ACASO DO DESTINO 3ª PARTE



A noite foi agitada, custou a adormecer e quando o despertador tocou já estava no duche. Ana ainda dormia, hoje só tinha aulas de tarde. A vizinha vinha vê-la mais tarde, fingindo precisar de algo. Ana achava que já tinha idade para ficar sozinha. Tinha de concordar, a sua filha estava muito crescida para a idade. Mas ainda se preocupava. Preocupada, era esse o seu estado de espírito ultimamente. Preocupava-se com a filha, com o  facto de esta ter de mudar de escola, com o novo emprego, com Rita, com a mãe desta que nunca mais apareceu, com Fernando que tinha visto meio despido...


- Já tirei os lençóis da Ritinha e do sr engenheiro. - Anita, tinha provado ser uma boa escolha. Não conseguia estar parada. Tinham dias em que de tarde pouco havia a fazer. Ainda havia caixas com coisas, mas foram proibidas de arrumar o escritório, que estava uma confusão.

Pediu a Anita para colocar no forno o peixe, e depois de deixar os lençóis lavados em cima das camas, saiu.  Rita tinha consulta na pediatra, era a sua primeira consulta com ela.
Estava tudo bem com a menina. A médica apenas pediu que volta-se à consulta dentro de três meses.

Pediu a Filipa que ficasse com Rita, enquanto ela ia ao escritório do advogado. Não teve as noticias que esperava. Disse-lhe que seria difícil deixar o emprego sem ficar na miséria. O contrato, não tinha em conta o tempo de experiência. Para efeitos legais, tinha começado a trabalhar no dia que tinha assinado contrato. Se quisesse deixar o emprego, tinha de avisar com 3 meses de antecedência. Mas tinha uma cláusula que dizia, que se não arranjassem quem a substituísse ela teria de ficar. E tinha de indemnizar a entidade patronal. E com o valor do ordenado dela, o valor não seria pouco. Devia de ter a desilusão espelhada no rosto, pois o advogado tentou conforta-la dizendo que geralmente essa cláusula é mais para desanimar. E tinha razão, estava desanimada!

Já tinha passado quase uma semana desde aquele incidente. Nem ela nem Fernando falaram no sucedido, preferindo ignorar a situação. Mas isso não a impedia de pensar no assunto, de como cheirava bem, de como era suave o seu toque, de como os olhos dele brilhavam...

Anita tinha pedido dispensa dessa tarde. Ia com o namorado falar com o padre, pois queriam casar.
Ela brincava com Rita no chão da sala, já tinham vestido as bonecas uma meia dúzia de vezes. Rita brincava com Lyon, o marido da Lita. Trapinho,a boneca de pano, era deixada no sofá. Não se separava dela, levava-a para todo o lado, mas não brincava com ela, era a sua companhia para dormir.
- O teu marido? - A pergunta apanhou-a de surpresa
- Já não tenho marido.
- Também partiu?
- Algo do género. - Como abordar a morte com uma criança desta idade?! - Sabes que às vezes as pessoas partem e nunca mais voltam.
- Sei. Uns vão para longe, outros para o céu. - Encolheu os ombros, como se não se importa-se - A bivó foi para o céu. O teu marido também?
- Sim, também.
- Então devem de estar juntos, a brincar. A bivó gosta muito de brincar. Abalou à dois dias.
 Teve vontade de chorar, aquela forma de encarar a morte tão simples. Na contagem do tempo notava-se a confusão sobre o assunto. o seu coração encolheu-se, tão pequena e já tinha perdido um ente querido.
- Olha, e se fossemos fazer um piquenique no jardim? Achas que a Lita e o marido gostavam?
- Boa!

Levaram bolo, sumo, bolachas uma manta,uma bola e o Lyon com a Lita. Trapinho ficou no sofá. Rita ouvia a historia atentamente sentada ao lado de Lita e Lyon.
- E cachos de oiro ficou amiga dos ursinhos. Fim
- Oh,acabou... outra vez...porfa...
- Eu não fui convidado?!
- Pai. - Rita saltou para o colo do pai, a alegria dela era evidente ao vê-lo - Estamos a fazer um pinique.
- Piquenique. Um piquenique -Ele corrigiu-a - Posso?
Sentou-se junto à filha e perante a insistência dela começou a ler a historia outra vez.

