AS COISAS QUE NUNCA TE CONTEI 2ª PARTE




Hoje ao olhar para trás, vejo que me foi negado viver o meu primeiro amor, o mais lindo e puro dos amores! Como todos os amores dessa idade. Talvez nos tivéssemos separado pouco depois, talvez com a idade deixa-se de gostar dele, talvez os ciúmes fossem mais fortes que o amor, talvez passa-se noites a chorar por ele, ou a relatar as nossas discussões à tua avó!
Não! Isso não, ainda hoje, não consigo imaginar a tua avó a ouvir as minhas lamentações, como eu fiz contigo quando o teu namorado não te telefonava, ou por ter saído com uma amiga.
Quem sabe e estou enganada, talvez ela ouvisse, mas ficou a dúvida. Isso, era mais uma coisa que não se fazia naquele tempo. As mães existem para educar, não para serem nossas amigas. O que fazem é para nosso bem. Por isso quero acreditar que o fez, porque queria o melhor para mim, que queria a minha felicidade.
 
Acho que todas as mães desejam o mesmo, que os seus filhos sejam felizes. Para mim, isso é tudo o que quero, que sejas feliz. Mas não quero que olhes para o teu passado e sintas o mesmo que eu, que foste impedida de tentar ser feliz. Pior, que EU te impedi! Mas voltemos um pouco atrás nas coisas que nunca te contei...


Depois de toda aquela discussão da tua avó com a mãe do Luís e da Clara, deixei de cuidar dela, o que me deu imensa pena, gostava da menina.  Mas, nesse verão, consegui ficar a cuidar de duas meninas, naquela época não era preciso um diploma ou um curso, bastava saberes o que estavas a fazer e fazê-lo bem. E eu tinha, e tenho, jeito com crianças, foi assim que ajudei a pagar as despesas lá em casa. Pois, todos tínhamos de ajudar, de uma forma ou de outra.
A tristeza abateu-se sobre mim, nem mesmo as brincadeiras com as crianças conseguiam acabar com a tristeza. Parte do meu tempo era passado a pensar nele, que devia de ter dito à tua avó que gostava dele. Mas não disse. Nem sei se conseguia algo se a enfrenta-se. Uma coisa tinha garantida, um castigo. No mínimo! Por isso jurei a mim mesma, se um dia tivesse filhos, nunca, mas nunca, fazer o que me tinham feito. Nunca os meus filhos iriam dizer que não fizeram isto ou aquilo porque a mãe não deixou. E a cada dia que passava a promessa era renovada.
O Luís voltou para casa nas férias do Natal, e por muito que a tua avó tenta-se impedir, ainda nos vimos algumas vezes, queria falar-lhe, dizer-lhe que tinha saudades dele. Mas a tua avó não permitia que estivesse perto dele. Mais uma vez chorava, e tudo se reavivava, e lá no fundo tinha a esperança, que ela um dia me deixa-se ser a namorada do filho da vizinha.
Até ao dia em que a família dele teve de partir. Aí perdi toda a esperança, sabia que nunca mais o veria.
Tudo ficou reduzido a doces lembranças, mas as lágrimas voltavam a cair quando a nossa música passava na rádio. Hoje dou graças por não termos as coisas que vocês têm agora, iria martirizar-me a ouvi-la uma e outra vez.

Dois anos depois, talvez por verem que a tristeza que se apoderou de mim, não me abandonou com o passar do tempo, tive o privilegio de voltar à escola.
Pouco a pouco, aquele amor foi superado, as novas disciplinas ocupavam o meu tempo, e nessa altura, na aula de historia, descobri outro amor.  A mitologia grega. Para mim tudo o que fosse grego era divino. Pelo menos por uns meses, até ver um filme sobre Itália. Acreditas que me apaixonei perdidamente por aquele país?!  Quando o filme acabou, senti uma profunda tristeza, como se tivessem levado uma parte de mim. Sabes, aquela sensação de dejavu que às vezes se apodera de nós?! Senti isso quando " passeámos" por Nápoles e pela ensolarada Toscana. Em casa não falava de outra coisa, mas a tua avó não me ligava nenhuma, quem me ouvia era a tua bisavó! Ela sim, escutava tudo com a maior da atenção. A tua bisavó, mulher dada a acreditar na reencarnação, o que lhe valeu bastantes discussões com a tua avó! Nem imaginas a quantidade de discussões a que assisti, tudo porque a tua avó dizia que eram disparates, que, caso fosse possível, podia lá ser uma pessoa lembrar-se do que viveu à centenas de anos atrás! Se ela nem se lembrava do que tinha almoçado, como se haveriam de lembrar do que tinha acontecido nessa altura?! Mas já me estou a desviar do que te queria contar, ela dizia que talvez, eu tivesse sido italiana numa outra vida, e quem sabe se nessa época eu não tive um amor italiano?! Para ela, que detestava complicar as coisas, era essa a razão, o meu amor por Itália estava explicado. E, como eu sentia aquelas coisas todas, sem as conseguir explicar, achei que era uma explicação tão boa como outra qualquer.

