AS COISAS QUE NUNCA TE CONTEI 7ª PARTE



A sala parecia enorme sem a presença dele, acabei de beber o meu chá. Fui apanhar o computador, tinha de falar com a minha filha enquanto ele estava no escritório. Esperei um pouco por ela, olhei o relógio, estava a passar da hora que combinámos. Comecei a ficar preocupada. Comecei a ver o que se comentava naquele mundo, tentando abstrair-me da minha preocupação. O bip do costume fez-me sorrir.

-  Desculpa mãe. Atrasei-me.
- Olá filha, está tudo bem?
- Sim, saí mais tarde do trabalho. Os ares de Itália fazem-te bem. E não querias ir.
- Porque dizes isso?
- Tens um brilho diferente, pareces feliz.
- Estou feliz.
- Hum! O que a realização de um sonho faz a uma mulher. Devias de ter investido mais em ti, ter viajado.
- Sabes que não podia.
- Sim, por isso me lembrei de uma coisa. É melhor deixar as nossas conversas, para quando regressares.
- Porquê?!
- Porque assim, vais estar pendurada do relógio, e não vais aproveitar a viagem.
- Cheira-me que existe aí mão do meu genro.
- Não te consigo enganar?! Sabes que gosto de falar contigo todos os dias, mas ele tem razão. Estou a monopolizar o teu tempo, mesmo à distância estarás pendente de mim. Por isso, até ao teu regresso. Beijinhos e diverte-te.
- Beijinhos filha


Desliguei o computador, olhei a porta do escritório, ainda se ouvia a voz dele ao telefone. Agarrei o diário, continuei o raciocínio que fora interrompido pelo capitão,  não havia muito a acrescentar, mas era melhor, que ficar ali olhando a porta entreaberta.

Dia 10 - ... Nunca poderia fazer algo que magoasse a minha filha. E se fizer o que o coração me pede, estarei a magoá-la. Já decidi, vou aproveitar este reencontro e depois regressarei a casa. Foi um dia de grandes emoções, amanhã vamos visitar Nápoles.

Dia 11- Chegámos a Nápoles. O dia está lindo, embora falte pouco para o fim de Novembro, o clima está fantástico. Hoje vamos ver o museu e à noite vamos jantar num restaurante de comida típica.

Dia 12- Passámos dois dias em Nápoles, pois um dia é pouco para tanta coisa interessante, vi o monte Vesúvio, as ruínas de Pompeia, as catacumbas, o teatro San Carlo, o museu de Capodimonte... Depois de Nápoles fomos a Sorrento. Que fica a pouco minutos de Positano. A cidade natal de Luca.

Dia 15- Sei que estive uns dias sem escrever, mas fomos de barco, e esqueci-me de levar o diário. Mas posso afirmar que toda a costa italiana é digna de ser visitada. Hoje vamos até Positano, estou curiosa sobre a cidade.

Deixámos o carro junto à costa, e bebemos café numa das imensas esplanadas que rodeiam as praias.

- Positano não tem muito que ver, mas acho que vais gostar da igreja de Santa Maria Assunta, depois podemos passear no centro histórico.
- Estou nas tuas mãos.
- Gosto dessa ideia.

Beijou-me brevemente e colocou o braço nos meus ombros enquanto subimos a estreita rua. As pessoas acenavam e diziam algumas palavras, que infelizmente poucas percebi. Pouco depois chegámos à igreja, era linda. Nada de muito deslumbrante, pintada de branco com adornos em dourado, era um exemplo de como o simples pode ser belo. Naquele instante lembrei-me de uma outra igreja que eu lhe mostrei, o  beijo que trocámos... fiquei emocionada ao recordar, ao ver as minhas lágrimas, Luca deixou-me sozinha. Não consegui evitar pensar, se não tivesse medo, agora estaria a viver ali... e tinha a certeza, seria feliz naquela pequena cidade. Deixei que as lágrimas lavassem a minha alma, por tudo o que perdi, por tudo o que me neguei viver.