A sopa estava ao lume e os bifes temperados. O som das gargalhadas de Rita chegavam até ela pela janela da cozinha, olhou pela janela. Estava deitada na manta,com o pai a fazer-lhe cocegas. A sua filha brincava assim com o pai. Recordações que ela guardava, com o carinho que só uma mãe sabe guardar. E onde andava a mãe de Rita, para perder estes momentos que nunca mais se repetiam?
Concentrou-se no jantar. Pouco tempo depois deixou de ouvir a gargalhada de Rita.  Olhou lá para fora, já não os via.
Mexeu o arroz e tapou o tacho. Olhou o relógio, eram quase seis horas. Rita tinha de dar banho.
- Ela fala imenso em si. - Ele estava à porta da cozinha
- É uma menina muito especial. - Emocionou-se, ao saber que a menina falava nela - Ela precisa de tomar banho.
- Já está na casa de banho. - Sorriu - Insistiu em lavar o marido da Lita.
- Lyon. - O sorriso chegava-lhe ao olhar o que lhe dava um brilho especial - Vou ver dela.
Afastou-se dele, não controlava os seus pensamentos quando estava junto a ele. Começava a pensar mais nele do que devia e no que não devia. O melhor era evitar estar com ele. E foi isso que fez nos dias seguintes.

O namorado de Anita telefonou a avisar que ela estava doente. Teria o dobro do trabalho, foi ao supermercado e ao talho. Comprou pão na padaria e bebeu um café rapidamente com Filipa. Tinha muitas coisas para fazer.  Com o cesto da roupa na mão olhou o céu, umas nuvens aproximavam-se, mas devia de conseguir secar a roupa. Depois de estender a roupa fez o almoço com a ajuda de Rita, que ficou triste por o pai não vir almoçar. Passaram a tarde a fazer puzzles e jogar às escondidas.
O sol escondia-se no céu, ela já não sabia que fazer para distrair Rita, que continuava aborrecida. Colocou um dos filmes preferidos dela, a pequena sentou-se no sofá a ver televisão com Trapinho.
 Foi fazer o jantar, algum tempo depois deixou de ouvir o relato que Rita fazia à companheira, quando foi ver o motivo do silêncio deu com a pobre a dormir. Precisava de arranjar amigos, sem falta! Amanhã, ia com ela ao jardim, talvez fizesse alguma amiga. Ajeitou-a no sofá. Ao longe ouviram-se uns trovões. Depois de apanhar a roupa, contrariando as ordens dele, resolveu arrumar uns livros no escritório, que estavam ainda nas caixas.
Abriu as duas portas do escritório de modo a conseguir ver o sofá onde Rita dormia, estava em cima do escadote quando se apagou a luz.
- Perfeito!
A casa ficou na penumbra, quem diria que em pleno mês de Julho tinham trovoadas?! Deixou-se ficar uns instantes para se acostumar à escuridão que reinava na casa. Quando um trovão iluminou a sala viu-o junto ao escadote. Desequilibrou-se com o susto e se ele não a ampara-se, tinha caído.
- Que susto! - A sua voz estava sumida, viu-se novamente nos braços dele.
- A Rita? - Mas nem ele a soltou nem ela fez questão de se afastar
Catarina, podia ouvir o bater do seu próprio coração. Os batimentos aumentaram quando sentiu a respiração dele na cara.
- Dorme...
Não terminou, a boca dele apoderou-se da dela, com uma perícia digna de investigadores policiais, explorou a boca dela até ela gemer e se render. Sentiu as suas costas apoiarem-se na estante. Os seus dedos pareciam ter vida própria e entrelaçaram os cabelos dele e puxaram-no para si. Ao sentir a resposta dela apertou-a mais de encontro ao seu corpo. Quando sentiu o desejo dele junto à sua coxa parou. Que estava a fazer? Era casado! Afastou-o e saiu rapidamente de casa, dando graças por estarem sem luz.

