SOB A LUZ DA LUA 11ª PARTE



Ana abriu os olhos, era de noite. O sofá à sua frente estava vazio e na mesa não estavam as chávenas que ela tinha ido buscar à cozinha. Olhou em redor, o casaco dele não se encontrava na cadeira. Não restava nenhum indicio, nenhuma prova, da chegada de Steve no dia anterior. Estremeceu! Estava tão apaixonada que sonhou com o regresso dele?! Não, não podia ter sido um sonho!

- Não devias ter permitido que...

Ao ouvir a voz voltou-se, sem pensar uma vez sequer, pendurou-se no pescoço dele e beijou-o. Um beijo tão carregado de sentimentos, tão apaixonado, que quando se separaram ele respirava mais descontroladamente que ela!

- Ena! Por esta não esperava! - Calou-se ao ver os olhos dela, húmidos pelas lágrimas que ameaçavam cair - Que se passa?
- Quando acordei e não te vi, pensei que tinha sonhado.
- Estou aqui, e nada nem ninguém me vai fazer deixar-te.
- Prometes?! - Recostou a cabeça no peito dele
- Claro, embora não seja necessário. Amo-te, tu amas-me. Porque amas, não?!
- Oh sim... com todo o meu coração.
- Então não é preciso mais nada.
- Mas não quero que existam segredos.
- E tens alguns?!
- Todos temos segredos. Uns mais dolorosos que outros.

Sentaram-se numa manta, encostados à parede da cabana, a noite estava serena. A lua brilhava nos céus salpicados de estrelas brilhantes!  Uma brisa suave agitava a copa das árvores, ao longe, uma ave nocturna fez-se anunciar.

- Vais começar ou preciso ficar preocupado?!
- Apenas tento encontrar um jeito de começar.
- Pelo principio, pelo meio, pelo fim. É indiferente, desde que comeces.
- Acho que o meio é o sitio ideal. Quando nos conhecemos estava numa fase de interiorização.  Precisava pensar... Tinha casamento marcado, mas à muito que a chama ameaçava extinguir-se. Por isso resolvi organizar uns dias românticos. Achei que nos fariam bem, afinal discutíamos muito e todas acabavam da mesma forma, na cama! - Steve mostrou o seu desagrado, pelo rumo da conversa, através de uma careta - Raramente conversávamos e as saídas a dois eram escassas. Geralmente acabávamos a discutir, quer pelo sitio onde ir, quer pela companhia. O que nos levava de volta ao único sítio...
-  Já percebi, não é preciso relembrares!
- Estás com ciumes?!
- Não! Acho que qualquer homem gosta de ouvir isso, principalmente da mulher com quem quer passar a vida!
- Continuando... Após mais uma discussão com Mário, desta vez porque ele não quis vir, e eu não queria ficar, iniciei a viagem sozinha. Decidi tirar os dias para mim. Precisava pensar, se queria passar os resto da minha vida com ele! Se não conseguíamos conciliar uns dias para estarmos juntos, que tipo de casamento teríamos?!  Sei, podia ter cedido, ter encontrado outra data, afinal ele queria vir noutra altura. Mas não queria ceder aos caprichos dele, os tempos de viver conforme o que um homem queria tinham acabado! Depois de Toni, nenhum me faria abdicar do que eu gosto!
- Toni?!
- Toni foi o meu primeiro amor. - Ana baixou a cabeça - Tinha os meus 18 anos, acabei os estudos e aguardava a entrada numa empresa para fazer o estagio do meu curso. Numa das saídas com as amigas conheci Toni, era... - Calou-se, não queria magoá-lo com detalhes que não levavam a lado nenhum - Bem, apaixonei-me perdidamente, pelo menos assim pensei na altura, uns meses depois estava a viver com ele. Nesta fase o meu pai já me tinha cortado a mesada, pois não gostava dele. Mas eu, idiota como era, acreditei que ele me amava, fiz frente ao meu pai e saí de casa. Nunca baixei os braços, comecei a trabalhar numa florista, pois as contas tinham de se pagar e Toni não podia deixar os estudos. Deixei-me convencer que era mais fácil para mim retomar os estudos mais tarde, a ele só lhe faltavam seis meses! Meses que se tornaram anos! Estava constantemente a dizer-me para pedir dinheiro ao meu pai, eu não queria, por isso arranjei outro emprego num bar. Afinal ele tinha gastos com os estudos, que eu estupidamente custeie, deixava-me bilhetes a agradecer tudo o que fazia por ele...Com o tempo moldou-me ao seu jeito, saindo quando ele queria, com a desculpa dos ciumes vestia apenas o que ele queria, falava apenas com os amigos que ele escolhia... Achava tudo normal, afinal ele amava-me! As poucas discussões eram por causa do dinheiro do meu pai. Mas como mal o via, com dois empregos, para o fim já eram poucas. Um dia estava tão cansada e tinha tanto que fazer em casa que não queria voltar para lá, queria descontrair, ter um pedacinho de tempo só meu! Acabei a passear no supermercado, lá estava fresco. Quando andava pelo centro comercial vi uma loja para alugar, era de uma senhora idosa que se queria reformar, o preço era baixo. Pedi-lhe tempo para pensar, fui para casa com a cabeça cheia de ideias. Com os conhecimentos que tinha de decoração podia começar uma vida nova! Estava ansiosa pelo regresso de Toni, aquilo podia mudar as nossas vidas, mas não apareceu, nem nesse dia nem nos dias seguintes. Dias depois uma colega de trabalho contou-me que ele tinha partido, deixou-me por uma mulher mais velha, mas que não tinha pena de gastar a fortuna com ele! - Ana soltou uma gargalhada - Nunca me passou pela cabeça, que o interesse nele em mim fosse financeiro! Nem com tanta insistência em pedir dinheiro ao meu pai! Tive tanta vergonha...
- Não precisas de te envergonhar! Eras nova. O teu pai certamente ficou contente de te ter de volta.
- Sim, mas isso só aconteceu depois. Orgulhosa e teimosa, ele diz que sou como  minha mãe, só voltei para casa depois de ter o meu negocio. Trabalhava de noite, pois no bar ganhava mais dinheiro,  e durante o dia abria a minha lojinha. Quando o negocio começou a correr melhor eu não conseguia fazer tudo sozinha, contratei Clara, que acabou por ser mais amiga que empregada. Quando fechei a porta do apartamento, onde vivi com ele, jurei a mim mesma nunca mais viver segundo os caprichos de um homem! Queria um homem que me amasse mas que não exigisse, foi aí que entrou Mário, mais um porto seguro que um marido.
- E eu onde entro?
- Tu entras-te abruptamente!
- Assim como tu na minha vida! Não contava vir a encontrar a minha futura mulher aqui.
- Tua futura mulher?!
- Sim. A mãe dos meus filhos. Ou estás a dizer que não queres casar?! Aviso-te já que não vou desistir, irei beijar-te até te deixar louca de desejo e que apenas penses em satisfazer os meus caprichos.
-Quando pensas começar?!
- Estás a desafiar-me?!
- Beija-me...