Embora me lembra-se dele todos os dias, a cada dia que passava, o Luís ocupava um lugar mais pequeno no meu coração ao passo que Itália ocupava a maior parte. Tudo o que fosse relacionado com Itália eu devorava e tomava notas, nessa altura trazia comigo um bloco onde anotava tudo.  Como era de esperar, passava o tempo sozinha. As minhas amigas, como nunca deixaram de estudar, estavam mais avançadas, e as raparigas que frequentavam o mesmo ano que eu, eram mais novas, por isso não me ligavam nenhuma.  Talvez porque comparada com elas, eu parecia uma adulta. Com os meus quinze anos, já estava fisicamente desenvolvida! Com horários diferentes e com intervalos muito curtos, as minhas amizades ficaram reduzidas. Lembro-me que uma das minhas novas colegas, ainda me acompanhou por uns dias, acho que por pena, sabes, em todas as turmas há a boazinha, a que tem pena de tudo e todos. Mas com o tempo acabam por cansar-se, afinal não se consegue fingir interesse numa coisa que não se gosta.
Essa foi a segunda lição que a vida me ensinou, quando as pessoas têm de fingir para manter alguém ao seu lado, seja por amor ou amizade, a relação não tem futuro. Ninguém consegue fingir para sempre!
É, infelizmente, ou felizmente, hoje já não sei mais, cresci cedo demais! Por isso as minhas conversas não eram as mesmas das raparigas da minha idade. Dava mais atenção a documentários que a programas de entretenimento. O que ajudava a que elas se afastassem ainda mais.
O ano acabou como começou, sem novidades para mim. Nesse verão voltei a cuidar de crianças, raramente via as minhas amigas, e quando as via nem sempre podia sair com elas.

O verão chegava ao fim, e as aulas estavam a começar, fiquei com a mesma turma. A maioria das minhas amigas foram para a universidade, poucos da minha idade ficaram.
Este ano o meu horário era mais livre, dois dias por semana não tinha aulas de tarde, nesses dias, como tinha esperar pelo autocarro no fim do dia, sim, também não tínhamos autocarro a toda a hora como vocês,  juntava-me com as minhas antigas colegas, a Paula e a Bete, era tudo o que me restava de amizades,  e íamos para a pastelaria da Dona Rosa, observar as "vistas", palavra chave para designar os rapazes mais velhos, quando chegamos aos 16, 17 anos, achamos os rapazes da nossa idade muito imaturos. E entre historia e matemática, lá íamos apreciando as vistas. Voltando à pastelaria, esta ficava junto à escola, o que dava jeito, porque ouvíamos o toque a chamar para as aulas.  Nesse dia, fiquei sozinha, elas foram ver os rapazes jogar, eu detestava, e como bem sabes, ainda detesto futebol, por isso fiquei ali, na pastelaria. Na televisão falavam, sobre as cidades que todos deviam de conhecer, e ali estava ela, Roma! Coloquei de lado o único livro que tinha levado, e abri o meu bloco de notas, para anotar tudo o que dissessem de Roma e da Fontana di Trevi. Pedi um café à Dona Rosa e fiquei colada ao ecrã, absorvendo tudo o que diziam.
Mas o meu café chegou à mesa com companhia, e essa companhia sentou-se na minha mesa!

- Desculpa. Posso? Sou novo na cidade e não conheço ninguém. Como estavas sozinha pensei em arriscar. Ou estás à espera do teu namorado?

O meu coração parou, um rapaz lindo, bem, um homem, estava a sorrir para mim, era o sorriso mais lindo que eu tinha visto na minha vida.

- Não.

Lembro-me que gaguejei, e fiquei envergonhada.

- Por aqui deixam as mulheres bonitas sozinhas?!

Senti-me corar, ele chamou-me mulher?! E bonita?!  Bebi um pouco do café e tentei concentrar-me na televisão. Mas ele apanhou no meu bloco e ficou a olhá-lo por uns instantes.

- Fontana di Trevi não se escreve assim. - Comentou pouco depois - Importas-te?! - Ele apanhou um lápis e corrigiu -  É assim, confia em mim que sou italiano.

Estava encantada, um italiano estava ali, e a falar comigo! Começou a contar-me que a Fontana di Trevi ficava em Roma, que é a maior construção de fontes, e que era um dos motivos porque muitas pessoas vão a Roma. A fonte foi alvo de alguns restauros, mas continuava a ser um dos mais belos monumentos de Itália. E já foi cenário de muitos filmes.
Podia ficar ali a ouvi-lo todo o dia, não precisei de tomar notas, senti que nunca me iria esquecer de nada daquilo.

- Em que escola estás?
- Nesta aqui ao lado.
- Então estamos perto, eu estou no edifício que fica ao lado.

Fiquei a olhá-lo, sem dizer nada, mas ele continuou, falou-me dos pais, que estiveram cá de férias, e se apaixonaram pelo clima de tal forma que voltaram todos os anos. E como ele tinha curiosidade em conhecer um pouco mais sobre o país, voltou na primeira oportunidade.

Disse que aprendeu português desde pequeno, e que os pais compraram ali uma casa para quando se reformassem. Falou-me das sua casa em Positano, junto à costa. O seu pai tinha uma empresa relacionada com a pesca, acho eu, não me recordo bem.
Se o pai fosse historiador e trabalha-se num museu, acho que não me esquecia. Ainda hoje me assombra, lembrar-me de coisas irrelevantes, mas que adoro e esquecer outras que podem ser muito importantes.  Tu dizes que tenho memoria selectiva, pode ser. Eu gosto de pensar, que não me recordo porque não quero ocupar a minha cabeça com coisas que não me interessam.

 Só vi as horas quando a campainha da escola deu o sinal do fim das aulas. Apanhei o livro e tentei apanhar o bloco mas ele agarrou-o primeiro.

- Posso ver-te amanhã?!

Apenas acenei com a cabeça e mal ele me deu o bloco saí dali rapidamente. Pela primeira vez em muitos anos, cheguei a casa sorrindo e cantando. Mas não uma música qualquer, era uma música italiana. Era uma que passava na radio naquela época, Gianni Morandi - Non son degno di te, acho que para vocês, é um clássico.
Não sabia o que a maior parte da letra queria dizer, mas não me importava, eu gostava da forma como soava, do que me fazia sentir. Essa foi a primeira noite que adormeci sem pensar no Luís.

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