AS COISAS QUE NUNCA TE CONTEI 10ª PARTE



Grávida! Ainda não estou em mim, que dirá ele?! Nunca falámos sobre filhos. E se ele não quiser ser pai?! Terei coragem de interromper a gravidez?! Não, sei que não. Durante muitos anos desejei um filho dele, não para satisfazer o desejo da maternidade, mas para ter um filho do homem que amo. Quando Alexi nasceu colmatou, ainda que apenas em parte, esse desejo, e não pensei mais nisso, mas agora que é real, estou assustada, sinto-me sem rumo novamente. A minha filha tem razão, vivi toda a vida sem, de facto a viver, fiz tudo o que os demais achavam que devia de fazer, está na hora de começar a fazer o que quero. Sei que vou ser motivo de conversa durante meses na vizinhança, mas isso já não me importa. E se Luca não quer ser pai, problema dele, eu quero este filho! Mesmo que isso significa ficar...

- Mãe?! Mãe?! Estás bem?!
- Sim.
- Estou a chamar-te à séculos, chegámos.
- Já?!
- Mãe?
- Diz.
- Vai correr tudo bem.
- Eu sei...

Aceitei a mão dela e subimos. Sabia que independentemente de tudo, com a minha filha podia contar, e para sempre.
As vozes animadas de Luca e Manu ouviam-se à entrada.

- Não, tens de juntar no fim. Se adicionas agora vai ferver demais e fica sem aroma.
- Aroma... Já percebi.
- Percebes?!Isso seria uma novidade. Luca, não sei se farás do meu marido um bom cozinheiro.
- É massa amor, é só colocar água e sal. Fica igualzinha à minha.
- Sim, já vamos ver se fica igual. Preciso que vejas uma coisa.
- Vamos nessa linda.  Luca, terás de te desenrascar sem mim.

Hoje nem as piadinhas de Manu me alegravam. Luca olhava para mim, com um meio sorriso. Teria coragem, se fosse preciso enfrentá-lo, de dizer-lhe que já tinha decidido, independentemente do que ele quisesse?

- Não sei que pensar desse silêncio, e dessa expressão. Está tudo bem?
- Podes sentar-te aqui um pouco?
- Não estou a gostar disto.

Aguardei que se junta-se a mim. Entrelacei os dedos, e esfreguei as minhas pernas, nervosa, olhei-o nos olhos.

- O que pensas de crianças?
- Crianças?!
- Sim, bebés.
- Estás assim por causa do bebé da Alexi? Cara mia, vou adorar ajudar a...
- Falo do nosso.
- Nosso?! Nada me faria mais feliz, mas não vamos um pouco tarde para isso?
- Segundo o médico não.
- Não?! Queres dizer que...
- Estou grávida.
- Estás?! Oh Dio... un bambino...

Luca agarrou-me e beijou-me a cara, a boca, o pescoço as mãos. Para no fim me abraçar e sussurrar bem junto à minha boca antes de me beijar.

- Il nostro bambino...

Com a gravidez,  Luca revelou ser muito mais que o homem que eu imaginei. Carinhoso em todos os momentos, sempre pendente do mais pequeno desejo. Antevendo que com o avanço da gravidez, ficava impossibilitada de viajar, confirmou a situação com o médico e assim que teve autorização, cuidou das passagens para Itália, e assegurou-se que a casa estava pronta para nos receber. Com a ajuda de Aline, a casa estava recheada com tudo o que era preciso, assim como um quarto vazio com imensos catálogos com tudo o necessário para o bebé. Restava-me escolher. Aline tornou-se uma cunhada presente, e excelente companhia durante as breves ausências de Luca.  Alguns meses depois, Alexi e Manu mudavam-se para Positano, e começavam a trabalhar com Luca na empresa. Luca, cedeu-lhes um terreno e a casa deles estava em construção, entretanto estavam a viver connosco. Ele tratou de tudo com a ajuda de Gino, durante dias lembrei-me da nossa primeira conversa, sim, ele cuidava de Alexi como se fosse filha dele. A cumplicidade entre eles crescia dia a dia.  E isso ficou provado mais uma vez, nessa primavera.

