ACASO DO DESTINO 6ª PARTE
Desta vez contratou uma empresa de catering, mas estava indecisa com a ementa. Estavam a discutir qual a melhor opção para o jantar quando tocaram à campainha. Como era costume, foi abrir. Uma mulher envolta numa nuvem de perfume, olhou-a de cima a baixo.
- Bom dia. - Ela ficou à espera que a mulher lhe devolvesse o cumprimento.
- Deve de ser a ama da Rita. - Entrou em casa sem cerimonia alguma - Nem vale a pena perguntar pelo meu marido. Deve de estar no trabalho, como sempre!
A mulher?! Ela ficou sem reacção, a mulher andava pela sala e passava a mão pelos livros.
-Desculpe mas...
- Não se preocupe comigo. Apenas vim ver como estão as coisas. - Fez uma pausa - Se o cómodo é o adequado. Acho que nos vamos dar bem. Desde que mantenha longe de mim a criança, seremos grandes amigas. - Voltou a olhá-la de cima a baixo - Não é o tipo de mulher que inspire preocupação.
Mal disse isto, saiu tão repentinamente como entrou. Deixando atrás o cheiro a perfume.
- Que foi isto?! - Anita estava de boca aberta.
- Isto?! Isto, é a nossa patroa.
- Minha nossa, acho que vai ser um desassossego!
- E dos grandes!
A visita da mulher dele deixou-a desorientada, teve de fazer um esforço enorme, para se concentrar na lista das coisas que precisava para a festa.
Não conseguia deixar de pensar na mulher dele. Era bonita, o cabelo loiro comprido e ondulado, juntamente com os olhos de um verde mar, fazia um conjunto exótico, tinha as curvas todas no lugar, os peitos volumosos, devia de ser a perdição dos homens. Não era de admirar, Fernando ainda estar apaixonado. O dia que ela tanto temia, tinha chegado. Onde ficavam agora eles?! Recordou-se a si própria que sabia que um dia ia chegar o fim. Mas agora não era hora de pensar nisso, não podia pensar nela, nem no que sentia, tudo isso tinha de ser colocado de lado e pensar em Rita. Qual seria a reacção dela?! Devia de lhe dizer quando a fosse buscar à escola?! Ou esperar por Fernando?! Lembrou-se da reacção da menina quando sonhou com a mãe. Era melhor falar com ele, antes de dizer à menina que a mãe estava de volta. Avisou Anita que ia falar com ele e saiu.
- A minha mulher o quê?! - Ele parecia não ter gostado.
- Que digo a Rita? - Perguntou-lhe, quando o que queria era, perguntar que lhes acontecia a eles agora.
- Nada, porque não volta a entrar em casa. - Procurava um numero no telemóvel - Vitor?! Já sabes?! Quem foi que lhe disse onde estava? - Calou-se um pouco - Não quero saber como o fazes. Trata disso antes que faça algo que me arrependa.
Desligou o telemóvel e passou a mão pelo cabelo. Ela sentiu que estava a imiscuir-se nos assuntos dele.
- Vou indo. Tenho de...
- Fica. - Segurou-lhe a mão
Pela primeira vez, beijou-a, ali, na rua, onde podiam ser vistos. Tinha de sair dali, não queria que a beija-se enquanto pensava na mulher.
- Não. Tenho de voltar. -Ele aumentou a pressão na mão dela, mas instantes depois, largou-a.
Ela ficou a vê-lo no meio do pátio do solar, até o perder de vista. Mal deixou o solar para trás, parou e chorou.
Quando sentiu que se conseguia controlar, foi apanhar Rita na escola, que por sorte estava muito faladora.
- Quero uma festa como a do Rafael.
- E como foi a festa do Rafael?
- Foi na escola. A professora deixa. Podias pedir-lhe?!
- E o que queres levar?
- Um bolo grande de chocolate. E gomas. Muitas gomas.
- Não sei se a ideia das gomas é boa.
- Deixa lá...
Rita calou-se à espera da resposta que não chegou. Ela pensava na mulher de Fernando. Ainda podia sentir o cheiro do perfume dela.
- Achas que o pai vai ficar triste? - A voz dela ficou triste de repente.
- Porque ficaria triste?
- Porque não vai à minha festa.
- Ah isso! Pois, eu também ficava triste.
Faltava apenas um dia e ainda tinha tanta coisa para resolver. Depois de deixar a Rita na escola, combinou com a professora passar por lá no dia seguinte com o bolo.
