TUDO O QUE FICOU 1ª PARTE
Isabelle aconchegou a roupa da cama ao corpo do pequeno ser que dormia serenamente. Despiu o casaco e sentou-se no sofá do seu pequeno apartamento, estava a ler uma revista quando a sua atenção foi direccionada para o telemovel. Reconheceu o número, era Matheus, seu amigo de longa data.
- Olá, a que devo esta honra? - Isabelle esperava à meses que ele tivesse tempo para um café.
- Olá.
- Hum, não gosto dessa voz arrastada. - Conheciam-se à demasiado tempo, era impossível esconder algo um do outro. - Está tudo bem?
- Sinto muito ser portador de tal notícia...
- Matheus, diz de uma vez. - Matheus ficava sempre nervoso quando tinha de dar más notícias, o que contrastava com a profissão que exercia, advocacia. - Esta espera, mesmo que momentânea, não ajuda a acalmar os nervos de ninguém.
- A tua madrinha faleceu. - Matheus foi directo, como sempre nestas ocasiões. - Sinto muito.
Um enorme silêncio instaurou-se na linha. Isabelle não sabia que dizer, sabia que a madrinha estava débil, mas atribuía esse facto à idade, nunca pensou que estivesse tão mal.
- Mas como aconteceu? Não sabia que estava doente, não a esse ponto. - Isabelle sentia as lágrimas silenciosas deslizarem pela cara.
- Faleceu durante o sono.
- Como durante o sono?! A noite está a começar agora!
- Nestes últimos meses deitava-se um pouco durante a tarde, conselhos do médico.
- Disseste que ela não estava doente! Que eram pequenas situações isoladas.- Isabelle culpava-se por não estar ao lado dela. - Nunca devia de ter...
- Não te podes culpar. Ela escondeu de todos o estado da sua saúde, apenas o médico sabia. Tu sabes tão bem como eu que ela não queria que sentissem pena dela.
- Sim, mas...
- Olha, dá-me uma hora e estou aí. Jantamos, vejo o meu afilhado e falamos com mais calma. Pode ser?!
- Sim. Claro.
- Isi?!
- Sim?
- Tudo vai correr bem.
Isabelle não respondeu, desligou o telemóvel e ficou a olhar as luzes que começavam a acender-se pela cidade. Uma estrela brilhou mais forte, lembrou a madrinha, ela dizia que cada estrela no céu representava um ser querido que cuida de nós lá no alto, uma lágrima mais grossa deu lugar a uma cascata delas.
Lembrava-se do dia em que, aos dez anos, a deixaram em casa de Isabelle Monty.
Vestia um vestido branco com um laço azul. O cabelo apanhado num rabo de cavalo, deixavam a descoberto os seus olhos assustados. Tremia imenso, tudo o que ela tinha e conhecia, simplesmente desapareceu.
Mesmo com a pouca idade que tinha não costumava mostrar qualquer sinal de fraqueza, enfrentava as situações de cabeça erguida. Foi assim quando entrou para a escola e se riam dela por usar óculos e gostar de ler. E assim seria agora.
A vida, embora ainda curta, tinha sido dura, criada pela avó, pois a sua mãe não resistiu ao parto e o seu pai abandonara-as quando soube da sua chegada. A avó era tudo o que tinha, a pessoa que a esperava todas as tardes quando regressava da escola, aquela que lhe contava histórias nas noites de inverno, aquela que, depois de uma semana de trabalho em casa de um ministro, lhe trazia um chocolate quando chegava a sexta feira, que lhe curava os joelhos ensanguentados e aquela que de repente não estava mais.
Viu-se entregue a uma desconhecida, porque embora noutros tempos fosse amiga da sua mãe, para ela era uma desconhecida. Com o passar dos anos percebeu que a madrinha, embora a tomassem por uma aristocrata fria e impiedosa, tinha um coração enorme. Não era dada a demonstrações públicas de carinho mas tratou-a sempre como uma filha. Deu-lhe uma boa educação, colocando-a nas melhores escolas e nunca lhe faltou nada, mas assegurou-se que ela sabia que o dinheiro tinha de ser merecido. A madrinha acreditava que se as crianças têm tudo o que querem, sem se sacrificarem, nunca seriam pessoas de valor. Por isso, cada coisa que ela pedia tinha um custo, que incluía cuidar dos filhos de um amigo, passear os cães, ajudar a fazer as compras... Tarefas que foram aumentado de responsabilidade com a idade, nos últimos anos era a responsável pelo acolhimento dos imensos amigos que recebiam no palacete assim como das ementas servidas. Chegando a acompanhar alguns desses amigos nos passeios pela cidade. Foi assim que conheceu Philippe, Philippe Durant, o seu primeiro amor...
