TUDO O QUE NUNCA TE DISSE
Foi esta frase ouvida na pastelaria que me fez querer contar-te certas coisas, coisas que nunca te contei. Mas agora que me decidi não sei por onde começar..
Sempre desejei que fosses acima de tudo feliz! Não importava o resto. Felicidade é tudo o que te desejo. Mas acho que todas as mães são assim.
Costumas dizer que nunca te impus as minhas ideias, que te deixei seguir pelo caminho que escolhes-te. Mesmo que isso significa-se cair de cabeça! Não compreendias, nem compreendes, porque sou assim. Hoje ao ouvir aquela frase, e o facto de estar na recta final dos cinquenta, fizeram disparar o alarme aqui dentro. Que sabes de mim?! Apenas o que viste desde que nasces-te! Tudo o que vivi e me fez ser o que sou tu desconheces!
Mas uma coisa tu sabes, sempre me dei a muitos detalhes, a contar tudo com pormenores.
Resolvi escrever-te pois é mais fácil exprimir o que sinto e rever se é mesmo isso que quero dizer! As palavras essas, depois de ditas não há volta a trás!
Deixei-te fazeres as tuas escolhas, a cometeres os teus erros. Não quero que olhes para trás e vejas que não vives-te isto ou aquilo porque outros escolheram o teu caminho! Que a vida passou sem que tenhas realizado um único sonho! Como eu...
Deixei os meus sonhos todos lá atrás, guardo com carinho algumas lembranças, mas não passam disso, lembranças.
Lembro o meu primeiro amor aos 12 anos, amor que me foi negado viver, nessa altura os pais proibiam e obedecíamos. Acho que chorei por meses a fio! O mundo parecia acabar, mas não acabou! Mas acabou anos mais tarde, pelo menos cá dentro!
Se fechar os olhos vejo-me a sair da escola, de calça de ganga, t-shirt e livros no braço! Era moda! Mochilas era para o primeiro ciclo!
Passávamos as tardes sentadas numa esplanada a estudar, e a deitar olho aos rapazes mais velhos. Quando se tem 17 anos achamos os rapazes da nossa idade uns autênticos miúdos. Por isso espalhávamos os livros na mesa e entre a física e a matemática íamos vendo as "vistas".
Mas nessa terça feira tudo mudou! Houve jogo de futebol, coisa que detesto, as minhas poucas amigas foram ver e deixaram-me sozinha.
Na televisão estava a passar um programa sobre viagens e estavam a falar de Itália! O meu sonho! Esqueci-me dos livros e fiquei absorvendo tudo o que se passava no ecrã. Tomava notas do que achava digno de registo quando alguém se sentou na minha mesa. Achei uma insolência um dos miúdos interromper-me. Baixei a vista para lhe dar uma lição quando vi um homem!
- Estás a estudar Italiano? - Ele perguntou sorrindo, o sorriso mais lindo que já tinha visto.
- Não. - Gaguejei, e fiquei envergonhada, continuei a ver televisão tentando não lhe prestar atenção. Ele apanhou uma das minhas folhas e começou a falar num italiano perfeito.
- Fontana di Trevi não se escreve assim. Importas-te? - Tirou-me o lápis da mão e começou a escrever.
Corrigiu o nome e começou a falar, passei a tarde a ouvi-lo, só me apercebi do tempo quando a Dona Rosa me disse que estava na hora!
- Posso ver-te amanhã? - Ele segurava os meus cadernos, acenei que sim com a cabeça.
Saí dali mais rápido que um relâmpago.
Cheguei a casa de sorriso nos lábios, a cantar uma musica italiana. E no dia seguinte lá estava ele à minha espera.
Disse que se chamava Luca, e que estava a estagiar cá .E contou-me mais coisas de Itália. Simpatizei com ele, e não estaria a ser sincera se escondesse que me sentia especial por um homem se interessar por mim! Acabei por me afastar das minhas amigas. Não contei à tua avó, não fosse ela proibir-me! Aliás, nunca contei a ninguém! Estou agora a contar-te a ti!
Em duas semanas tornamos-nos inseparáveis. As horas que passávamos juntos pareciam cada vez mais curtas. Um dia convidou-me para dar um passeio no jardim. Aceitei, agora parece idiota em comparação com o que vocês fazem hoje em dia, mas quando ele me agarrou a mão, senti-me a mulher, (era assim que me sentia junto a ele) mais feliz ao cimo da terra.
Por dois meses andei super feliz, encontrando-me com ele na saída das aulas.
Faltava uma semana para acabarem as aulas quando me pediu para falar comigo num sitio mais sossegado. Confesso que no principio tive medo, mas depois passou-me. Subi para o carro dele e saímos da cidade.
Não dissemos nada no caminho. Apenas ouvia a musica que passava na radio. Nunca mais esqueci essa musica: Dionne Warwick- I`ll never love this way again! Quando estacionou no meio do nada. Assustei-me. Comecei a ter medo, não devia de estar ali. Estava longe de tudo e de todos.
- Não precisas de ter medo. Quando quiseres voltar é só dizeres. - Agarrou-me a mão - Não consigo deixar de pensar em ti. Sei que é uma idiotice mas precisava de saber o que sentes.