Entrou em casa tão afogueada, que Ana assustou-se.
- Mãe! Que aconteceu?
- Nada, é esta trovoada.
- Mas tu...
Catarina não ouviu o que a filha lhe estava a dizer, atirou-se para cima da cama sem se despir.
Que estava a fazer? Abominava as mulheres que cedem aos desejos, sem se preocuparem com os demais. Ela que nunca conheceu outro homem, apenas o marido, via-se agora nesta ingrata situação. Como podia ter qualquer tipo de sentimentos, por um homem que mal conhecia e era casado?! Se queria manter o emprego tinha de estabelecer prioridades e impor-se regras. Não podia voltar a acontecer algo assim. E se a mulher dele volta-se quando estavam a beijar-se? Que vergonha!
Esta loucura tinha de terminar... independentemente do que estava a sentir.

Na manhã seguinte chegou cedo, fez o pequeno almoço e esperou na cozinha. Tinha de por um ponto final na situação, antes que fosse longe demais! Algum tempo depois, Fernando desceu.
- Precisamos falar. - Não o deixou falar - O que se passou ontem. Não devia.
- Não?!
- Não?! - Ele conseguia irritá-la com uma única palavra.  - Não vou dizer que não se passou nada. Seria, no mínimo, idiota da minha parte. Mas se quer que continue a cuidar da sua filha...
- Que queres dizer com isso? - Ele interrompeu-a
- Com o quê?
- Isso. Se quero que continues...
- Quer dizer isso mesmo.
- Estás a pensar deixar o emprego?
- Se for preciso.
- Não acredito! Por um simples beijo?! Não quero nem pensar que farias se te leva-se para a minha cama.
- E quem lhe disse que quero ir para a sua cama? - Na sua cabeça viu-o sem roupa saindo da casa de banho, fechou os olhos, aquilo era demais, a conversa estava desviar-se do que pretendia - Não mude de assunto, gosto muito da Rita mas se não parar com essas coisas, se não pode manter-se afastado...  Calou-se quando ele se riu.
- Parar?! Acaso estás a dar a entender que a culpa foi minha?
- Minha é que não foi.
- Claro! Disseste muitas vezes que não querias. Fui eu, tirei conclusões precipitadas, imaginei os teus dedos entrelaçados no meu cabelo. - Ela corou,e baixou a cabeça. - Se bem me lembro, ainda são precisos dois para certas coisas. Pelo menos era assim, desde a última vez que me lembro de fazer algo parecido.
- Seja como for. - Ela insistiu -Se quer que fique, isto não se pode voltar a repetir.
- Como desejar.

Durante o dia todo não voltou a casa. Rita ficava impaciente sempre que o pai não vinha a casa durante o dia.  Os dias foram passando e ele chegava cada vez mais tarde. Nos últimos dias, Rita já estava deitada, quando o pai chegava. Não queria dizer-lhe que, pelo menos, devia de almoçar em casa, que a filha sentia a falta dele, podia interpretar as coisas por outro prisma! Tentaria resolver a situação sozinha.
O passeio ao jardim não resultou, esteve sempre sozinha com Trapinho. Embora inventa-se as coisas mais absurdas, Rita acabava sempre por ficar aborrecida. Estava seriamente preocupada com a menina.
No supermercado, Rita, que geralmente corria pelos corredores ou empurrava o carrinho, agora vivia colada a ela.
- Olá. - A voz não lhe era estranha - A Aninhas como está? - Era Amélia, a professora da escola primária.
- Está bem obrigada. Como vai?
- Bem, obrigada. Ainda dando aulas. Esta é a sua mais nova?
- Oh, não! É Rita, filha dos meus patrões.
- Desculpe, pensei...
- Não se preocupe.
Conversaram por algum tempo. E acabou por lhe dar uma ideia sobre Rita. Porque não passar o resto do verão na pré primaria?! Ia fazer-lhe bem. Combinou ir ver a escola com Rita, que não parecia muito entusiasmada.
Entusiasmo que era partilhado pelo pai.
- Não me parece que seja benéfico para ela.
- Porque não?!
- Porque vai deixar de estar no seu ambiente e estar com gente estranha.
- Vai fazer amigos. aprender a escrever. Ou está esquecido que para Setembro, ela vai para a escola? Além de que, ultimamente anda muito triste. E o facto de não estar consigo, não ajuda. - Pronto, tinha dito!- Ultimamente não vem almoçar, e ela anda triste por isso.
- Vocês mulheres são complicadas.
- Nós é que somos complicadas?! Como assim?! - Ela não percebia o que ele queria dizer com aquilo.
- Não foi isso que pediste? Que me mantivesse afastado?
- Não disse para se afastar dela! - Agora tentava dizer que a culpa era dela?! - Apenas lhe pedi para se afastar de mim.
- E por acaso, ela não está contigo?
- Posso ir para outra sala. - Não queria acreditar no que ouvia!
- Claro. Ela pode ser pequena mas não é tonta. Vai perceber que há algo e... - Calou-se, passou a mão pelo cabelo - Esquece, não é por ti que não venho, as vinhas ficam longe e nem sempre me dá jeito vir. E depois é o solar... Mas tens razão, é melhor voltar a almoçar em casa. E deixa de me tratar por sr. engenheiro que me dás urticária.
- Preferia continuar...
- Eu também preferia voltar atrás e não posso. - Respirou fundo - Antes que penses o que não é, não tenho um só empregado que me trate por senhor engenheiro. Preferia não abrir precedentes.
- E a sua mulher que diz sobre isto?
- A minha mulher?! O que tem ela a ver com isto?
- Bem, deve de ter uma palavra a dizer sobre a escola.
- Ah, pensei que te referisses ao beijo.- Ela corou, preferia que ela nunca viesse a saber. - Ela não é incluída nas decisões que tomo.
- Em nenhuma? - Meu Deus, que tipo de casamento tinham?!
- Em nenhuma. Podes considerar-te responsável pela educação da minha filha.