Quando saí, Luca falava com o padre, este inclinou a cabeça ao ver-me e afastou-se.

- Pronta para subir?
- Subir?!
- Claro, as montanhas dão uma perspectiva linda da cidade.

E ele tinha razão, a paisagem era de tirar o fôlego. A vista sobre a costa era magnifica, podia ver-se a cúpula da igreja, que sobressaia, no meio dos demais edifícios. Descemos por uma infinidade de ruas estreitas carregadas de artesanato e artistas de rua. Numa das ruas onde passámos, um artista estava a pintar o mar, adorei a pintura, mas não estava terminada. Luca prometeu enviar-ma para Lisboa. Depois almoçámos junto à praia, e ali permanecemos a olhar a cidade, as casas eram de várias cores, azuis, rosas, amarelas... parecia um arco-íris pincelando as verdes montanhas.

- A vista é linda.
- Sim, os turistas adoram.
- Não gostas da vista ou dos turistas?

Não me respondeu, achei estranho. Ele que era tão animado, sempre disposto a responder, agora estava taciturno.

- Se não querias regressar porque não disseste?
- E não te mostrava o local do qual tanto te falei?!
- Luca!

Um homem jovem abordou-nos, fez um aceno com a cabeça na minha direcção e continuou a falar com Luca.  Quando nos deixou, ele estava ainda mais estranho.

- Podemos ir quando quiseres. Não tens de te sentir obrigado a mostrar-me...
- A minha irmã quer ver-me.
- E estás incomodado por estares comigo? Posso ficar aqui. Ou noutro sítio qualquer. Não quero...
- Não digas isso! Nunca me incomodou a tua presença. Vais comigo.
- A tua irmã, ela sabe quem sou?!
- Sim. Mas há muito que não falamos.
- Porquê? Desculpa... não quero intrometer-me.

Luca levantou-se e estendeu a mão na minha direcção.

- Anda, vamos até à praia.

A areia molhada nos pés era agradável, uma brisa começava a soprar. A pouco e pouco o sol estava a esconder-se.

- Simplesmente começamos a afastar-nos. Cada vez que chegava de Portugal, ela estava à minha espera, queria conhecer-te. Falei tanto em ti, que acho que a família inteira se apaixonou por ti. Quando lhe disse que ia desistir, chamou-me idiota. Que se eu agi-se como um verdadeiro italiano, já cá estavas. Quando um italiano quer uma mulher, vai e conquista-a. Que devia de ser homem... Como não estávamos de acordo, discutíamos imenso, e comecei a afastar-me. Precisava de ocupar a minha mente e o meu tempo, por isso comecei a ir para o mar, passava lá mais tempo que em terra. Ficar aqui, dava-me a esperança que um dia, podias vir procurar-me. Tinha de parar de viver agarrado ao passado. Quando decidi casar, ela não foi ao meu casamento, não queria ser participante de uma farsa, de uma união sem amor! Como fiquei a viver aqui, porque o meu pai estava doente, deixou de vir a casa só para não me encarar. Foi viver com uma amiga. Culpei-me por ela se afastar. Depois do divorcio, começou a vir, mas continuava a evitar-me. Quando os meus pais faleceram, achei que devia de partir, restaurei a casa da minha avó e mudei-me. Acho que ela encarnou o papel de mãe,e sofria de cada vez que ia para o mar, o mar é duro, e perigoso. Os dias deram lugar a meses e um dia percebi que não tinha qualquer contacto com ela.
- Desculpa, nunca pensei...
- Isso agora não importa. Simplesmente preferia não ir vê-la.
- É tua irmã, deve de ter saudades tuas. Como soube que estavas aqui?
- Imagina uma mãe que não vê o filho à meses, porque está no mar. Quando o barco chega à praia, a voz começa a correr e chega até ela. Ele ainda está no barco, mas já tem a mãe no cais. Passou-se mais ou menos a mesma coisa.
- E não queres ir?
- Temos de ir, aguardam-nos para jantar.

