SEDE DE VINGANÇA 2º PARTE
Liz manteve o olhar fixo no dele até que ele lhe voltou costas e se dirigiu à janela. Respirou fundo, foi preciso um esforço enorme para manter o olhar penetrante dele. Ainda bem que ele se voltou, não queria dar parte de fraca, mas não sabia se conseguiria manter o olhar por mais tempo.
- No seu currículo não diz que é insolente.
- Se considera insolente uma pessoa que não gosta de se ver rebaixada só porque lhe pagam o salário. Então sou! Mas pode ficar descansado, não me vou esquecer de acrescentar essa parte ao meu currículo.
- Se vai responder assim, começo a ter duvidas se será a companhia certa para a minha mãe.
- Ela é tão prepotente como você?
Ele voltou a encará-la. Ia jurar que desejava matá-la ali mesmo...
- Vamos ver como se dá com a minha mãe, afinal é com ela que vai passar o tempo. Ela é muito orgulhosa e é preciso muita paciência para a levar a fazer o que é preciso, não o que ela quer. Espero que consiga impor-se.
- Até à data não tive qualquer problema. Mas preciso de saber mais sobre a sua mãe, e do contacto do médico dela para me informar.
- Ela sofreu um pequeno enfarte do miocárdio à algum tempo... - ele voltou-lhe novamente as costas e ficou a olhar lá para fora como se aquilo lhe fosse desagradável. - Na idade dela, estas coisas são para se levar a sério.
- Estas coisas são para levar a sério em qualquer idade.
- Embora não pareça, está muito frágil, precisa de alguém que a faça cumprir o que lhe é prescrito.
Alexandros continuou como se ela não tivesse dito nada. - Estes últimos anos foram muito complicados... preciso de alguém em quem possa confiar a cem por cento. Não lhe vou ensinar o que deve ou não fazer. Ela gosta de ler mas ultimamente pede para o fazerem por ela, gosta de passear na praia e de apanhar sol no jardim, mas não pode ir sozinha e como deve de compreender eu não lhe posso fazer companhia o dia todo, estarei por perto mas não o suficiente para a vigiar, dentro de umas semanas voltamos para a Grécia. Conto em que nessa altura, estará disponível para ir connosco.
- A sua mãe está lá?
- Esta é a morada onde tem de se apresentar amanhã antes das nove.
Alexandros deu-lhe a morada e concentrou-se nuns papéis dando a conversa por terminada.
Liz saiu do edifício sentindo um pequeno sentimento de vitoria. Estava dentro da casa deles... e isso é que importava.
Passou no banco para se informar se precisava de fazer algo antes de ir para o estrangeiro. Quando chegou a casa confirmou a validade dos documentos. Sentou-se em frente ao computador para pesquisar mais sobre a doença da senhora Macney. Queria vingar-se, mas nunca iria descuidar o seu trabalho. Além de que, podia demorar um pouco a concretizar os seus planos e não queria ser acusada de negligência.
Quando na manhã seguinte Liz bateu à porta do luxuoso apartamento, estava ligeiramente nervosa. Este não era um emprego comum.
Um homem vestido de fato negro abriu a porta com ar solene
- Bom dia menina.
- Bom dia.
- Faça a favor de me acompanhar...
Liz sentiu-se incomodada com tanto luxo...já tinha visto muitas casas de gente abastada mas como esta nunca. Olhou o lustre do salão, sentiu pena da desgraçada que tinha de limpar tanta gotinha!
- Entre menina. Deseja um café, um chá?
- Não. Muito obrigada.
- Com sua licença menina.
E com uma vénia deixou-a sozinha na sala. Entreteve-se a observar a divisão. Devia de ser a salinha de leitura. Tinha uma cadeira junto à janela e junto a esta uma mesa de apoio e um candeeiro. Numa outra mesa, um arranjo de flores animava o ambiente. Uma estante enorme, tanto em altura como em largura, ocupava a maior parede da divisão com todo tipo de literatura. Só vira tanto livro junto na biblioteca.
- Bom dia. Vejo que é pontual. É um ponto a seu favor.
Liz assustou-se. Não estava à espera que ele ainda estivesse em casa.
- Bom dia. Não sabia que estava a ser avaliada por pontos.
- Somos avaliados das mais variadas formas.
- Vou ter isso em consideração. A sua mãe?
- Está a acabar de se vestir... é uma das coisas que insiste em fazer sozinha.