Fazia dois meses que trabalhava para ele, e embora se mantivessem afastados, muitas vezes tinha a sensação que era observada.
Dona Amélia conseguiu arranjar vaga para Rita no início do ano escolar. Que, ao contrário do que ela supunha, adorou a escola.
Durante o dia andava muito ocupada, entre a casa e a compra de material escolar, não tinha muito tempo para pensar, já as noites eram um misto de saudade e luxuria. Os seus sonhos começavam com o marido e acabavam com ela, na cama com Fernando. Acordava agitada e cheia de raiva por não conseguir controlar os seus sonhos.

Finalmente arranjou um apartamento, Filipa ajudava-a nas mudanças, aliás, era ela que fazia a maior parte da mudança. Com os dias todos ocupados até tarde, não conseguia organizar as coisas com a rapidez que queria. Se não fosse pela amiga ainda nem tinha começado. Quando chegava a casa, Ana e Filipa estavam embrenhadas na arrumação enquanto Miguel fazia o jantar e ajudava com as coisas mais pesadas.
- Nem sei como te agradecer. Tens sido incansável.
- Para que servem os amigos? E não penses que te safas. Depois disto tudo queremos um jantar em condições. Não é meninos?
- E no restaurante mais caro da cidade. - Ouviu-se as vozes em coro dos dois jovens.
- Que bem ensaiado que está o discurso... Mas concordo, fica prometido um jantar no local à escolha dos trabalhadores.
- Assim é que é falar.
Ana e Miguel comiam pizza na sala, em frente à televisão, elas optaram pela pequena varanda da cozinha.
- E como estão as coisas lá no trabalho.
- Bem.
- Só bem? Conheço-te, andas distraída. Se tivesses a idade dos nossos filhos diria que andas a sonhar acordada.
- Não digas disparates. Estou apenas cansada.
- Cansada? Amiga, cansada andavas anteriormente. Agora andas pensativa. Abatida e embora te esforces por mostrar que estás bem, não me enganas.
- Andas a imaginar coisas.
- Será que depois do trabalho andas a encontrar-te com alguém às escondidas?!
- Só dizes besteiras.
- Hum! Então, andas a arrastar a asa ao patrão, se ele for... - A cara dela disse tudo - Ai amiga, estava a brincar, não pensei que...
- Ele é casado. Não quero falar nisso.
- Se te conheço, e sei que sim. Deves de estar a travar uma dura batalha contigo mesma.
- Batalha?! Não há batalha a travar, é casado, o assunto termina aí.
- Mas se a mulher não está, aliás nunca mais a viste, não se deve de importar muito com o que ele faz. Olha, marido meu não ficava sozinho tanto tempo com uma empregada, por muito feia que fosse.
- Obrigada pela parte que me toca.
- Não te estou a chamar feia.
- Eu sei, tento brincar com isto, está a deixar-me louca. Tanto que critiquei as mulheres que andam com homens casados que agora passo o dia a pensar num. Pior, as noites também.
- Isso resolve-se. Dá uma boa rebolada com ele.
- Estás louca?
- Mãe! - Miguel chamou Filipa. - Demoramos? Estou cansado.
- Vamos já.