Fiquei sem saber que dizer, apenas olhava para ele. E na minha cabeça apenas soavam as palavras: Não consigo deixar de pensar em ti... Que lhe devia de dizer?!
Ele saiu do carro e sentou-se no capo do carro. Fiquei a olhá-lo, se quisesse fazer-me mal já o tinha feito. Sai e fui sentar-me junto a ele.
- Isto aqui é bonito. - Acabei por dizer. - Nunca tinha vindo aqui.- Quem me ouvisse falar diria que costumava sair muito!
- Descobri este sitio uma vez que me perdi.- A mão dele tocou na minha, não sei se foi intencional mas não tirei a minha- Gostas do campo?
- Sim.
Acabamos por ficar ali por umas horas,a passear e a falar do que cada um gostava.
Um ramo de oliveira prendeu-se no meu cabelo (nessa altura era comprido) e ele ajudo-me a soltá-lo.
Mas acabou por me beijar, não me mexi quando a boca dele tocou a minha. Estava admirada, assustada...sei lá o que senti. Nunca me tinham beijado! A sua mão enfiou-se no meu cabelo e senti que me puxava para ele. Não fugi. Fechei os olhos e deixei-me levar por ele. E pelo que pensava ser um beijo. Afinal já tinha lido montes de livros sobre isso. Mas nenhum me preparou para as emoções que vinham com ele! O meu coração disparou, as minhas pernas tremeram, a minha cabeça girava...
O meu primeiro beijo! E dado por um italiano! Nunca mais ia lavar a boca.
Quando ele me soltou, acho que fiquei um tempinho, espero eu que muito pequeno, de olhos fechados.
Esse o foi o primeiro de outros que se seguiram mais soltos da minha parte. Tudo se aprende nesta vida!
Era feliz. Nada podia estragar a minha felicidade. Apenas o fim das aulas. Já não tinha desculpa para ir até à cidade para o ver!
No último dia de aulas saímos como costume a passear e voltei a casa depois de lhe prometer que ia ter com ele no dia seguinte. Já tinha a desculpa ideal! Ia à escola apanhar uns papeis.
Assim fiz, encontramos-nos no sitio do costume e ele disse que queria falar comigo sobre uma coisa. Fomos para o nosso sitio no campo. Depois de nos beijarmos sentámos-nos no chão.
- Queres vir comigo para Florença?
- Como?! - Não podia ser! Ele estava a convidar-me para ir com ele a Itália?!
- Sei que é repentino. Mas tenho de voltar e já não me imagino sem ti. Quero casar-me contigo.
- Casar?! Mas tenho apenas 17 anos!
Não sei quem levou o susto maior. Eu ou ele!
Naquele tempo eu já tinha o corpo que havia de ter aos vinte anos. Ninguém dizia que tinha menos de vinte! Aliás, costumavam gozar comigo por brincar com as crianças! Como se eu fosse adulta!
- Nunca pensei... Desculpa...- Ele não sabia que dizer- Vou deixar-te em casa.
E assim fez. Passaram os meses e nunca mais soube nada dele.
Chorei amargamente, como nunca tinha chorado. O mais difícil era esconder dos demais.
As aulas começaram e tudo voltou a ser como era antes, pelo menos aparentemente, e dava por mim à procura dele.
Quando começava a esquecê-lo, a Dona Rosa entregou-me uma carta.
Achei estranho pois a morada não era a minha, apenas o nome estava correto. Olhei o envelope, vinha de Itália! Não tinha remetente. Só podia ser dele.
Fui para casa, acho que nesses últimos meses nunca desejei tanto estar em casa como nesse dia!
Abri-a mesmo antes de fechar a porta do quarto.
Era dele, dizia que voltava a Portugal e gostaria de voltar a ver-me se eu quisesse. Que por esta altura, como já tinha 18 anos, podia ir com ele sem qualquer tipo de impedimento. Não precisava de levar nada, ele cuidaria de mim. Se os meus sentimentos por ele não tivessem morrido, se com o passar do tempo estavam como os dele, mais fortes, então bastava aparecer no sitio do costume. Ele estaria à minha espera.
Pois, não preciso de te dizer que não fui! Tive medo. E arrependo-me disso até hoje. Devia de ter ido! Podia não ter sido feliz, mas tinha corrido atrás dum sonho.
Casei com o teu pai dois anos depois. Não o amei como devia, mas sempre o respeitei.
Muitas vezes nesses anos de casados pensei no meu Luca... No que podia ter sido... Se pudesse voltar atrás e mudar o passado...
Mas se voltasse atrás onde estariam as coisas boas do meu presente?! Estaria disposta a abdicar delas por um futuro incerto?!
Posso concluir que dentro do possível sou feliz. Quando nasceste ensinaste-me um novo tipo de amor.
Tu foste e és a maior felicidade que a vida me deu.
Mas não me iludo, não há um único dia em que não me lembre dele. Agora que as noites são mais compridas e a solidão se abate sobre mim penso e se...
Por isso filha, nunca deixes que ninguém decida o que deves ou não fazer. Ouve todos os que te querem bem mas decide tu. para quando olhares para trás não sentires que viveste uma vida que não foi a que escolheste.
Sabes que sempre estarei aqui para ti de braços abertos.
Sendo mais que mãe, uma amiga para toda a vida.

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