DESTINOS CRUZADOS 8ª PARTE
- Desculpa, coloca-te no meu lugar. Tinha 19 anos! E nos anos seguintes, sempre te ouvi falar de como era estar com um homem, das coisas que sentias, e eu nunca senti nada disso. Pensei que eu tinha algum problema, afinal não gostei, e se era assim, preferia nunca mais estar com outro homem!
- Bolas, amiga. Porque nunca me contaste?! Tinha-te explicado, sei como era a tua avó. Não me leves a mal, era uma mulher impecável, mas certas coisas mudaram.
- Sim, acho que tive um pouco de vergonha.
- Eras uma criança! Vergonha devia de ter esse idiota - Su sorriu - Onde está a piada?
- Michel também lhe chamou idiota.
- Recomeço a gostar dele. E com ele? Foi diferente!?
- Acho que está à vista!
- Sim, e bem à vista. - Sorriu para a amiga e acariciou-lhe a barriga - Quando vais novamente ao médico?
- Para a semana.
- Vou contigo. Quero ver o meu sobrinho afilhado.
- Ou sobrinha.
Já tinham passado quatro meses desde que voltara de França, e ainda permanecia em casa de Rita, que tinha metido baixa para a acompanhar, para isso contou com a ajuda de um médico amigo da família, ela achava que estava a dar trabalho a mais à amiga. Que além das preocupações que tinha ainda fazia de tudo para a distrair, mas muitas vezes se sucesso, pois a sua mente fugia para as recordações daqueles dias com Michel. Dava por si a pensar nele e em Timy, em como devia de estar crescido... Precisava de se ocupar, de recomeçar a trabalhar. Coisa que Rita discordava, e fazia questão de o fazer saber.
- A tua única preocupação é cuidares de ti e dessa criança que carregas.
- Estou cansada de estar em casa sem nada para fazer.
- O médico disse que era arriscado.
- Eu sei, a mancha... - Na última ecografia tinha começado a notar-se uma mancha na parte inferior da placenta, sinal que ao mínimo esforço a placenta podia descolar novamente, e ainda faltavam quase cinco meses.
- Olha, precisas é de te distraíres. Hoje Guy vem jantar, e depois vamos ao cinema.
- Vão vocês, não quero servir de vela.
- Qual vela qual quê?! Não há desculpas, vamos a uma comédia romântica.
- Guy concordou?!
- Nem tem outra opção.
As duas riram, Guy detestava comédias e se eram românticas o caso ficava pior. À muitos anos que Rita namorava com Guy, tinham as suas discussões mas acabavam sempre por voltar. Houve uma altura que pensou que iam casar, Guy insistiu por uns tempos, mas tal não aconteceu. A amiga gostava da vida que levava, eram felizes assim e isso é que era importante. Notava-se nos olhos deles quando estavam juntos, mas esta noite os olhos de Guy estavam centrados noutro sítio.
- Importas-te de parar de olhar para os peitos da Su?! - Rita estava a ficar irritada com a insistência dele - Que coisa! Parece que nunca viste uma grávida!
- Desculpa. É que é impressionante! Estão... impressionante!
- É da gravidez. - Su achava a situação caricata, já tinha notado que os seus peitos estavam maiores, mas não ao ponto de chamar a atenção.
- Pareces parvo! Quando o bebé nascer ainda vão crescer mais, por causa do leite. - Rita estava especialista na matéria, queria estar preparada para o crescimento do seu sobrinho afilhado, até tinha comparado um livro, para aprender como guardar o leite materno em segurança.
- Amor - Era assim que Guy tratava Rita- Tu, só por acaso, não queres ficar grávida?!
- Era só o que me faltava. Se ficasse grávida, os peitos eram para o teu filho não para ti.
- Mas sempre alegrava a vista. - Guy abraçou Rita e beijaram-se. - Sabes que estou a brincar.
- Espero bem.
Depois de verem Notting Hill com Hugh Grant e Julia Roberts, sentaram-se numa cafetaria a comentar o filme, Guy dizia que o filme não fazia juz à fama de Julia, nem de Hugh, no geral achou o filme medíocre, Rita e Su discordavam, o filme era lindíssimo. A discussão continuou por algum tempo, sem que qualquer cedesse, e estava longe de terminar quando foram interrompidos por uma voz conhecida.
- Peço desculpa por intrometer-me, mas o desempenho de Julia Roberts é impressionante. - O Dr Ree estava na mesa ao lado. - Olá Su, como está?
- Bem obrigada, Dr Ree, estes são os meus amigos. Rita e Guy.
O Dr. Ree juntou-se a eles e a discussão continuou, mas por pouco tempo. Guy, embora contrariado, acabou por concordar com eles. Ao despedir-se do grupo o Dr. Ree perguntou a Su se estava interessada em fazer umas traduções para um amigo dele. Como ele tinha sido tão simpático, ela não soube como negar.
Pensava tratar-se de um favor, mas dias depois de recolherem os documentos, chegou um cheque com o pagamento e uma carta a perguntar se estava interessada em continuar a trabalhar para eles. Acabou por aceitar, sempre estava ocupada e o dinheiro fazia falta. Com as coisas que o bebé precisava as suas economias estavam a chegar ao fim.
