não fala inglês vai ser complicado fazer-se entender, por isso se precisar de algo estou no escritório.
- Obrigada, mas não vai ser preciso.
- De qualquer dos modos. O escritório fica do lado direito depois de descer as escadas. O quarto da minha mãe fica em frente deste. Se quiser se refrescar o quarto tem casa de banho privada, é aquela porta ali.
- Obrigada.

Liz fechou a porta e olhou a cama. Que vergonha! A sua roupa interior estava ali mesmo à vista! Que teria ele pensado ao ver a sua roupa de algodão em cores pastel?! Não tinha nada de atrevido... mas porque estava preocupada com o que ele pensava da sua roupa interior?  Certamente ele estava habituado a roupa mais sofisticada e de cor vermelha ou preta! Com raiva da direcção que estavam a levar os seus pensamentos atirou a roupa interior para dentro da primeira gaveta. Escolheu um vestido de algodão azul e umas sabrinas. Era um vestido de corte simples, mas ela gostava muito dele. A irmã tinha-lho comprado quando foi visitar o pai. Trazia-lhe sempre alguma coisa quando o ia visitar. Afastou aqueles pensamentos dolorosos.
Quando ia fechar a janela viu-o na piscina. Se vestido lhe parecera que era bem constituído, agora tinha a certeza. Estava perante uma perfeita obra de arte. Conseguia ver os músculos mexendo-se a cada braçada. Quando saiu da piscina o coração dela disparou. Imaginou as gotas de água a escorrer pelo seu tronco nu... ele passou a mão pelo cabelo e saiu do campo de visão dela. Com o rosto afogueado meteu-se no duche e tomou banho de água gelada! Tinha ido para vingar a irmã não para cair na mesma teia! Esfregou-se com força para castigar o seu corpo traiçoeiro. Se a sua irmã fosse viva diria-lhe que estava assim porque precisava de sexo! Se calhar tinha razão... mal se lembrava da última vez que esteve com um homem! Foi algures, um ano depois da morte da irmã... e não estava orgulhosa dessa noite. Tinha saído com o seu ex, precisava de descarregar a dor... mas acabou por beber demais e quando acordou estava na cama dele!  Foi a maior vergonha da sua vida!

Vestiu-se e olhou-se no espelho, o vestido acentuava as suas curvas e o seu peito. Optou por deixar o cabelo solto. Assim ocultava uma parte dos ombros descobertos! Pegou num livro e desceu para o jardim. Encontraria um lugar sossegado para ler. De preferência bem longe da piscina!
Com uma casa tão grande, com certeza que haveria algum sítio onde pudesse ler, sem cair em tentação. Mas o único sitio que encontrou com cadeiras, ficava junto à piscina, embora ele já não estivesse ali, podia sempre voltar. Era melhor regressar para dentro e ler no quarto.
Meia hora mais tarde Ariane acordou. Ajudou-a a descer e tomaram chá junto à piscina. E deu por si a imaginar Alexandros dentro de água, em vez de prestar atenção a Ariane. Esforçou-se por dar-lhe a devida atenção. Durante o resto da tarde ficaram sozinhas. Ariane não gostou da ausência do filho, podia perceber isso pela maneira com que falava com a mulher que tratava da casa. Soube depois que se chamava Maria.
- Como vou comunicar com eles se, eles não me entendem nem eu os entendo a eles?
-  Não pensei nisso. Mas se precisares de algo estou aqui, e Alexandros também.- Ariane estava visivelmente irritada com a ausência do filho - Se não estiver na cidade!
- Não se pode enervar. Possivelmente teve de se ausentar por causa do trabalho.
- Possivelmente.

Deram a conversa por terminada. Jantaram e depois de Ariane dispensar o pessoal Liz leu um pouco a Ariane. Duas horas depois deitaram-se.
Liz não conseguia dormir, olhava o tecto do quarto, e quer fecha-se ou abri-se os olhos, via Alexandros a sair da piscina. Sentiu uma raiva dentro dela...como era possível sentir qualquer tipo de atracção por ele? Se ela se sentia assim, como poderia a sua pobre irmã lutar contra isso? Quando não passava de uma adolescente?
Levantou-se e pensou em ir à cozinha beber água fresca, não devia de ser difícil de encontrar.
 Começou a descer as escadas tentando não fazer barulho. Respirou de alivio quando encontrou a cozinha!
Abria e fechava os armários tentando encontrar um copo...estava a ser mais difícil que dar com a cozinha!

- Se procuras os copos estão na porta de vidro.

Assustou-se com a voz de Alexandros. Tinha-a tratado por tu?! Pelos menos assim lhe pareceu.

- Que susto! Quer que me dê um ataque?!
- Depende..

Subitamente ele estava em frente dela, pode sentir o calor do corpo dele, quando levantou a mão por cima da cabeça dela e apanhou um copo.

