SEDE DE VINGANÇA 7ª PARTE
O riso das crianças ouviam-se cada vez mais perto, Liz afastou-se de Alex e voltou para junto de Ariane.
- Gostas-te da ponte?
- É linda! A julgar pela ponte o lago era grande, não percebo como secou?
- Ele não te contou?
Liz negou com a cabeça e sentou-se na manta junto à cadeira de Ariane, com a mesma expressão que uma criança tem quando aguarda o final da história.
- Bem, dizem que viveram felizes por muitos anos. Quando ela morreu o desgosto foi tal que ele se matou nessa mesma noite para seguir viagem com a sua amada. A nascente que alimentava o lago secou no dia seguinte e por consequência o lago secou anos depois.
- Que romântico...
- É. Temos muitas lendas mas esta é das mais bonitas. Uma das minhas favoritas.
Alex já tinha regressado e sentara-se junto à mãe.
- Desde que tenha romance à mistura as mulheres acreditam em tudo!
- Tu não lhe ligues. Este é o lado inglês dele a falar.
Alex levantou-se mais depressa do que se sentou e afastou-se. Liz notou que ficou magoado com a observação.
- Acho que ficou chateado.
- Basta insinuar parecenças com o pai e ele fica assim.
- Geralmente temos orgulho em sermos parecidos com os nossos.
- Dizes bem, geralmente!
Durante o resto da tarde contaram historias e adivinhas. Abandonaram o local quando se estava a por o sol. Ao invés da viagem de ida, agora Ariane dormia. Alex parou numa estação para abastecer o carro e ela aproveitou para beber café. As pessoas da estação olhavam para a televisão. Olhou curiosa o ecrã. A fotografia de Anne Murray estava num canto. Cuidara dela à alguns anos. Como não percebeu nada do que diziam abandonou o local. Quando chega-se a casa ligava o computador e via o que se tinha passado. Era assim que se mantinha ao corrente do que se passava no seu país.
Ariane já estava acordada e Alex esperava por ela.
- Desculpa...não era minha intenção demorar-me.
Alex ligou o carro mas não disse nada. Algum tempo depois ele rompeu o silêncio.
- Percebeste do que falavam?
- Quem?
Liz não percebia do que ele estava a falar.
- Na estação.
- Oh. Vi apenas a foto de Anne mas não percebi.
- Comentavam a morte dela.
- Morreu?!
Liz estava verdadeiramente chocada. Conhecera Anne quando esta tivera um acidente e precisara de várias operações. Como insistia em ficar em casa contratara Liz para a acompanhar. Esteve com ela 3 anos e afeiçoou-se a ela. Tinha pena dela. Embora fosse uma mulher jovem, era muito solitária. Era dona de um império de perfumes, nunca lhe conhecera namorado ou mesmo amigos! Recordava que tinha um parente afastado que apenas aparecia para pedir dinheiro.
- Conhecia-la?
- Sim. Trabalhei para ela.
Liz olhou a paisagem tentando esconder o quanto a afectava a noticia. A sua mãe tinha razão quando dizia que ela não servia para certas coisas, pois tinha um coração muito mole.
Assim que cuidou de Ariane e depois de um duche sentou-se ao computador para tentar perceber do que tinha falecido Anne. Mas o computador dela não queria ligar. Desligou-o e voltou a ligá-lo mas nada! Sentiu-se frustrada. Se queria saber o que se tinha passado teria de pedir a Alex. E neste momento não tinha forças para o encarar sem cair nos seus braços se ele assim o quisesse. Mas queria saber que tinha acontecido. Abriu a porta para ir falar com ele mas desistiu. Afinal, saber hoje o que acontecera não alterava nada.
Demorou a adormecer e acordou cedo demais. Ariane e Alex ainda dormiam. Correndo o risco de irritar Maria foi até à cozinha fazer café. Para sua surpresa esta não estava. Fez café e sentou-se à mesa da cozinha. Pobre Anne, vivera só e partia mais só ainda. Chorou ao lembrar-se da sua irmã e da sua mãe,elas tiveram quem as amasse, e ainda hoje tinham quem as chora-se. Mas quem choraria Anne?! O primo que se aproveitava dela?! Apostava que estava feliz, agora podia deitar a mão ao dinheiro.
Estava tão embrenhada nos seus pensamentos, que nem notou que Alex estava na entrada da cozinha.
- Eras muito chegada a ela?
Liz limpou as lágrimas com a costa da mão antes de encará-lo.
- Ligo-me com muita facilidade às pessoas.