A casa ficou num enorme silencio após a saída da amiga. Ana deitou-se e ela ficou a arrumar até mais tarde. Na manhã seguinte estava cansada, Tinha uma olheiras enormes, nem o corretor as disfarçou completamente.
O cansaço não passou despercebido a Anita, que se ofereceu para fazer o sábado se ela precisa-se. A tarde estava a terminar quando o telefone tocou.
- Eu vou atender. - Rita gostava de atender o telefone, ela ficava ali, ao lado para ela lhe passar a chamada depois. Mas desta vez não lhe passou a chamada. - Até já tia.
- Quem é?
- A tia. Diz que vem jantar, e vem com os avós.
- A tia e os avós?! - Que faria agora? Sem nada preparado... - A tia disse que vinha agora ou só ao jantar?
- Ao jantar.
Rita sentou-se a ver televisão com Trapinho.
- A família está a chegar e eu sem ideia do que fazer.
- Queres ajuda?
- Bem, algo tenho de fazer...
Passada a surpresa inicial, depressa resolveu que fazer. Pediu a Anita para ir ao talho comprar bifes, entretanto meteu mãos à obra. Quando Anita voltou, já tinha um creme de alho francês ao lume, faltava juntar o molho branco ao bacalhau com espinafres, e já tinha uma torta de chocolate cortada às fatias para fazer o gelado surpresa que Rita adorava. Desta vez não pensou em Fernando, nem deu por ele chegar. A confusão depressa se desfez, Anita lavava loiça e metia as coisas pequenas na máquina de lavar enquanto ela terminava a sobremesa.
- Boa noite Anita. - Ele estava admirado de a ver ainda ali. - Pensei que saísse cedo.
- Catarina precisou de mim sr. engenheiro, por causa das visitas. Mas estou de saída.
- Visitas?! - Fernando olhou para elas, Anita baixou o olhar e limpou as mãos ao avental. Atirou um até segunda feira e saiu.- As visitas...
- As visitas. Bem, a tua irmã e os teus pais estão a chegar.
-  Hoje?
- Sim, para jantar. Não sabias?
- Não!
- Vou ver se Anita arrumou a mesa. E vestir outro vestido a Rita.

A campainha tocou ela e Rita foram abrir. Mal abriu a porta viu a mulher dele, também tinha vindo! Já não era sem tempo! Mas no seu interior, sentiu uma facada.
- Tia! - Rita, abraçou-a. Tia?! Agora estava perdida! - Avó! O avô?
- Olá princesa. Não nos deixas entrar? O avô já vem, foi estacionar lá atrás. Mãe, esta é Catarina. Catarina, a minha mãe.  O meu irmão? - Rosa desapareceu escadas acima.
- É um prazer menina, Rosa foi daqui encantada consigo. Desculpe não termos esperado por si no dia que viemos trazer a menina. Sou Maria. A mãe de Fernando e Rosa.
Catarina não sabia que dizer, Rosa era irmã! Mas então a mulher onde estava?! Porque ela existia!
Um senhor de sorriso afável apareceu com umas malas.
- Boa noite, espero que não venhamos dar muito trabalho.
- O meu marido, Alberto.
- Boa noite, é um prazer. Entre, deixe-me ajudar com as malas.
- Eu levo as malas. - A voz de Fernando soou por detrás dela -Podiam ter avisado mais cedo.
- Desculpa filho. Sabes como é a tua mãe...
 Como era a mãe dele ela já não ouviu. Os dois desapareceram escadas acima. Deixando-a a sós com a mãe.
- Espero que gostem do jantar. Não fiz nada de especial.
- Certamente estará tudo muito bom. Fica para jantar connosco?
- Se precisar de mim.
- Não vamos precisar, mas será um prazer ter a sua companhia. Confesso que estou curiosa, depois de ouvir a minha neta falar de si, não podia deixar passar muito tempo.
- Obrigada. D. Maria.
- Tratas o meu filho com essa formalidade toda?
- Não mas...
- Então. Sou apenas Maria.