Fizemos o caminho em silêncio, ele estava apreensivo e eu nervosa. Que lhe diria?! Não via que interesse ela podia ter em mim. Logo agora, que eu estava quase de partida. Quando Luca parou o carro na entrada, ficou uns minutos a olhar a enorme porta de madeira. Segurei-lhe a mão, a minha estava a tremer! Como podia transmitir-lhe segurança, conforto, se estava um feixe de nervos?! Agarrou-me a mão e levou-a aos lábios, antes de colocar a outra mão no meu cabelo, como fazia quando eu tinha o cabelo comprido, puxou-me para ele e beijou-me, a princípio calmo e tranquilo, como se quisesse transmitir uma tranquilidade que nenhum sentia, mas a calma deu lugar a uma urgência que não podia ser satisfeita ali, naquele momento. Apoiou a testa na minha e sorriu.

- Amo-te.
- Eu também te amo.
- Fica comigo.

Uma luz no exterior da casa acendeu-se iluminando a entrada. O jovem que abordou Luca na esplanada estava junto à porta, uma mulher juntou-se a ele.

- Luca?!

Ao ouvir a voz da irmã saiu do carro, pensei em ficar mais uns minutos mas o jovem apareceu junto ao carro e abriu a porta. Deu-me o braço e juntá-mo-nos a Luca e à irmã, que se abraçavam.

- Afinal, conseguiste!
- Aline, Cris. - Luca apresentou-nos brevemente.
- Prazer.
- Prazer?! Quanta formalidade com a família. Desculpa o meu português. Gino, acompanha Cris até à sala, preciso falar com o meu irmão.

- Cris. Posso chamar-te assim?
- Claro.
- Queres beber algo?
- Não obrigada. Fala muito bem português.
- Falas... Aprendi com Aline.
- Que aprendeu com os pais, acho que gostavam muito de Portugal.
- Sim, mas começou a aprender mais seriamente, depois de saber que o irmão estava apaixonado. Queria, como se diz... fazer bonito, ficar bem...
- Impressionar?!
- Sim, queria impressionar a cunhada. Que és tu, suponho.
- Suponho que sim.
- Supomos muito...

Aline entrou repentinamente na sala com Luca. Parecia que a situação, entre eles, estava resolvida. Durante o jantar a conversa manteve-se animada. A conversa oscilava entre o italiano e o português, sendo interrompida quando Gino pediu a Luca que visse uns papéis no escritório, fiquei sozinha com Aline.

- O meu irmão disse que vais partir em breve.

A minha mão parou a no ar, a chávena do café ameaçava cair.

- Sim, tenho de ir.
- Porquê?!
- Porque tenho voltar, esperam por mim.
- A tua filha. - Aline colocou a chávena dela na mesa - Ele também esperou muito por ti.
- Eu sei... gostava que as coisas fossem diferentes. Mas não são.
- Ama-lo. Só isso conta, o amor. Sei que o amas, vi quando se beijaram. Ele sofreu imenso quando não regressas-te com ele.
- Se pudesse ficava, acredita. Mas acima de qualquer outra coisa, sou mãe. Eu também sofri com isto tudo. Mas não posso mudar o passado.
- E vocês?! Vão afastar-se novamente?
- Desculpa, mas já me decidi.
- Ele deve de te amar imenso, não é comum um italiano esperar por uma mulher, nem sufocar o que sente para satisfazer os desejos dos demais.
- A minha filha desconhece a existência dele, e o teu irmão sabe disso, assim como aceitou, que por ela, tenho de partir. Desta vez, não nos afastamos definitivamente, pensamos manter contacto.
- O que não vos impede de sofrer.
- O sofrimento faz parte da vida.
- Sim, é certo, mas neste caso, o sofrimento podia ser evitado.
- Podemos mudar de assunto?! Preferia não falar nisso.