Meses depois, a casa que abrigou o amor entre os pais dele recebia um novo amor.

Ana, muito nervosa, dava ordens a toda a equipa que trabalhava para ela.  O que deixava Clara divertida.

- Vai com calma. Estará tudo em ordem para o casamento amanhã. Todos farão o que for necessário para que assim seja.
- Eu sei, mas...
- Então. segue o conselho da tua madrinha e vai para dentro descansar. Anette deve estar a chegar. Vai preparar-te para a receberes. Vamos, vai que eu trato de tudo.

E assim foi, na manhã seguinte o jardim estava engalanado para receber os convidados, Ana espreitava da janela do seu quarto. Tudo estava como tinha idealizado. As cadeiras brancas, as flores entrelaçadas num arco junto ao altar... as mesas debaixo de tendas de tecido branco. Flores espalhadas pelo jardim...

Vislumbrou Steve ao longe, o fato preto deixava-o ainda mais atraente. Falava com Anette. Estava linda, o vestido azul comprido fazia o seu corpo parecer mais esguio. Clara estava igualmente linda, os vestidos eram iguais para as madrinhas. Lágrimas começaram a aparecer nos seus olhos, lembrou-se da sua mãe, teria gostado de ver a sua filha...

- Menina, então?! Está tudo à sua espera... - Maria olhou-a com carinho - Que lágrimas são essas?
- Tontices Maria, o meu pai?!
- Está à sua espera, eu ajudo-a a vestir! A sua mãezinha teria muito orgulho na menina. E no homem que escolheu!
- Este tem a tua aprovação?! - Ana viu as faces de Maria ficarem rosadas - Ou este também não fará sair o meu lado doce?!
- Se tiver mais doce acho que azeda menina. Agora sim, vejo nos seus olhos que é feliz, tem aquele brilho especial quando olha para ele.
- Maria?! - Ana olhou-a com ternura - Obrigada, tu és...
- Deixe-se dessas coisas, ou acabamos as duas a chorar. E hoje é dia de festejar.

Ana entrou no jardim pelo braço do pai, estava deslumbrante num vestido corte princesa, em tule com aplicações de renda. o corpo em forma de coração e cauda com aplicações bordadas.
Ali estava, Steve, o homem por quem o seu coração batia, o homem que a fazia suspirar. O pai dos seus futuros filhos.

Ana e Steve dançavam entre os convidados, a cabeça dela recostada no peito dele...

- Achas que darão pela nossa falta?
- Quem? O meu pai, Clara ou Anette?
- Todos?
- Possivelmente...
- Mesmo assim... Um pouco de saudades faz sempre bem.

Steve agarrou-a pela mão e levou-a em direcção ao carro.

- Onde vamos?
- Para o único sitio onde ninguém vai interromper a nossa lua de mel.


                                               FIM




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