AS COISAS QUE NUNCA TE CONTEI 3ª PARTE



Na manhã seguinte fui para a escola com as minhas calças novas e a minha camisola preferida.  Antes de entrar olhei ao redor da escola, a ver se o via por ali, mas não estava! As aulas pareciam não ter fim, assim como a manhã, não via a hora de ir para a pastelaria.  Mas à medida que a manhã ia passando, comecei a ficar nervosa. E se alguém nos visse e fosse dizer à tua avó? Comecei a ter medo, não queria que ela afasta-se a única pessoa que me podia contar coisas de um país que eu adorava.
E se nos vissem, que mal havia? Não estávamos a fazer nada! Apenas conversávamos. Passei a última aula a imaginar uma conversa com ela, e o que diria. Previa vários cenários, e para todos eles tinha resposta. Desde fingir que era um professor, a irmão de uma amiga!

A pastelaria estava cheia de alunos, como todos os dias àquela hora. Sentei-me com Ana e Rui, eles começaram a namorar no inicio do ano. Rui deu um beijo a Ana, comecei a sentir-me mal, geralmente quando começavam a beijar-se eu pegava num livro e fingia que não via. Mas desta vez comecei a pensar que nunca ia arranjar namorado. Todas as raparigas, até as mais novas namoravam, todas menos eu! Fui para o balcão e pedi um café. Fiquei lá à espera que voltassem para as aulas. A pastelaria começou a ficar vazia e ele não aparecia. Quando Ana saiu convidou-me, mas preferi ficar, ali sempre podia ver televisão. Levei as chávenas do café à Dona Rosa.

- Devias de sair mais, as raparigas da tua idade precisam de se divertir.

Dona Rosa, era uma mulher já de idade avançada. Tinha os cabelos todos brancos e era magrinha. Nunca se metia na conversa de ninguém, nem dizia que não se podiam beijar, ou abraçar, talvez fosse por isso que todos gostavam de ali ir.

- Eu prefiro ficar. Se não se importar.
- A mim não me incomodas, mas se deixas de sair, acabas por perder as amigas todas.
- Não gosto de servir de vela. É melhor assim.
- Eu nunca gostei de servir de vela, e olha que tive de servir. E muitas vezes. Vocês já vão tendo alguma liberdade, no meu tempo namorávamos à janela! Mas isso não impediu de eu ficar grávida! Quando se quer uma coisa dá-se sempre jeito. Ainda bem que as coisas vão mudando. Enfim...  Deixa-te ficar, eu tenho de trabalhar.

Uma hora depois da hora combinada, entrou ele. Sentou-se ofegante, ao mesmo tempo que me sorria.

- Desculpa. Não conseguir sair mais cedo.
- Acontece.
- Queres café?
- Já bebi.

Levantou-se e foi pedir café, sentou-se a olhar para mim enquanto bebia o café. Não dizia nada, apenas olhava.

- Como te disse ontem, não sou de cá. Por isso estou nas tuas mãos. Onde sugeres o passeio de hoje?
- De hoje?!
- Sim, faço questão de te raptar todos os dias para me mostrares a cidade. Ou tens aulas?
- Não. Pelo menos hoje.
- Fantástico. Vamos? Tenho o carro aqui.
- Carro?!
- Não estás a pensar em ir a pé.
- Acho que hoje podíamos ir a pé. Se não te importares.
- Se é isso que queres...

Demos um passeio pelos jardins e fomos ver os museus. Eu ia descrevendo onde estávamos e ia respondendo o melhor que conseguia às curiosidades dele. Ele estava encantado com o que via, confesso que achei uma certa piada, não achava as coisas assim tão lindas nem tão fabulosas. Mas ele achava, e se ele me ensinou coisas de Itália, eu tinha de retribuir, lembro-me que a tarde estava fresca mas como íamos a pé não sentimos frio.
O dia estava a acabar, senti uma certa pena. Olhei o relógio, estava quase na hora do autocarro.