Pela expressão dele, percebeu que não concordava.
- Se é capaz não vejo porque não.
- Pensei que o seu dever era cuidar do bem estar dela.
- Isso não quer dizer que tenha de a tratar como uma inválida.
- Gosto desta rapariga... Bom dia menina Roice.
Assim como o filho a sra Macney entrou sem fazer barulho.
- Bom dia minha senhora.
- Trate-me por Ariane. Fazem-me sentir velha quando me tratam por senhora. Não é Vicente?
O homem que anteriormente abriu a porta, sorriu e depositou a bandeja com café e uns bolos em cima da mesa antes de se retirar.
- É sim minha senhora.
- Importas-te de servir o café Alexandros? Sente-se menina Roice ou prefere que a trate de outra forma?
- Lizabeth ou Liz. Como preferir.
Alexandros serviu o café às duas e sentou-se numa cadeira mais afastada.
- O meu filho já conseguiu convencê-la a fazer-me a vida negra com regras e restrições idiotas?
- Ainda não falamos muito a esse respeito. Geralmente costumo falar com o médico para ver o que pode ou não fazer. Não costumo acatar as decisões dos familiares. Eles tendem a tratar os pais ou tios como se fossem u
mas crianças.
- Ouviste?
Ele apenas acenou, e olhou-a com o mesmo olhar que lhe dirigira no escritório quando lhe respondeu. O que ele pensava dela, pouco ou nada lhe importava. Ela tinha de conquistar a mãe, e assim conseguir informações. Quem melhor que a matriarca para lhe dizer o que precisava?
Pouco depois ele saiu e deixou-as a sós. Oficialmente começou o dia de trabalho dela.
Ariane pediu-lhe que lhe lê-se um pouco. Depois de almoçarem deitou-se um pouco. Costumava cansar-se com alguma facilidade. Disse-lhe que podia fazer que quisesse, enquanto ela estava a descansar. Pensou ir falar com o resto dos empregados, mas desistiu. Podiam suspeitar. Mas acabou por oferecer a sua ajuda. Como negaram a sua ajuda, foi ler um pouco na sala. Mas manteve a porta aberta para o caso de Ariane a chamar.
Por voltas das cinco chamou-a e disse-lhe que queria ir até ao jardim. E assim fizeram, desceram e foram até ao jardim, que ficava nas traseiras do bloco de apartamentos. Ariane fez-lhe muitas perguntas sobre o motivo de ter escolhido esta profissão. Não é comum em jovens da sua idade. Dissera-lhe. Liz, contou-lhe o suficiente para satisfazer a curiosidade. Como o dia estava solarengo sentaram-se a apreciar o por do sol.
- Sempre gostei do por do sol... Tem qualquer coisa de especial. Não acha?
- Sim. Mas gosto mais de o ver na praia.
- Quando estivermos na minha terra vai ver. Nunca na sua vida viu, nem vai ver, um por do sol como aqueles.
- São assim tão especiais?
- Há qualquer coisa no ar... o som do mar parece o canto das sereias que tentam enfeitiçar os homens.
- Sereias?! Não me diga que acredita nisso!
- Não há mal nenhum em acreditar, se isso nos faz mais feliz.
- Tem razão. Não há mesmo. Mas agora devemos ir. não quero ter uma batalha com o seu filho logo no primeiro dia.
- Não parece ser do tipo de ter medo de travar uma guerra, muito menos uma batalha.
- Não, desde que a mesma seja necessária. O que neste caso não é, é perfeitamente evitável. Amanhã voltamos aqui ou onde quiser.
Quando Alexandros chegou ela estava de saída. E como vinha a falar ao telemóvel não lhe dirigiu palavra.
Nos dias seguintes Ariane falou da sua terra natal, todos os dias tinha algo de novo a contar. E ela aprendeu imenso. Aprendeu que Corfu era uma ilha lindíssima, onde as praias se sucedem umas às outras mas também tem muita vegetação. Parte da ilha é montanhosa. E cheia de turistas o que fez com que a actividade principal outrora piscatória agora fosse o turismo! Liz ficou com a sensação, que ela preferia a velha Corfu! Adorou o relato que fez de Atenas a capital, o coração de toda a Grécia. A praça Sintagma onde está o parlamento, Plaka um dos bairros mais antigos e mais visitado devido à sua importância histórica...
Quando regressavam a casa Ariane ainda relatava algo do seu amado país.

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