Rita parecia uma nova menina, alegre, Fernando passou muito tempo no escritório com o pai. Maria, olhava para ela como se estivesse observando uma espécie em vias de extinção. Deixou-as a ouvir as histórias de Rita e foi arrumar a cozinha. Era tarde, Ana já devia de estar a dormir... Ela também precisava de dormir. As conversa da sala chegavam até ela entre as gargalhadas da Rita. Sorriu, a menina bem que merecia um pouco de alegria. Esfregou o pescoço, estava exausta.
- Cansada? - Arrepiou-se ao sentir as mãos dele no seu pescoço - Eu avisei, uma cozinheira fazia falta, não tinhas tanto trabalho.
- Espero que tenham gostado.- Tentou fugir dele, mas ele não permitiu. Acentuou ligeiramente a pressão, fechou os olhos aproveitando a massagem, sabia-lhe bem.
- Estás estafada.
- Não tem importância. Se não precisares de mim vou indo.
- Claro, está mais que na tua hora. - Mas não parava de lhe massajar o pescoço.
- Obrigada. Às oito cá estarei.  Dás um beijinho por mim à Rita? - Ele afrouxou a pressão e ela tentou desvia-se. Mas as mãos dele mantinham-se na nuca dela, acariciando-a. Sem se preocupar com a família que estava na sala beijou-a. Um beijo, cálido, suave... sem segundas intenções. Mas que a deixou rendida.
-  O beijo da Rita...

Na manhã seguinte comprou o pão antes de ir trabalhar, queria ter o pequeno almoço feito quando acordassem. Não queria acordar ninguém por isso entrou pelas traseiras, mas Maria estava sentada na cozinha.
- Pensei em falar contigo, antes dos demais acordarem. Dás-me uns minutos?
- Sim, claro. - Sentou-se na cadeira em frente - Quer um café?
- Não, obrigada. Vou ser directa. Tens filhos?
- Sim, uma rapariga.
- O teu marido não se importa que fiques até mais tarde? -Maria não desviava os olhos da aliança que ainda brilhava no dedo dela.
- Sou viúva. Sinto-me nua sem ela.- Disse ao mesmo tempo que girava a aliança no dedo.
- Compreendo. Gostas da minha neta?
- Claro que sim, é impossível não gostar.
- Então responde-me. Este trabalho, é para ficares definitivamente, ou é para ires embora mal encontres algo melhor?
- Melhor?!
- Sim. Menos trabalhoso. O meu filho não tem o melhor feitio do mundo. É um anjo, desde que as coisas sejam como ele quer. - Fez uma pausa -Não é fácil cuidar de uma casa tão grande sem ajuda e com uma criança pequena as coisas complicam-se.
Ela sabia bem isso, já tiveram as suas discussões por lhe levar a contrária.
- Eu tenho a Anita, ela ajuda-me muito. E não estou a pensar em deixar a menina assim sem mais.
- Prometes?
- Não estou a ver o motivo...
- Ficava mais descansada se prometeres que só a deixas, se tiveres um motivo de força maior.
- Se prefere, prometo.
- Obrigada. Agora diz-me. No que te posso ajudar?
- Obrigada. Eu faço.
- Insisto.

Meia hora depois o cheiro de um bolo de laranja enchia a cozinha.
Depois do pequeno almoço levaram Rita a passear. Ela e Anita limparam a casa e almoçaram juntas. A conversa estava animada quando o telemóvel dela tocou, Fernando ligou a avisar que iam passar o dia fora. Se preferisse podia sair mais cedo. Depois de arrumarem a cozinha saíram.
Hoje chegava cedo a casa... já se imaginava na banheira cheia de espuma...
Ainda estava na banheira quando a filha chegou. Ana prontificou-se a tratar do jantar. Encomendou uma pizza! Quando ela saiu do quarto e viu a pizza não conteve uma gargalhada. Viram um filme e comeram em frente à televisão. Ana deixou-se dormir a meio do filme. Sem ninguém para conversar a sua mente divagou.
Descobrir que Rosa afinal era irmã de Fernando não lhe deu paz de espírito para justificar o beijo que deram. A mãe da menina devia de estar em algum lado. Que se passou para se afastar assim da filha? Ela não imaginava a sua vida sem Ana. Nada neste mundo a afastaria da filha. Maria não contou nada sobre a mãe da menina. Ser uma mãe ausente não era motivo para que ele a traísse.

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