DESTINOS CRUZADOS 7ª PARTE
Não reconhecia aquele sítio, tentou levantar-se e perceber onde estava, um tubo ligado ao seu braço, impediu o movimento. Se restava alguma dúvida de onde estava, as paredes brancas e o cheiro característico confirmavam que estava num hospital. Levou a mão à cabeça, doía-lhe. Lembrou-se então, Michel estava ali! Como a tinha encontrado?! O destino estava a brincar com o seu coração. Tinha a vaga ideia de o ver junto a ela e a pedir ajuda, ela estava a perder sangue! Sangue?! De onde era?! Não tinha a cabeça ligada, por isso não era dali. A não ser que a tivessem suturado. Apalpou a cabeça tentando apanhar os pontos, nada! Se não era na cabeça...
- Bom dia, como se sente? - A enfermeira pegou-lhe no pulso e anotou num bloco os valores - Ainda lhe doí a cabeça?
- Um pouco. Desculpe, mas em que hospital estou?
- Está numa clínica privada.- Fechou os olhos, devia de ter adivinhado, queria certificar-se que ela não ia sair sem que ele soubesse - O senhor que a acompanhava estava visivelmente preocupado. Está lá fora, sentesse com forças para o receber?
- Não pode ser mais tarde? Ainda me doí a cabeça. - Não adiantava adiar o momento, sabia que tinha de lhe explicar muita coisa. Mas queria preparar-se mentalmente primeiro. - Quando acha que posso sair?
- A doutora vem já falar consigo. Não deve de demorar. Quer comer alguma coisa?
- Não obrigada, não tenho apetite.
- Com preferir, se precisar de algo não hesite em chamar.
Quando a enfermeira saiu ficou a pensar no que lhe diria, não podia admitir que o amava. Se ele soubesse ia rir-se dela, as mulheres que passavam pela cama dele, contentavam-se com uma noite. Sem promessas, nem obrigações. Ela mesmo devia de ser assim, divertir-se, aproveitar a vida, mas não, tinha de se apaixonar, e estragar a sua vida! Se não tivessem envolvido, ela podia cuidar de Timy e continuar na sua ignorância, pensando que Martim tinha razão, mas assim?! Como fingir que não sentia nada por ele? Como explicar que partiu porque o adorava e não conseguia vê-lo com outra mulher?! Tinha de pensar em algo...
- Vejo que já acordou. - A médica entrou e sentou-se na cama - Está com boa aparência, tendo em conta as circunstancias. Mas antes de prosseguir, queria pedir-lhe para receber o senhor que está lá fora. Sei que disse que se encontrava ainda com dor de cabeça. Mas, ainda não saiu dali desde que a trouxe ontem, e não quer ir para casa sem a ver. Importa-se? Ele não vai demorar.
- Claro. - Ir para casa?! Isso queria dizer que ele ia embora, uma mistura de alivio e vazio apoderou-se dela.
A doutora voltou acompanhada por um senhor alto, de idade avançada que sorria timidamente. Agarrou-lhe a mão e beijou-a.
- Cara mia! Scusate! - Calou-se e sorriu - Esqueço-me que nem todas as pessoas falam italiano. Como está? Deixou-nos preocupados, a minha mulher queria vir, mas está com os netos. Desculpe nem me apresentei...
- Michel... - Ela sussurrou - Obrigada pelo cuidado, estou melhor obrigada.
- Como sabe o meu nome?! Conhecemos-nos?!
- Não, o seu nome foi a última coisa que ouvi.
- Lamento conhece-la nestas circunstâncias.
Uns instantes depois Michel deixou o quarto, prometendo voltar com a mulher no dia seguinte. A doutora olhava para a máquina e anotava na folha que estava ao fundo da cama.
- Bem, tenho uma boa e uma má noticia. - Sentou-se novamente na cama junto a ela e segurou-lhe a mão.- Está a fazer esta viagem sozinha?