- Tenho de voltar.
- Já?!
- Sim. Não me posso atrasar.

Estendi-lhe a mão, sim filha, a mão, não dávamos beijos a desconhecidos, ele agarrou-a mas não a soltou.

- E amanhã?
- Amanhã?!
- Podemos voltar a ver-nos?
- Não sei...
- Hoje, quando me atrasei, tive medo que não estivesses à minha espera.
- Se combinámos esperava.
- Então, vemos-nos amanhã?
- Se quiseres.
- Até amanhã, cara mia.

Quando ele soltou a minha mão, esta estava quente, a minha cara também.
Fui para casa feliz, no dia seguinte voltaria a vê-lo. Mas não apareceu, era sexta feira, e por isso passei o fim de semana triste, pois ainda faltava três dias para o voltar a ver. Na segunda feira tinha aulas todo o dia, por isso não podia ir à pastelaria, pensar nisso deixava-me mais triste ainda. O fim de semana passou lentamente.
Finalmente chegou a segunda feira, à hora do almoço fui à pastelaria mas não o encontrei. A alegria que me invadiu desapareceu!
 Na última aula a professora de matemática quis falar comigo. Nas férias da Pascoa ia ficar com os netos, o filho ia passar uns dias num cruzeiro. Ela queria ajuda para ficar com eles. Sabia que eu nas férias cuidava de crianças e achou boa ideia. Estava a chegar à portaria quando o vi, o meu coração disparou, queria ir ter com ele, mas a professora continuava a dizer que a casa era grande e tinha escadas, os netos eram pequenos e não paravam... Quando ela me deixou ele já não estava. Apetecia-me chorar, mas tive de me controlar, que diria a professora?!
Essa noite fiquei acordada até tarde, pensando porque ele tinha ido, teria ido para se despedir?!
Na manhã seguinte sai sem comer, o meu estômago dava voltas, o maldito teste de matemática tinha de ser naquele dia! Não tinha dormido nada, e eu que nunca estava nervosa, nesse dia estava a ter uma crise!
Mas acabou por correr bem, e à hora de almoço lá fui para a pastelaria. Algum tempo depois apareceu ele, sentou-se e bebeu café.

- Ontem queria falar contigo, mas não podia esperar. Tinha uns colegas à espera. Hoje tens tempo?
- Sim, tenho a tarde livre.
- Óptimo! Vamos?!
- Onde?
- Quero mostrar-te um sitio que descobri.

Confesso que tive um pouco de receio, mas a curiosidade era maior. Subi para o carro e lá fui, considerei aquilo a minha aventura! Tinha 17 anos e nunca tinha desobedecido à tua avó. Já estava na hora de fazer algo que realmente queria, mas e se ele não fosse como eu imaginava?!
Acho que ele pressentiu que eu não estava à vontade, porque ligou a radio e começou a falar. Disse que se chamava Luca e que tinha uma irmã, continuou a falar mas eu não prestei muita atenção, estava a afastar-me da cidade! Não devia de estar ali.

- Se queres voltar diz. Queria falar contigo, mas nunca estamos sozinhos.
- Pois...

Parou o carro fora da cidade, apenas se viam árvores, ao longe umas casinhas e nada mais. Olhou para mim e agarrou a minha mão. Acho que gelei, mas não a tirei.

- Não consigo deixar de pensar em ti. Durante a noite invades os meus sonhos.

Fiquei sem saber que dizer, nunca me tinham dito nada parecido! Que devia de dizer?! Que também pensava nele?! Que ficava triste quando não o via?! Demorei tempo demais a responder, ele saiu do carro e ficou a olhar o horizonte. Não podia ficar ali sentada, nem podia deixá-lo sem uma resposta, mas o que lhe dizia? Sai e fui para junto dele.

- É um sitio bonito. - Comecei por dizer - Nunca aqui vim.
- Eu perdi-me e vim ter aqui.
- Perdeste-te?
- Quando cheguei. Sou novo aqui, lembras-te?!