A empresa de catering, confirmou que estaria tudo pronto à hora combinada. As coisas estavam praticamente resolvidas.
Agora que não podia contar com a ajuda de Anita todo o dia, pois estava grávida, e por conselho médico, trabalhava apenas de manhã, tinha mais coisas a fazer. Ainda tinha de verificar se ela tinha terminado os quartos.
Rosa chegava hoje e os pais no dia seguinte.
Quando chegou a casa, doía-lhe a cabeça. Era o resultado de não ter dormido bem, juntamente com as preocupações. Passou parte do dia a escolher os talheres e a loiça, para o jantar. E começou a fazer as lembranças para dar às colegas de Rita, Fernando chegou a casa quando ela estava a fazer os saquinhos com as gomas.
- Não seria mais prático comprar isto já feito? - Ele agarrou um e observou-o com atenção.
- Talvez. - Não tinha vontade de conversar.
Tirou-lhe as coisas das mãos e ajudou-a a levantar-se. Soltou-lhe o cabelo, e deixou-se estar a brincar com o cabelo dela.
Sabia que devia de sair dali. Mas não conseguia, gostava do toque das suas mãos... dos seus beijos...
- Vou ter saudades.
- Saudades?! - Não compreendia o que ele queria dizer.
- Dos teus beijos. De estar contigo.
- Acho que devemos de parar com isto.
- Com o quê? Com os beijos? - Beijou-a, e ela rendeu-se. Sentiu-o apertá-la mais - Com os encontros? - Voltou a beijá-la - Com que queres parar?
- Com tudo. - A voz saiu mais baixa que o pretendido - A tua mulher...
- Esquece-a. - Ao ouvir aquilo sentiu um aperto
- Não posso. Desculpa. - Afastou-o dela - Estás casado e ela...
Ele não a deixou acabar a frase, beijou-a ao mesmo tempo que a puxava para junto dele. Sem lhe dar tempo a pensar, sentou-a na bancada da cozinha e encaixou-se entre as pernas dela. Os beijos começaram a ser mais exigentes. Sentiu as mãos dele entrarem por baixo da sua blusa. Susteve a respiração. Desviou-se um pouco dele. Mas ele segurou-lhe o rosto. Tinha o desejo espelhado no olhar.
- Não fujas de mim...- Voltou a unir a boca dela à sua - Nem do que sentes.
E ela não fugiu, colocou as mãos no pescoço dele e entregou-se aos beijos e carícias que tiveram o seu auge no quarto dele.
Algum tempo depois, ela repousava a cabeça no peito dele e ele rodava a aliança no dedo dela.
- Porque ainda a usas?
- Não sei, uso apenas.
- Assim sem mais?- O telefone do quarto tocou - Desculpa. - Sentou-se, mantendo-a apoiada no peito dele - Sim? Olá Rosa. - Calou-se por uns instantes - De autocarro? Mas porque não vieste de táxi? Olha, deixa. Dá-me 20 minutos e estou aí. - Desligou o telefone e recostou-se nas almofadas, como se não tivesse vontade de sair dali.
- Eu vou apanhar a Rita.
Ela sentou-se na cama e ele deu-lhe um beijo no ombro nu. Sentiu os olhos ficarem húmidos. Nunca tinha sentido um aperto tão grande no peito... Tanto carinho num gesto tão simples.
- Caty. - Ela voltou-se sem dizer uma palavra - Tem paciência, sim?
Apenas acenou, paciência era coisa que não lhe faltava. E lidar com Rosa, não era esforço nenhum. Conhecia pessoas com feitios bem mais complicados que o dela. E não eram bipolares!
Passou em casa para tomar banho, e enquanto o fazia, tomava consciência do muito que lhe queria. Bastava um beijo e ficava rendida a ele. Não conseguia pensar direito quando estava com ele. Percebia agora, que o amor que sentira pelo marido, era uma gota de água no oceano, perto do que sentia por ele. Tornou-se no que sempre tinha condenado, uma amante.
Quando parou na escola para apanhar Rita ainda pensava nisso. A conversa com a menina distraiu-a desses pensamentos.
- A tia já chegou? Ela disse que vinha. Os avós? Chegam amanhã ou hoje? E a Ana? Vai aos meus anos, não vai? E Filipa, a tua amiga? Os anos lá em casa... Convidei dois amigos.
- Calma! Uma coisa de cada vez. - Ela riu-se da energia da menina - O pai já foi apanhar a tia, os avós chegam amanhã, e a Ana não sabe se consegue ir. - A carinha dela ficou triste - Sabes que ela tem muito que estudar. Mas ela prometeu ir comer uma fatia de bolo.