Guy vinha jantar todas as noites, pois Rita convenceu-o a decorar o quarto do bebé na casa de Su. Era lá que ele passava a maior parte de tempo. Estava quase, ela apenas via as fotografias, que Guy amavelmente tirava, ou passava por lá quando regressavam do médico. O quarto em tons bege estava a ficar lindo. As roupinhas arrumadas nas gavetas e a mesa de apoio estava repleta com todos os produtos necessários. Embora nas primeiras semanas ela ficasse ainda com Rita. Segundo o obstetra não era boa ideia ficar sozinha, pelo menos até se recuperar do parto.Nunca iria agradecer aos amigos o suficiente.
Depois da penúltima consulta, e apesar de estar quase no fim da gravidez, Rita insistiu para que ela ficasse ali, e ela agradeceu. Sinceramente não queria estar sozinha em casa. Ter a amiga ali e com o trabalho, os dias tornaram-se mais animados. Se bem que ultimamente, tinha alguma dificuldade, em permanecer sentada por muito tempo. Depois de andar um pouco pela sala, voltou ao trabalho, faltava um mês para o bebé nascer, e queria acabar o último documento que lhe tinham confiado. Mas ao abrir o envelope, não consegui conter as lágrimas. O documento estava em italiano. Era uma idiotice, sabia isso, mas tinha as hormonas completamente descontroladas, tentava distrair-se para não pensar em Michel, o trabalho conseguia manter a sua mente ocupada a maior parte do dia, já as noites, eram ocupadas com sonhos onde ele se casava com Lia, e ela ficava no fundo da igreja, a chorar escondida atrás de uma coluna.
Quando Rita entrou, estava banhada em lágrimas num descontrolo total.
- Não consigo... - Su falava entre soluços. - Porque não lhe contei?! Diz-me.
- O que se passou? E que querias contar?
Su apontou para os documentos, sem parar de chorar.
- Quero esquecê-lo mas não consigo. - Rita abraçou a amiga deixou que esta chorasse até se acalmar.
- Ninguém disse que tinhas de o esquecer. Vamos, tens de descansar. Não podes estar assim.
- Devia de lhe ter telefonado, não é justo...
- Amanhã, agora vamos descansar.
- Não, tenho de terminar antes do bebé nascer... Mas tudo me recorda Michel... e esses benditos documentos em italiano só vieram reforçar as recordações. Porque não tenho alguém que me ame?
- Tens muita gente que te adora. - A amiga estava descontrolada.
- E quando souber que lhe escondi o filho, vai odiar-me. Devia de ter contado, não é justo. Merece saber. Não quero que deixe Lia, apenas quero que saiba que vai ser pai, percebes?!
- Sim, mas tens de te acalmar. Olha o teu filho. Vamos deita-te, vou fazer-te um chá.
Su ficou recostada na cama, olhando a rua pela janela. O dia chegava ao fim, algures ele estava a ver aquele por do sol?! Estaria abraçado a Lia? Já estariam casados? Rita chegou com o chá.
- Bebe. Vai acalmar-te.
- Porque o amor é tão complicado? - Su bebericou o chá quente - Devia de haver uma lei ou um decreto qualquer que impedisse de nos apaixonar-mos por quem está comprometido. Seria mais fácil.
Se assim fosse eu nunca ficaria apaixonada... ele nunca seria pai de uma criança... ele nem sabe que ela existe... assim como ele quando nasceu... vai ser igual ao pai... devia de ter contado...
Rita deixou que Su divaga-se até adormecer, no dia seguinte tudo parecia melhor.
Su abriu os olhos quando o sol entrou no quarto, doía-lhe a cabeça. Quando se sentou na cama, com alguma dificuldade, viu Rita deitada no pequeno sofá junto à janela. Lembrou-se de tudo, de como chorou ao ver os documentos, de como a assustava ter um filho. Filho, que ela não sabia se o pai queria, mas com o qual já tinha uma coisa em comum, assim como ele, o filho também nasceria fora do matrimonio.
Saiu sem fazer barulho e foi fazer o pequeno almoço. Depois de andar um pouco na cozinha, sentiu uma dor nas costas. Aquilo era o resultado de estar sempre sentada, precisava de se mexer mais. Acabou o chá e ligou a torradeira, Rita acordou com o cheiro.
- Não era para estares deitada? - Rita tirou o pão da mão da amiga - Vamos senta-te ali.
- Isso querias tu, e eu! Mas não consigo.
- Como que não consegues?
- Sei lá! Tenho algumas dores nas costas.
- E só dizes agora? Não ouviste o médico? À menor dor!
Rita telefonou ao obstetra e depois de uma longa conversa meteu Su no carro, assim como a mala do bebé e foram para o hospital.
Doze horas depois, entre muitas dores e suores, o choro de uma menina anunciou a sua chegada ao mundo.
Su chorava de alegria ao mesmo tempo que beijava a filha, Rita olhava comovida a afilhada.
- Tão pequenina.
- Sim, e linda. - Su não escondia a sua emoção - Desculpa filha, gostava que o teu pai aqui estivesse, gostava tanto que as coisas fossem diferentes.
As lágrimas de Su caiam na roupa da filha, ao mesmo tempo que as de Rita, caiam na cabeça da amiga.

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