Falou-me da sua pequena aventura quando se perdeu e do tempo que demorou a voltar à cidade. Achei piada, nunca pensei que alguém se perde-se numa cidade tão pequena.

- Se te perdesses não achavas piada.
- Desculpa. Não...

Calei-me porque percebi que não estava realmente ofendido. Sorriu e os olhos brilharam, ficavam mais lindos quando sorria.

- Gostas de andar a pé?
- Sim.

Estendeu-me a mão e fomos passear, o vento que se levantou brincava com os meus cabelos que naquela altura eram compridos, uma rajada mais forte entrelaçou uma madeixa num ramo. Ele ajudou-me a soltá-lo. Ficamos a olhar um para o outro, a mão dele que ainda segurava o meu cabelo, entrelaçou-se numa madeixa maior e puxou-me. Não fugi, nem quando senti os lábios dele, quentes, nos meus. Fechei os olhos e deixei-me levar por ele, e tentei rever mentalmente tudo o que tinha lido sobre um beijo. Tinha devorado uma infinidade de livros, queria estar preparada quando chega-se a hora. Mas não falavam daquilo que estava a sentir, a minha cabeça dava voltas, o meu coração batia, as pernas tremiam...acho que se não estivesse nos braços dele tinha caído.
Quando ele parou, eu ainda estava de olhos fechados, o meu primeiro beijo. E trocado com um italiano. Esse foi o primeiro de muitos, mas mais soltos da minha parte. Tudo se aprende nesta vida.

As nossas saídas tornaram-se mais frequentes, não te vou maçar com episódios e detalhes de monumentos e coisas que vimos, coisas que tu também conheces. Os cafés que tomámos, as conversas que tivemos quando estava a chover. Tudo isso se passou, mas irias achar aborrecido tanta coisa fútil.
Ainda me lembro das coisas tão idiotas que falávamos, o quanto nos ríamos, o feliz que fui.

Um dia quando cheguei à pastelaria ele já lá estava à minha espera, levantou-se quando me viu e levou-me até ao carro em silêncio. Algo não estava bem. Podia sentir isso.
A viagem até ao nosso sítio foi feita sem dizer uma palavra. Quando lá chegámos ele saiu, fiquei sentada por uns instantes, que se passava?! Mais uma vez ali estava, sem saber que fazer. Se algo estava mal, queria que ele soubesse que estava ali para o apoiar. Saí, e sem pensar duas vezes coloquei-me à sua frente e beijei-o.

- Tenho de voltar para casa. O meu pai precisa de mim.

Então era isso, estava a despedir-se.

- Então vai, certamente não te chamaria se não fosse preciso.
- Vem comigo, não imagino a minha vida sem ti.

Afastei-me dele, estava a convidar-me para ir com ele?! Para Itália?! Por uns instantes fiquei feliz, mas como podia ir?!

- Como?!
- Sei que nunca falámos nisso mas quero casar-me contigo, eu pensei...
- Casar?! Mas eu tenho 17 anos!

Não sei quem levou o susto maior, se ele ou eu! Mas não disse nada, ficou a olhar para mim, como se fosse a primeira vez que me visse, respirou fundo e deu um meio sorriso, murmurou algo em italiano.

- Desculpa, eu...
- Não, eu é que peço desculpa. Nunca pensei que fosses tão nova. Dio mio!

Deixou-me na pastelaria, e nunca mais o vi, nesse ano deixei a escola e comecei a trabalhar num infantário. Nunca o esqueci, nem recuperei a alegria de viver, o meu mundo tinha acabado quando ele partiu. Sempre que a vida se complicava, ou quando queria estar sozinha, ia para o nosso sítio. Ali no meio do nada, era como se volta-se atrás no tempo. Ali sentia-me mais perto dele.

Os anos passaram, precisamente três, posso dizer que durante esse tempo, me refugiei no passado, era lá que passava a maior parte do tempo.