- Sim... - Que teria ela?! A hesitação da medica em dizer o que tinha, começava a assustá-la.
- Bem, a partir de hoje, vai ter que ter muito cuidado consigo. Terá de evitar viagens e não pode fazer esforços. - Que se passava com ela?! Não estava a gostar nada do rumo da conversa - Bem, isto, se quiser que a sua gravidez chegue ao fim.
- Gravidez?! - Sentou-se abruptamente na cama - Como gravidez?!
- Está grávida de poucas semanas, não sabia?!
- Não! - Perdera sangue, o seu filho corria perigo?! - Ele, está bem?!
- Sim, tem um pequeno descolamento da placenta. Daí a hemorragia. Pode ter sido provocada pela queda ou pode ter descolado por ela mesma. Até que a placenta cole novamente, duas a três semana, vai ter de ficar na cama, levantando-se apenas para fazer o indispensável. Já me informaram que está num hotel, pode ir mas preferia tê-la por cá, para verificar se está tudo bem, antes de lhe dar alta tenho de ter a certeza que a placenta está colada e que o bebé não corre perigo.
- Sim, terei todo o cuidado. E se acha que é preferível ficar, fico.
Depois de mais algumas recomendações a doutora deixou-a sozinha. Um filho de Michel! Estava feliz e triste ao mesmo tempo, sempre imaginou que quando esse dia chegasse, o marido, porque estaria casada, estaria ali para a apoiar. E não assim, a kilometros de distância e desconhecendo que ia ser pai. Tinha de contar a Rita, ela precisava de partilhar a notícia com alguém que ficasse feliz por ela. A amiga ficou feliz por ela, mas havia algo na voz de Rita, que a fez suspeitar que ela queria dizer algo mais, mas talvez devido à frágil situação dela, resolve-se adiar. Com ela era assim, nada ficava por dizer, mais tarde ou mais cedo, aquilo que estava a incomodar Rita, ia ser dito. Disso ela tinha a certeza.
No dia seguinte Michel veio como prometeu com a esposa. Levaram-lhe flores para a felicitar pela boa nova. Afinal a chegada de um bebé é sempre uma boa notícia. As vistas à clínica, pela parte do casal tornaram-se frequentes. Nina, a esposa de Michel, acabava por ficar a fazer-lhe companhia e a falar sobre as delicias de ser mãe. No tempo que eles estavam com ela, não pensava em Michel nem em Timy, nem nas imensas saudades que tinha deles. Agora estava à espera de um filho dele, o filho que ela sempre desejou ter, e que tinha perdido as esperanças de ter.
Michel e Nina adiaram a sua partida para Itália para acompanharem a sua recuperação. Nina contou que se tinham reformado nesse ano e estava a fazer uma viagem pelo mundo, e escolheram terminar a viagem ali, para estarem com o filho, e com os três netos, antes de voltarem para casa.
E como tinham prometido, no dia da alta, lá estavam, à sua espera para a acompanharem até ao hotel.
Desejava aquela criança mais que tudo, tentava manter-se calma pela segurança do bebé, mas travava uma luta interior... sabia que não estava certo esconder esta criança de Michel, mas não tinha o direito de arruinar os planos que ele tinha para se casar com Lia. E sabia que se ele soubesse da gravidez, queria fazer o mais correto, casar-se com ela!
Rita disse-lhe que ele, poucos dias depois, deixou a cidade, e assumiu a educação de Timy sozinho, dispensando a ajuda de Missy. Enquanto a doutora acabava a ecografia, olhou aquele ser minúsculo no ecrã, e começou a chorar. Coisa que acontecia com demasiada frequência, e segundo a doutora era normal, muitas mãe ficam mais emotivas quando estão gravidas. Achou piada, se ela já chorava por tudo e por nada, imaginava como seria dali para a frente.Bem que podia fornecer-se de lenços de papel.