- Se te afecta tanto, devias de pensar em mudar de profissão.
- Gosto do que faço. - Descarregou nele toda a raiva - Se posso dar um pouco de alegria aos que me rodeiam, porque não fazê-lo? Aliás,o que mais há, é gente a fazer as coisas sem vocação. Por isso há tantos maus profissionais.
- Não era minha intenção irritar-te.
- Pois não parece.
Liz levantou-se abruptamente, estava chateada por não poder acompanhar Anne no último adeus. E agora vinha ele, a duvidar da sua capacidade para este trabalho. Se chorava quando um dos que cuidava partia, era problema dela e de mais ninguém! Era melhor subir antes que disse-se algo que se arrepende-se.
Alex continuava na entrada, e pela postura dele não tinha ideias de se desviar. Tentou passar por ele mas agarrou-a por um braço.
- Não resolves nada ao esconderes o que sentes.
- O que sinto é problema meu. Mas não te preocupes, os meus sentimentos não vão interferir com o meu trabalho.
- Não estava a pensar nisso.
Sem que ela espera-se puxou-a para ele e abraçou-a. Ainda tentou soltar-se mas os braços dele envolviam-na num calor reconfortante, se fosse sincera, gostava daquela sensação de apoio. Não tentou beijá-la, apenas a abraçou e sussurrava palavras ininteligíveis para ela. Pouco depois Liz soluçava nos braços dele.
Há muito que precisava de chorar assim. Levantou a cabeça do peito dele. Olhou a camisa dele molhada pelas lágrimas.
- Desculpa. A tua camisa...
- Não te preocupes. Estás mais calma?
- Sim, obrigada. Eu não costumo...
- Possivelmente devias.
- Tenho de subir.
Estava a fugir dele, ela sabia isso muito bem, mas tinha de ser. A cada dia que passava ela sentia mais a falta dele. Desejava estar com ele cada vez mais. Ela que era tão ponderada, ultimamente andava a sonhar acordada. Definitivamente, tinha de partir assim que Ariane estivesse melhor. E antes que o desejo se transforma-se em algo mais forte.
Dois dias depois, estava com Ariane na piscina quando Alex apareceu. Liz sentiu que o seu biquíni era pequeno demais.
Mas ele pareceu não dar importância ao facto. Apenas comunicou que à noite haveria um jantar especial.
Pouco tempo depois chegou um carro com duas raparigas e um rapaz.
Liz saía do duche quando ouviu bater à porta. Olhou o relógio, eram cinco horas! Devia de ser Ariane, demorou-se mais do que o que queria.
- Desculpe...- calou-se ao ver Alex- Pensei que era a tua mãe.
- Está lá em baixo. -o olhar dele fixava-se numas gotas de água que escorriam pelo seu pescoço e desciam até à toalha junto aos seus seios. - Pensei no que disseste. - Alex entrou no quarto e fechou a porta. Um arrepio percorreu a espinha dela.
- Sobre o quê? -a voz dela saiu rouca.
- Sobre o facto de estar a magoar a minha mãe. - Alex não desviava o olhar dela, o formigueiro que ultimamente a acompanhava quando estava com ele, invadiu o seu estômago. Era melhor vestir-se primeiro.
- Podemos falar depois de me vestir?
- Prefiro ver-te sem roupa. - o olhar que lhe deitou reforçou as palavras dele.- Mas terá de ficar para outra hora. Convidei a família da minha mãe para jantar.
- Fico muito feliz por isso. Já...
Sem que ela estivesse à espera viu-se nos braços dele, a boca dele invadindo a sua... as suas mãos acariciando a pele que estava exposta...o beijo dele era exigente, carregado de desejo... desejo que era mutuo, instintivamente chegou o seu corpo ao dele...ouviu-se gemer... mas Alex afastou-a.
- Como disse, numa outra hora.- acariciou a face rosada dela - Não devem de tardar a chegar. As famílias gregas tendem a exagerar quando se trata de estar com a família. Assim que estiveres pronta desce.
Liz sentiu-se uma idiota. Pouco faltou para lhe suplicar para fazer amor com ela! O seu corpo tinha prioridades diferentes das da sua cabeça! Tinha de fazer algo quanto a isso!
Vestiu um vestido azul de seda com alças finas, completou a toilette com umas sandálias abertas em azul escuro. Prendeu o cabelo no alto da cabeça. Olhou-se no espelho, estava elegante. Simples mas elegante. Não queria envergonhar Ariane diante dos seus familiares.
Quando chegou a meio das escadas começou a ouvir conversa e musica de fundo.