- Obrigada.

Liz agarrou o copo mas ele não o largou. A sua mão parecia pequeníssima junto à dele. Liz sabia que devia de sair dali o mais rápido possível, mas as suas pernas não lhe obedeceram... estavam coladas ao chão assim como os seus olhos estavam colados aos dele. Alexandros inclinou-se lentamente, até que a sua boca cobriu a dela. Sabia a wisky...Primeiro abriu muito os olhos depois fechou-os, os braços que estavam esticados junto ao seu corpo depressa subiram para se apoiarem no pescoço dele. Quando a língua dele forçou a entrada na sua boca e começou a brincar com a língua dela, ela suspirou de prazer... sentiu um calor estranho apoderar-se do seu estômago e gemeu de novo...a sua cabeça dizia que tinha de fugir e depressa mas o seu corpo queria mais... as mãos dele já estavam debaixo da sua camisa de dormir acariciando as suas costas ao mesmo tempo que a puxava para ele. O som do copo a bater no chão foi o que a fez cair em si...afastou-o e saiu dali sem olhar para trás. Sabia que se o fizesse talvez voltasse para os braços dele. E isso estava fora de questão!
Liz atirou-se para cima da cama e respirou agitada por uns minutos.Que fazia pela manhã quando o encontra-se?  Levou a mão aos lábios,ainda estavam quentes...podia sentir o sabor dele... ele tinha bebido...foi por isso que a beijou! O melhor seria fingir que nada tinha acontecido... uma vez ela também fizera algo parecido e arrependia-se até hoje! Definitivamente era melhor fingir que nada de mais se passou.
Dormiu mal, em consequência disso levantou-se com dor de cabeça. Ariane ainda dormia, sentou-se na cadeira junto à cama dela e olhava-a quando esta acordou.

- Não encontras nada mais interessante para fazer que ver uma velha dormir?
- Bom dia... não, não encontrei. E a Ariane não é velha.
- Claro que não. Preciso de ti porque tenho vinte anos!
- Estamos de mau humor? Quer ficar uns minutos sozinha ou posso preparar as coisas para o banho?
- Desculpa. É este dia...esquece. Sim, obrigada.

Ariane entrou no duche com a ajuda de Liz. Mas lavou-se e vestiu-se sozinha. Enquanto esta se penteava Liz olhava-a com carinho, começava a gostar dela. Desceram para tomar o pequeno almoço,com sorte Alexandros não estaria presente e ela não passaria uma vergonha!
A mesa estava composta por sumo de laranja, leite,café, compota,bolo, pão que ainda fumegava e muita fruta fresca. Liz serviu Ariane e sentou-se em  frente dela.

- Porque escolhes-te esta profissão? É um pouco estranha para uma jovem.
- Apercebi-me que gosto de estar com pessoas mais velhas e juntei o útil ao agradável.
- E esse sentimento nasceu assim do nada?
- Não. A vida levou-me a precisar de cuidar de um familiar e foi aí que me apaixonei.
- Um pouco cedo para se falar em paixão, não?!

Alexandros entrou na sala e Liz queria ter um buraco para se enfiar.

- Há vários tipos de paixão. E a dela é de louvar!
- Se a mãe o diz.
- Sabias que escolheu esta profissão porque precisou de cuidar de um familiar?
- Não. Ainda cuidas-te dele muito tempo?

Alexandros parecia não se recordar da noite anterior. Ela tinha razão,foi a bebida que o fez beijá-la.

- Sim. Por três anos!
- Eram muito chegados?
- Sim.

Os seus olhos ficaram húmidos ao lembrar a mãe.

- Peço imensa desculpa! Não costumo ficar assim.
Limpou as lágrimas sob o olhar atento deles.

- Não tens porque pedir desculpa. Vamos mudar de assunto. Podes levar-nos a ver como vão as obras, ou tenho de pedir ao Dorian?

Ariane voltou-se para o filho com olhar suplicante,sabia que ele não entrava na casa, nem gostava que ela fosse lá.
- Não devias de ir lá. Mas sei que não adianta argumentar contigo. Posso confiar em ti para que não se exceda?
Liz quase que se engasgou com o café, não estava à espera que ele se dirigi-se a ela e muito menos que a trata-se por tu. Aquilo lembrava-lhe a noite anterior, seria essa a ideia dele?
- Claro. Não é para isso que aqui estou?
- Então está combinado. Deixo-as lá quando for para a cidade e depois Dorian vai buscá-las.

- Dizem que quando chegamos a uma certa idade voltamos a crianças. Devo de estar nessa fase, pela forma como me trata.
- Apenas está preocupado consigo.
- Ele pensa que vou durar para sempre...um dia tenho de partir.
- Infelizmente todos partimos um dia.

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