- Está tudo bem, a placenta colou. Desde que tenha cuidado e evite esforços não deve de ter problema. Gostava que não fizesse viagens muito grandes. Continue a controlar a gravidez. Vai continuar a viajar como tinha planeado?
- Não sei, gostava de ir a Espanha, mas isso foi antes. Agora não tenho mais a certeza.
- Quando se é mãe tudo se transforma. - A doutora calou-se e começou a arrumar os aparelhos - Sabe porque o casal insistia em visitá-la?
- Não, acho que tiveram pena de mim. Por estar aqui sozinha.
- Porque tinha a mesma idade da filha deles se esta fosse viva.O filho apareceu um dia, queria saber se você tentava ludibriar os pais. E acabou por contar-me.
- Mas quem faria algo assim?!
- As pessoas fazem coisas impressionantes por dinheiro.
- Coitados, a vida ás vezes é muito cruel.
- Se quiser posso dar-lhe o contacto do filho.
- Sim, quero. Obrigada.
Pensava manter o contacto com eles, o filho não devia de se opor a dar-lhe o numero deles. Durante estes dias de internamento acabou por ganhar carinho ao casal, e queria que o filho deles soubesse o quão importante foi a companhia deles para ela. Se a sua avó estivesse ali, dizia que o facto de ele se chamar Michel era um sinal de Deus, e ela concordava, agora o que significava esse sinal ela não sabia.
Ficou mais uma semana no hotel, as hemorragias tinham cessado e a barriga começava a notar-se. Sem ninguém ali e com a gravidez estável, decidiu ir à clínica falar com a médica, queria saber se podia viajar. Mas o sonho de ir até Espanha, mais precisamente Soria , queria conhecer a igreja de San Nicolás e o convento de Santa Clara. Foi adiado, a médica, aconselhou-lhe calma. A placenta estava estável, mas não podia prever se podia voltar a descolar. Com isso em mente iniciou a viagem, mas de regresso a casa.
Rita aguardava-a na estação, a sua barriga já estava grande e a amiga mal a consegui abraçar. Depois de muito argumentar, e perder a discussão, acabou por ficar em casa de Rita, esta não a queria sozinha até que aquela criança visse a luz do dia.
- Queria ver a tua cara, quando a médica te disse que estavas grávida.
- Para quê?!
- Deve de ser digno de registo o momento...
- Porque...
- Porque se eu , ainda estou estupefacta, imagino tu! É que ainda não acredito que numa altura destas, com tanta informação acabas-te grávida!
Ali estava, o que a incomodava. Sorriu para a amiga, sabia que mais tarde ou mais cedo aquilo tinha de sair. Ela mesma tinha pensado em como aconteceu...
- Simplesmente o método falhou.
- Como falhou?! O preservativo rompeu-se? - Su negou com a cabeça - A pílula, esqueceste-te de a tomar? - Voltou a negar - A pílula do dia seguinte, não havia na farmácia?!
- Sabes bem que as pílulas me dão dores de cabeça. E nem me lembrei dos preservativos.
- Não te lembras-te?! Mas quantos anos tens?! Como fizeste?
- Usei o método do calendário.
- Tu não sabes que isso não é fiável?! Devias de ter usado algo... Se bem que tu eras virgem, o que me admira é ele, um homem vivido com uma larga lista de mulheres e não tem esse tipo de cuidados?!
- Isso agora não interessa mais. - A amiga ainda pensava que ela era virgem, um dia tinha de lhe contar - As coisas que nem sempre são como as imaginamos.
Lembrar as mulheres que estiveram com Michel, e que possivelmente estariam a esta hora, deixava um rasgo no seu coração. A amiga tinha razão, ela tinha pouca experiência mas ele não. Porque motivo não tomara cuidados?!

Passei por aqui para acompanhar...:)
ResponderEliminarBeijinhos
Obrigada pela companhia Elisa :) espero que goste. Beijinhos <3
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