- Eu sei, ela disse que quando crescer também tenho de estudar muito. - O seu olhar de repente ficou mais alegre - O pai já me comprou a prenda?
- Não sei, ele não me disse.
No resto da viagem ela falou de como gostava de ter outro cavalo para as amigas andarem quando fossem lá a casa. E queria um vestido, como o que a Ana usou no casamento da Anita, entre outras coisas. Quando chegou a casa foi fazer os trabalhos enquanto Catarina acabava de fazer os sacos com as gomas. Estavam as duas na cozinha quando a campainha tocou. Rita correu a abrir, como demorou a voltar, ela foi ver que se passava.
Assim como a menina, ficou estarrecida, a mãe estava ali, segurava o braço da pequena, enquanto a sacudia.
- Escusas de chorar sua peste, o teu pai não está aqui. Nem sei como as pessoas conseguem gostar de vocês, são tão irritantes.
A menina olhou para ela com os olhos cheios de lágrimas. O pai não estava, mas estava ela! Puxou a pequena para trás dela.
- Não lhe admito que fale assim.
- Mas quem é que você acha que é, para admitir seja o que for? Por acaso sabe com quem está a falar?
Olhou para ela com ar de superioridade, mas ela não se deixou intimidar.
- Não sei, nem me interessa. Nesta casa não fala nesse tom à menina.
- Falo como eu quiser. - Empinou o nariz e tentou puxar a filha, que se escondeu ainda mais atrás dela - E tu minha, imprestável - acenava com o dedo em frente à cara da filha - vais para um colégio interno.
- Chega! - ela gritou mais do que queria, e agarrou-lhe o braço - Ao menos tem consciência do que está a dizer?
- Sei muito bem. - deu um puxão para se soltar - É por causa de gentinha como você que ela é assim, mimada. Mas isso vai acabar quando eu morar nesta casa.
Catarina encolheu-se ao mesmo tempo que a pequena. Ela ia morar ali?! Isso queria dizer que...
- Mas que se passa aqui? - Fernando entrou nesse momento com Rosa.
- Ainda bem que chegas-te, tens de despedir a tua empregada.
- Catarina. - Ele ignorou a esposa - Importas-te de levar Rita?
- Claro.
Segurou a mão da menina e saiu da sala. Rosa seguiu atrás delas. Uma vez na cozinha sentaram-se, ela respirou fundo. Rita sentou-se no colo dela e começou a chorar.
- Não quero que volte. Não deixes. Por favor.
Sentiu tanta pena dela. Queria dizer-lhe que a mãe nunca mais ia voltar. Mas não podia prometer o que não estava nas mãos dela. Se o pai assim o quisesse, quem era ela para o dissuadir?!
Uma voz estridente ouviu-se na sala.
- Vais arrepender-te. - Segundos depois, a porta bateu.
Como podia aquela mulher ser tão má?! E como tinha gerado um ser tão doce como Rita?! Pensava nisto quando ele apareceu.
- Ficas com a tia, enquanto falo com Catarina? - Ele deu um beijo na cabeça da filha
- Não lhe vais ralhar, pois não? - Rita relutava em deixar Catarina
- A tia vai ajudar-te a fazer os trabalhos.
Rita acabou por sair do colo dela, a ida até ao escritório parecia uma ida ao calvário. Na certa, não gostou da forma como tinha falado com a esposa! Afinal eram casados.
Ele ficou de costas para ela a olhar o jardim. Pela respiração dele percebeu que estava agitado.
- Peço desculpa pela maneira como tratei a tua esposa.
- Não tens de pedir desculpa por nada. - Notava.-se que estava incomodado com tudo aquilo
- Devia de ter tentado...
- O quê?! Chamá-la à razão? - A voz dele era calma - Ela só pensa nela, no que ela quer. E não olha a meios para o conseguir.
- Não queria gritar-lhe...
- Não era para te envolveres nisto.- Falava com pesar - Não te diz respeito.
Aquelas palavras doeram-lhe, como não lhe dizia respeito?! Tudo o que dizia respeito a ele e principalmente à menina, dizia-lhe respeito. Queria àquela menina tanto como se fosse realmente sua
.
- Vou cuidar de que não tenhas de ter ver noutra situação parecida.
- E Rita?!Vais cuidar de que não passe por outra situação semelhante?! É com ela que tens de te preocupar, eu sei cuidar de mim.