- Mãe, o Luca gosta de surpresas?
- Acho que sim, tu passas imenso tempo com ele, porque não tentas saber?!
- Ontem disse ao meu chato de serviço, que Luca merecia um mimo, tem sido um querido, e teve uma trabalheira danada para nos acolher. Pensei em falar com o dono do restaurante, aquele que ele gosta tanto e fazer-lhe uma festa surpresa. Como agradecimento. Que dizes?
- Com Luigi, sim, acho boa ideia.
- Então do que te ris?!
- Nada, Luca nem sabe no que se meteu.
- Ele habitua-se. Sabes, pensei que ao trabalhar para ele, íamos fazer fricção. Mas não, ele apenas dá a ordem, a forma em como ela é realizada é-lhe indiferente. Mas se a tarefa fica mal feita, bem, prepara-te! Ele é dose! Manu diz que nunca viu uma pessoa ser assim, exigente, mas sem ser controlador. Ele parece colocar paixão em tudo o que faz.
- É italiano. E tu?! Não achas melhor parar? Falta menos de um mês.
- Eu sei, e sinto-me perfeitamente. Não te preocupes, já me chega Luca, estar sempre a perguntar se quero ficar em casa.
- Ele gosta de ti, apenas isso.
- E eu dele, por isso a festa. Vamos falar com Luigi agora?
- Agora?! Mas a esta hora deve de ter imensa gente, é quase hora de jantar.
- Por isso, Manu diz que hoje vêem mais tarde, temos de aproveitar.
- Muito bem, vamos lá então.

O restaurante estava praticamente vazio, Luigi, estava à entrada como sempre, sorrindo, pronto a receber os clientes. Dirigiu-se a nós quando nos viu, e acompanhou-nos até a uma mesa. Estavam apenas dois casais numa mesa.

- Desculpa mãe, tenho de ir à casa de banho. Bolas... acho que não me aguento!
- Vai lá.
- Ri-te, lá chegarás.
- Já passei por isso lembras-te?!

Uma das mulheres começou a cantar, Guarda che luna, tinha uma voz fabulosa, fiquei extasiada a ouvi-la.  Ainda não tinha terminado a canção, quando foi interrompida por um dos amigos, que começou a cantar Senza te morirei.  Começaram a bater com as mãos na mesa fazendo o ritmo e um a um os restantes membros da mesa, juntaram-se a ele. Rendi-me completamente à melodia, dei um salto quando senti uma mão no meu ombro. Voltei-me esperando ver a minha filha, mas quem estava ali era Luca, com um ramo de rosas na mão.
Aí percebi, tinha sido arrastada mais uma vez...

- Como diz a canção, senza te morirei. Espero que acredites, pois é assim que me sinto, sem ti sei que morrerei, talvez não fisicamente, mas é igual, pois uma vida sem ti a meu lado não tem sentido. Já não somos uns adolescentes, mas quando te tenho nos meus braços, é assim que me sinto. E quando fecho os olhos vejo aquela menina de cabelo ondulando ao sabor do vento rindo para mim, mia dolce Cris. Quero acordar todos os dias a teu lado, espero que faças de mim um homem ainda mais feliz e aceites casar comigo.

Uma das lágrimas, que brilhavam nos meus olhos, deslizou pela minha face. Morrendo nos meus lábios trémulos.

- Sim.
- Sim... - Luca beijou-me e estreitou-me, o mais perto possível que a barriga deixava -  Valeu a pena esperar estes anos todos. Ti amo.

Dois meses depois casávamos na igreja de Santa Maria Assunta, uma cerimonia apenas para a família. Aline organizou uma recepção simples, mas muito bonita. Nos meses seguintes ajudou-me a escolher e preparar o quarto do bebé.
No inicio de Julho, nascia o meu neto, Lucas Miguel. Luca ficou sensibilizado com a escolha do nome. Embora Luca insistisse para baptizarem o pequeno Lucas, eles preferiram esperar pelo nascimento do irmão. E em pleno mês de Agosto nascia mais um bebé, desta vez uma menina, Paola Cristina.


DIA ?! - Perdi a noção aos dias, pois quando se é feliz a quantidade não importa, e afinal tens várias anotações ao longo deste diário especial. Cada uma delas representa uma passada tua, uma etapa vencida.
Agora, olhando para ti, caminhando ao lado do teu pai, vejo que a vida não podia ter sido mais generosa comigo. Tive o privilégio de amar e ser amada por esse ser maravilhoso, que é o teu pai. Para que terminasse os meus dias em felicidade plena, fomos agraciados com a tua vinda. Tardia?! Talvez, mas como diz o teu pai, que importa se te amo?!  Se me preocupo?! Claro, não seria uma verdadeira mãe se assim não fosse, tens dez anos, toda uma vida pela frente, quando nós já passámos os sessenta. Por quantos anos mais te vamos acompanhar?! Isso, só Deus sabe. Mas fico feliz em saber que quando esse dia chegar, continuarás a ter quem te ame, tanto, como nós te amamos. Até lá, penso continuar a ser feliz ao lado das pessoas que mais amo.




FIM



Comentários

  1. Adorei a história, está muito bem elaborada. Continua assim com muita imaginação para escreveres mais para nós nos deliciarmos a ler. Beijinhos e parabéns.

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    1. Obrigada Pocahontas. Eu adoro escrever, e ainda bem que posso dar um pedacinho de felicidade a quem lê. Beijinhos linda

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