No dia que fiz 20 anos não fui trabalhar, aluguei um táxi, naquela altura não se podia tirar a carta antes dos 21, como estava a dizer, fui de táxi, como tantas outras vezes, o regresso era a pé. Demorava quase uma hora, mas fazia-me bem.

O sol envergonhado de Novembro brilhava por entre as nuvens. Confirmei se levava o guarda-chuva. Na volta devia de estar a chover, as nuvens cinzentas assim faziam pensar.
Mais uma vez, deixei-me levar pelas recordações e voltei àquele tempo, onde fui feliz, se pudesse estar com ele novamente... Naquele tempo era uma miúda mas sabia que o amava, era com ele que queria estar, eram os beijos dele que queria, o seu toque... As saudades queimavam o meu peito, impedindo de viver, apenas vivia da recordação daqueles dias, afastei todos os pretendentes que tive, apenas pensava nele. Nenhum homem me fazia sentir o mesmo que ele. Mas gora o que sentia não tinha importância. Sentei-me numa pedra e deixei as lágrimas cair, tinha 20 anos e continuava amarrada ao passado. Tinha de seguir em frente, tinha de me despedir dele!
O barulho de um carro vez-me limpar as lágrimas, neste último ano os carros abriram caminho por entre as árvores, fazendo um caminho mais curto até um supermercado que abrira fora da cidade.
Senti uma mão no meu ombro.

- Continuas a vir aqui?!

Luca estava ali, não consegui dizer nada, apenas chorei. Envolveu-me nos seus braços e beijou-me, como se nunca tivesse partido. O abraço tornou-se mais apertado e o beijo mais intenso, senti que metia as mãos por dentro da minha camisola e acaricia as minhas costas.

- Cara mia...

Os beijos sucederam-se, e as caricias também.

- Devia de parar mas tinha tantas saudades tuas... E não tenho muito tempo, amanhã tenho de voltar.

Beijei-o, impedindo que fala-se, que volta-se a dizer que tinha de partir novamente.

- Quero estar contigo. Leva daqui.
- Tens a certeza?!
- Sim.

E voltei a beijá-lo, provando que estava a falar a sério. entrámos no carro sem falar. Não sei o que ele pensava, mas eu não estava preocupada com nada, apenas queria estar com ele. Nesse momento era a única certeza que tinha. Amava-o,os anos passaram, mas continuava a ama-lo como antes, não tinha a menor dúvida quanto a isso. Quando chegámos ao hotel onde estava hospedado subimos, e sinceramente não pensei no que diria o recepcionista.

Entre beijos e caricias fomos retirando as roupas, e quando já não tínhamos barreiras entre nós entregámos-nos nos braços um do outro e foi aí que passei a tarde e a noite. Não me importei com a tua avó, nem no que me diria no dia seguinte. Tinha 20 anos, estava na hora de começar a ter vida própria. Mas a confiança que tinha quando caiu a noite, começou a abandonar-me nessa madrugada. E quando cheguei a casa ao nascer do sol, a confiança tinha-me abandonado por completo e senti medo, muito medo. Não tínhamos usado qualquer tipo de protecção!
Três anos depois voltámos a encontrar-nos e não falámos, apenas nos deixámos levar pelos sentimentos! E assim como naquele tempo, ficámos sem saber nada um do outro.
A tua avó reclamou da hora a que cheguei, mas fiz que não ouvi e fui trabalhar como se não se tivesse passado nada. Dias depois confirmei que o meu medo era infundado! Senti um misto de alivio e de tristeza.

Comentários

  1. Escreves muitíssimo bem, só tenho pena de não poder vir mais vezes ao teu blog porque só consigo ler em condições quando estou no PC...mas estarei sempre por aqui nessas alturas. Um grande beijinho
    elisaumarapariganormal.blogspot.pt

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    1. Olá Elisa, obrigada :) é sempre um prazer ter-te por aqui. Beijinhos

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