- E o que pensas que tenho feito?! - Ele elevou a voz - Quero o melhor para ela.
- Não disse o contrário.
- Pois parece. - Ficou uns instantes a olhar para ela
- Apenas quis dizer que no meio disto tudo, ela deve de ser o tua prioridade. - Começou a levantar a voz também
- Não deve. É, a minha prioridade!
- Ainda bem!
- Porque estamos a discutir?!
- Tu é que começas-te! - Ele fez um meio sorriso
- Chega aqui. - Como ela não obedeceu, foi até ela - Continuas a teimar em enfrentar-me!?
Colocou a mão no cabelo dela e tentou tirar-lhe o elástico, mas ela desviou a cabeça.
- A tua irmã... - Estremeceu. Quando estava com ele nada mais tinha importância. Sem desviar o olhar, ele inclinou-se e beijou-a. Mal as bocas se tocaram ela rodeou o pescoço dele, chegou-se mais a ele. Estava completamente perdida! Queria sentir o calor do corpo dele, sentir que era seu...
Hoje jantava com a amiga e os filhos de ambos. Eles tinham uma coisa para contar. Podiam supor o que era, pois andavam desconfiadas à muito. Mas achavam piada, ao secretismo que eles tinham com tudo aquilo.
- Bem, quando nos dizem o motivo deste jantar? A tua mãe saiu do trabalho mais cedo.
- Não vale a pena adiar .- Miguel estava nervoso - Como sabem, à algum tempo fizemos um projecto, no qual nos oferecemos para ir fazer voluntariado... - Fez uma pausa dramática - Fomos aceites. Partimos para a semana.
- Para a semana?! - Ela não queria acreditar. Acreditava cegamente que não seriam escolhidos - Mas assim?!
- Oh mãe! Já sabias! Não vais voltar atrás agora pois não?!
- Não. Claro que não. Simplesmente apanharam-me de surpresa.
- Então é melhor passarmos à seguinte, enquanto está surpreendida. - Miguel estendeu a mão para Ana - Como sabem conhecemos-nos desde sempre, brincámos juntos e passamos a maior parte do tempo da mesma forma. E com esta viagem, achamos que não seria correto...
- Oh rapaz! Desenvolve! - Filipa estava eufórica, ambas desconfiavam do que vinha agora - Ainda nos matas de suspense..
- Nós namoramos - Ana falou primeiro que ele.
- Finalmente! Estávamos a ver que éramos avós e vocês insistiam em esconder o que está a olhos vistos.
- Já sabiam?! - Miguel estava envergonhado
- Temos olhos na cara sabem?! Quem é que vocês tentam enganar?! - Filipa estava a achar aquilo muito divertido
- Quem sai aos seus não degenera. Não é mãe?! - Ana, não desviou o olhar da mãe.
Chegou o dia dos anos de Rita, o bolo estava no forno. As panquecas que ela tanto gostava, assim como a compota e o chocolate quente estavam na mesa à espera da pequena. Mas não foi ela que apareceu na porta da cozinha.
- Chegas-te cedo. - Fernando abraçou-a por trás e beijou-lhe o pescoço - Cheiras a chocolate. Ainda não percebo porque insistes em fazer certas coisas.
- Tais como?! - Sorriu, gostava de sentir o corpo dele junto ao dela
- Como cozinhar, fazer bolos, sei lá. Coisas que podias delegar, ou comprar já feito
- Ainda estás a falar nos saquinhos das gomas? E se delega-se isso tudo, que faria em todo dia?!
- Realmente, és um mistério. E desisto! - Ela afastou-o para tirar o bolo do forno.
- Como passou a noite?
- Bem, dadas as circunstâncias.
- Hum! Que cheirinho! - Rosa entrou na cozinha - Não te faz lembrar a casa da mãe, quando éramos mais novos? - Não esperou que o irmão responde-se - Ah, a Rita está a chamar pelo pai.
- Eu vou lá. Quero dar-lhe uma coisa. - Deixou o bolo a esfriar e apanhou um saco da cadeira.
Rita estava sentada na cama, não parecia muito contente.
- Que cara é essa? Hoje é dia de festa, não é para ficares triste.
- O pai?
- Está com a tia na cozinha. Olha o que te trouxe. Queria ser a primeira a dar-te a prenda.
Os olhinhos dela brilharam ao ver o saco.
Um enorme koala estava lá dentro. Ela deu um grito de alegria.
- Olha que assustas o teu pai!
- Como sabias?! Oh, é tão fofinho...