A sala estava repleta de gente. Calaram-se ao notarem a chegada dela. Sentiu-se a Cinderela quando chegou ao baile.
Ariane veio em seu auxilio.
- Estás linda. Vem, vou apresentar-te, pelo menos até que as minhas pernas aguentem - Ariane andou com ela pela sala, ficou tonta com tanto beijo e abraço - Esta é a minha prima Kátya. - Liz reconheceu a mulher da pastelaria. Sorriram ambas e esta agarrou em Liz e levou-a até à outra ponta da sala onde, depois de dizer algo em grego a deixou em frente a um jovem que sorria.
- Olá. Sou Mateus, filho de Kátya. -o sorriso dele era refrescante e falava inglês, ainda que com sotaque! - É um prazer conhecer a jovem que cuida da minha prima.
- Obrigada. Prazer, sou Liz.- estendeu a mão ao jovem mas este agarrou-a e deu-lhe um beijo, o que a deixou embaraçada.
- Vocês ingleses são tão frios. Se estás em Roma sê romano. Não é assim que dizem? - Liz viu-se envolvida por uns braços fortes e conduzida até uma cadeira onde ele começou o inquérito sobre a vida em Inglaterra.
Liz sentiu-se contente por ter alguém com quem falar sem ser Alex. Ficou a saber que Mateus, estudava medicina e pensava ir para Inglaterra estagiar. Prometeu ajudá-lo, se nessa altura estivesse lá.
Alex entrou na sala e Kátya correu a abraçá-lo. Ela notou que ele não estava à vontade com aquilo.
Os seus olhares encontraram-se e lembrou-se dos seus beijos e do calor das suas caricias... começou a ficar com calor. Desviou o olhar e pediu desculpa a Mateus. Precisava de apanhar ar. Os sentimentos dela por ele estavam cada vez mais confusos. Desejava-o. Isso era ponto assente. Não era a primeira vez que desejava um homem, mas nunca com esta intensidade! Já tivera alguns namorados mas ele fazia-a pensar nele dia e noite...imaginar as suas mãos percorrendo o corpo dela... o calor da sua boca na dela...
- Ah, então foi aqui que te escondes-te.- Mateus interrompeu os seus pensamentos - Aposto que estás com saudades de casa.
- Sim, um pouco. - Liz sorriu para ele - Vamos para dentro?
- Se prometeres sentar-te ao meu lado no jantar.
- Tenho de me sentar junto a Ariane. Vim para cuidar dela.- Liz esperava que ele aceita-se essa explicação. Não queria ser mal educada. - Espero não estar a ser mal interpretada. Gosto de falar contigo mas tenho de fazer o meu trabalho.
- Então fica prometido uma dança.- dito isto agarrou-lhe o braço e acompanhou-a até à sala de jantar.
Os jovens que tinha chegado no fim da tarde fizeram um óptimo trabalho. A sala de jantar estava linda, a mesa enorme composta com dois centros de mesa com rosas vermelhas e flor de laranjeira perfumavam o ar. As velas espalhadas pela mesa estavam acesas, apesar da boa iluminação da sala.
Pediu desculpa a Mateus e juntou-se a Ariane.
- Está tudo muito bonito, não achas? - Ariane estava emocionada - Há muito que sonhava com este dia. Já posso morrer feliz.
- Não diga isso. Ainda tem muito tempo pela frente. - Liz sentiu um aperto no coração, sabia que um dia Ariane também iria partir. - Hoje não é dia de conversa tristes. Aliás, ainda tem de ver o seu filho casar, os netos... -Liz interrompeu a lista quando Ariane apertou a mão.
- Isso é um pedido demasiado grande. Até mesmo para Zeus! Mas tens razão. Hoje é um dia de felicidade.
O jantar de reencontro foi um sucesso, Ariane estava esgotada. E assim que os convidados saíram ela foi deitar-se.
Liz estava cansada mas sem sono, abriu a janela, a noite estava quente e convidava a um passeio. Sem pensar duas vezes descalçou-se e saiu para o jardim.
Sabia-lhe bem o fresco da relva sobre os seus pés... sentou-se num banco de pedra a olhar a lua. Costumava fazer isso quando a irmã estava fora, por influência do filme " My dear John", que a irmã adorava, combinaram que onde quer que estivessem à meia noite iam olhar a lua e assim sentiam-se mais perto uma da outra. Os olhos começaram a ficar húmidos, a dor teimava em queimar-lhe o peito. Saber que a irmã conduzia o carro não aliviou a dor.

Comentários
Enviar um comentário