Mas não houve assunto, o ambiente ficou pesado, Aline refugiou-se numa revista e eu beberiquei o café frio até que Luca voltou com Gino.

Dormi mal essa noite, Aline tinha razão, saber que manteríamos contacto, não evitava que sofrêssemos quando nos afastássemos. Sentia o calor do corpo dele junto ao meu, comecei a pensar que me restava apenas esta noite e metade do dia seguinte na sua companhia. Lágrimas silenciosas caíam pelo meu rosto, lutando contra a tentação de o abraçar levantei-me. Agarrei o meu diário e fui para a sala. Escrevi por entre as lágrimas.

Dia 15- Positano é linda, uma cidade pequena, muito colorida. Tem umas praias fabulosas. As pessoas são hospitaleiras, penso voltar um dia. Conheci a irmã de Luca, gostei dela, frontal e aberta. E vê-se que se preocupa com o irmão. Gostava de a ter conhecido noutras circunstancias. Mas a vida...

Senti um beijo no ombro, que o casaco tinha deixado a descoberto quando deslizou.

- O que escreves?
- As memorias da viagem.
- Se tens de as escrever, é porque não merecem a pena.
- Claro que merecem!
- Só devemos guardar as coisas inesquecíveis, se precisas de as escrever... Bem, não são assim tão especiais.
- Não são para mim, eu não preciso. São para a minha filha. Quero que saiba, o que vi, o que fiz.
- Tudo não, espero.
- Não sejas atrevido.

Sorri-lhe ao mesmo tempo que me levantei, Luca tirou-me o diário da mão e deslizou as mãos por entre o casaco e os meus ombros, deixando-o cair ao chão. Amanhã já não ia sentir as mãos dele percorrendo o meu corpo... Depositou um beijo no meu pescoço e estremeci.  Fechei os olhos, e encostei-me a ele, com mãos hábeis tirou-me soutien e começou a beijar os meus peitos. O meu corpo arqueava a cada beijo, desejando mais. Senti a parede nas minhas costas nuas, o frio contrastava com o calor que invadia o meu corpo. A mão de Luca  encontrou as minhas cuecas, que habilmente retirou. Elevou-me um pouco contra a parede e no mesmo instante senti-o dentro de mim. Os movimentos começaram a aumentar de ritmo à medida que o desejo crescia. Desejo que só acalmou quando os corpos atingiram o clímax em simultâneo. Levou-me em braços para a cama e adormecemos nos braços um do outro.

Sentia as costas doridas, em contacto com a água do banho pareciam estar queimadas. Tentei ver mas com o vapor da água não consegui ver nada. Ia pedir a Luca, quando este acaba-se de fazer o pequeno almoço.

- Dio! Scusa.

Não percebia o que ele queria dizer com aquilo. Sentia as mãos dele acariciando as costas.

- Desculpa, a culpa foi minha.
- Tua?
- Ontem, quando fizemos amor. Nem me lembrei que não tinhas roupa...
- Esquece. Não me doí assim tanto.
- Idiota! Como pude fazer-te isto?!
- Fazer-me?! Acho que não fizeste sozinho. E sinceramente não me importava de fazer novamente.
- Não digas isso, estás toda vermelha.
- Vermelha mas feliz. Nunca imaginei que pudesse ser tão feliz como nestes dias.
- Podes ficar.
- Por favor, não me faças isto.
- O quê?! Pedir-te para ficar? Ainda não partis-te e já estou destroçado.
- Por favor Luca.

As lágrimas caíram sem que as conseguisse controlar. Chorei por mim e por ele.

- Por favor, não chores. Se queres ir, vai. Não te vou impedir, nem pedir novamente que fiques. Mas não me peças que concorde. Não posso pactuar com algo que nos vai magoar aos dois. A que horas tens de estar no navio.
- Daqui a duas horas.

E duas horas depois Luca parava o carro junto ao cais, tirou a minha mala e deu-me um rápido beijo. Quando estava a subir as escadas do navio, o carro dele partiu. Não ficou para dizer adeus.

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