- Que aconteceu?! - Fernando e Rosa apareceram no quarto minutos depois.
- Eu disse, não disse?! - Sorriu para a menina
- Olha o que a Caty me deu. Não é o máximo?! Oh, como é lindo!
- O grito foi por isto?- Rosa olhava espantada para a sobrinha
Rita pendurou-se do pescoço dela, dando-lhe muitos beijos.
- Obrigada. Adoro-te. Sabes mesmo o que eu gosto.
- Assim fazes-me chorar.
Depois do pequeno almoço, deixou Rita na escola e foi com Rosa às compras. O almoço estava preparado para Anita colocar no forno. Os pais de Fernando chegavam à hora do almoço, e como Rosa era imprevisível, achou melhor deixar tudo pronto, para não haver atrasos.
Mas acabaram as compras cedo, e chegaram a casa antes da hora do almoço.
- Nunca pensas-te em ter mais filhos? - A pergunta de Rosa apanhou-a desprevenida.
- Quando me casei pensei em ter dois ou três.- Tirou a alface e começou a fazer a salada - Mas o tempo foi passando, e fiquei apenas com a Ana.
- Essa agora!! Ainda vais a tempo.
- Agora?! Bem, como não penso voltar a casar e sendo viúva acho um pouco complicado.
- Podias adoptar, ou fazer inseminação artificial.
- Não me parece. - Ela riu-se, da ideia. Quando se falava em inseminação lembrava-se sempre das vacas.
- Mas se preferes o método tradicional, é uma questão de oportunidade. Aposto que não te faltam candidatos.
- Possivelmente!
- Desculpe senhor engenheiro - A voz de Anita interrompeu a conversa - Com este cesto e a barriga torna-se difícil passar.
As duas mulheres voltaram-se para a porta e ele estava mesmo no meio impedindo a passagem.
- O médico não te proibiu de fazer pesos? - Ele tirou-lhe o cesto das mãos.
- Estou grávida senhor engenheiro, não doente, nem inválida. Mas obrigada.
- Podes ir Anita, eu termino isto. Até amanhã. - Catarina apanhou o cesto que ele tinha nas mãos, mas evitou olhá-lo. Que parte da conversa ele tinha ouvido?
Desde que Anita ficou grávida, que estava mais animada e falava para ele sem se envergonhar. Desta vez foi ela que ficou envergonhada com a conversa.
- Afinal voltei. - Anita vinha acompanhada dos pais deles - Mas por pouco tempo, até amanhã.
Elogiaram imenso o almoço e Maria insistiu em ajudar na cozinha para ela se despachar a tempo de ir levar o bolo a escola.
Rosa enchia balões, Fernando pendurava a faixa de felicitações. Tinha de estar tudo pronto quando chega-se com Rita.
- Já soube que a Ju esteve cá.
- Ju?!
- A mãe da Rita. - Então chama-se Ju! O nome assentava-lhe bem!
- Uma entrada em grande.
- Mas segundo Rosa, colocaste-a no seu lugar. Gostava de ter visto a cara dela, não é normal fazerem-lhe frente.
- Não fiz nada demais, apenas lhe disse que não admitia que fala-se assim com a menina. Ser mãe dela não lhe dá o direito de lhe falar daquele modo!
- Nem todas o fariam. E ainda está casada com o meu filho. - Sentiu uma pontada no coração ao ouvir aquilo. - São assuntos pessoais, não tens de te envolver.
- Estar casada com o seu filho, para mim é irrelevante. - Olhou para o relógio na parede - Tenho de ir.
Ajeitou as coisas e saiu, ainda era cedo, mas não queria ficar ali a ouvir que aquele assunto não lhe dizia respeito. Foi ter com Filipa para tomar café e desanuviar um pouco.
- Ele que diz?
- O mesmo que a mãe. Que são assuntos pessoais, não me dizem respeito! Um pouco tarde, não?!
- Desta vez atiraste-te mesmo de cabeça. - Filipa tinha razão
- Falemos de outras coisas. Que dizes dos nossos filhos?!
- Fazem um casal lindo! Já estou a ver os nossos netos, lindos!
- Netos?! Espero que não venham de lá com um! Ainda são três meses! Nunca pensei... Tu sim?!
- Estava na cara deles! Não foi surpresa nenhuma!
- Eu digo irem fazer voluntariado. Nunca pensei que o projecto deles fosse escolhido.
- É um bom projecto. Acho que vão mais duas alunas.
Filipa tinha as mesmas preocupações que ela, mas tudo iria correr bem. Logo à noite iam ao jantar de Rita, e podiam ficar a conhecer mais um pouco do projecto.
A professora já estava à espera dela à entrada do refeitório, as crianças brincavam nas traseiras da escola. Ajudou a arrumar a mesa, mas não ficou para a festa.
Em casa a decoração da sala era feita sob grande alarido.
- Não é aí! - Rosa gritava para o irmão - É mais para baixo, não vês que a faixa está torta?!
- Não está nada. Pelo menos não me parece.
- Mas quem te nomeou decorador?! Faz como te digo ou não faças!
Quando entrou na cozinha sorria, Maria e Alberto tomavam chá na cozinha.
- Ainda estão vivos?!
- São sempre assim? - Colocou o avental e começou a fazer a sobremesa que Rita tinha adorava, Alberto ao ver mexer nos tachos saiu da cozinha.
- Vou ler para o escritório. Antes que me metam a fazer alguma coisa. Já não tenho idade para estas coisas - Piscou o olho a Catarina e sorriu
- Que queres que faça, eu ainda estou capaz. - Apanhou outro avental e começou a bater os ovos que Catarina lhe estendeu - Pode não parecer, mas Fernando tem uma paciência de santo com a irmã. Nunca o vi levantar-lhe a voz. Aliás, acho que nunca o vi levantar a voz a ninguém! O que irrita Rosa. É para fazer o quê ás gemas?
- Ovos moles. - Deu-lhe o tacho - Desculpe em perguntar. Mas ela faz uma vida normal? Sempre pensei que os bipolares eram limitados.
- Ela faz medicação. Mas tem limitações, as constantes mudanças de humor são o mais comum, e mais complicado de lidar, não é fácil trabalhar com uma pessoa assim. Mas ela arranjou algo que gosta, decoração! Até agora consegue conciliar, mas ser dona do negocio ajuda.
- As pessoas devem de pensar que faz parte do feitio. Afinal todos os decoradores são excêntricos. Pelo menos os melhores.
- Talvez. Aqui estão, uns ovos moles bem feitos - Falava com orgulho - Ainda sei fazer.
- Estão perfeitos. - E estavam mesmo.
- Não penses que não sei fazer nada! Gosto de cozinhar, e fazer jardinagem. Alivia o stress, quando eles eram pequenos cozinhava todos os dias. Depois que cresceram perdi o interesse.
- Oh, desisto! Olha, fala com ele. - Rosa estava vermelha
- Porque pedis-te a ajuda dele? Perdes a paciência.
- Pensei que depois da visita da Ju ele precisa-se de se distrair.
- Querias distrai-lo ou dizer-lhe o que pensas?
- Que mal tem? Já devia de ter assinado este bendito acordo de divorcio há que tempos!
- Ele é que sabe.
- Sabe nada! Ontem ela esteve aqui, quase agrediu a filha e ele como se nada! Vais ver que daqui a uns dias volta e ele perdoa-lhe.
- Rosa! - Maria, não gostou da forma como Rosa falava, ela tentava concentrar-se na sobremesa em vão
- Nem quando ela foi para a cama com o Artur ele se incomodou. - Ao ouvir aquilo a taça que tinha na mão, escorregou e caiu no chão fazendo-se em mil pedaços
- Bolas! - Se o chão tivesse um buraco ela tinha-se enfiado lá - Desculpem!
- Chega! - Rosa calou-se com o grito da mãe - Não compliques mais as coisas!
Rosa subiu amuada, Maria ajudou-a a terminar a sobremesa e a limpar o chão. Depois foram ver a sala. Apesar dos protestos de Rosa a sala estava linda, com muitos balões e flores penduradas estrategicamente. Duvidava que durassem muito, mas a decoradora era ela! A mesa estava simples mas muito elegante. O centro de mesa era feito com as flores preferidas de Rita e tinha uns duendes a tentarem "sair" do vasilha-me. Cada guardanapo, estava preso por um laço em fita de ceda beije. Tudo nos tons da porcelana. Numa mesa de apoio, as loiças para se colocar a comida que o catering iria entregar mais tarde, estava a postos.
Rita estava linda num vestido azul claro com uma saia dupla em renda de flores brancas. O laço azul completava o conjunto da aniversariante. Estava radiante, brincava com os avós como se a cena com a mãe não tivesse acontecido. Os convidados iam chegando, e mesmo com receio que Ju fizesse uma entrada da dela, a festa acabou por correr bem.

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