Negou-se a pensar nele.
Vestiu algo mais confortável e começou a fazer algo para o jantar. Matheus não tardaria.
Matheus chegou uma hora mais tarde, como tinha prometido e embora ela gostasse da companhia dele, não conseguia deixar de pensar no possível reencontro com Phillipe, a hipótese de voltar a vê-lo mexia com ela.
- Isi! Isi, tens de te concentrar. - Matheus tentava ter a atenção dela - Como advogado dela tenho de tratar de tudo o que lhe diga respeito. Mas dadas as circunstâncias- Matheus fez uma pausa - Por causa de Leonard...
- Não estou a perceber.
- Tens de estar preparada, não para enfrentares esta provação, bem, também para isto - Matheus fez um estalido com a língua - Sabes que fico nervoso com estas situações, mas refiro-me à situação que deixas-te atrás à quase dois anos. - Voltou a fazer nova pausa - Sei que decidiste não falar nele mas tens de pensar seriamente na possibilidade de ele descobrir sobre Leo. Duvido que ele falte ao funeral.
- Eu sei, mas se vier dificilmente me verá no meio de tanta gente.
Isabelle sabia que ele tinha razão. Philippe Durant era o pai do seu filho. Ele era a razão de estar a morar num minúsculo apartamento e continuar num emprego que detestava mas que colocava comida na mesa. Tinha plena consciência que a sua vida iria mudar. Se Philippe viesse ao funeral, ela tinha muita coisa que explicar. Uma ideia surgiu na sua mente, talvez não tivesse de explicar nada, não tinha porque levar Leo, podia deixá-lo com a ama. Philippe não tinha porque saber que ela dera à luz um filho dele. Sim, era isso que iria fazer, deixaria Leo com a ama.
- Ainda estás aí?
- Desculpa, sim estou. -Isi perdia-se sempre que se falava em Philippe. - Estamos a preocupar-nos antecipadamente. Possivelmente nem se lembrará de mim.
- E se ele se lembrar?
- Não importa. Não vou levar Leo.
- Vais continuar a esconder-lho?
- Claro que sim! Sabes que não tenho alternativa.
- Não te estou a julgar, sabes que te apoiei e continuarei a apoiar.
- Mas?! - Isi sabia que vinha aí um mas.
- Mas não podes esconde-lo para sempre. E deixa que te diga, ainda bem que não aceitas-te a minha ideia maluca de me aceitares como pai de Leo! Ninguém iria acreditar.
Isabelle compreendia o que ele estava a dizer. Se Philippe visse o filho não tinha como negar que era dele, as semelhanças eram visíveis. O cabelo negro, os olhos de um verde mel, até o pequeno nariz já se assemelhava...
- E tens de pensar nas condições que ela impôs para a herança!
- E porque tenho de pensar nelas ?!
- Porque és a sua maior beneficiária.
- Eu?! - Isabelle não queria acreditar. - Não. Deve de ser engano, ela tem família. Uns primos.
- Afastados sim. E todos são lembrados no testamento mas o palacete é para ti assim como uma boa quantia em dinheiro. O suficiente para viveres bem para o resto da vida. Mas apenas se cumprires o que está estipulado por ela.
Isabelle sabia que era típico da madrinha, se alguém queria algo tinha de se esforçar por merecer! A herança não era excepção!
Depois de Matheus partir ficou a pensar naquilo. A madrinha deixara-lhe o palacete e o suficiente para viver. Podia viver confortavelmente, de preferência bem longe dali, onde Philippe não a podia encontrar. E podia livrar-se daquele emprego que detestava, não o emprego em si, era secretária num escritório de contabilidade, mas o patrão, um homem rude e mulherengo que olhava para ela com olhos cheios de luxuria, o que a deixava desconfortável. Matheus tentou arranjar algo melhor remunerado mas sem sucesso, pois quando sabiam do estado dela inventavam desculpas. Percebeu que a maioria das empresas não contratava mulheres grávidas. Estava quase a render-se quando surgiu aquela oportunidade, começava muito cedo e o ordenado era baixo, mas era o suficiente para viver modestamente, não podia ser picuinhas, nem viver no apartamento de Matheus para sempre. Também não podia dar-se ao luxo de escolher outro emprego, se fosse trabalhar de acordo com as suas aptidões, Philippe não tardaria a encontrá-la. Ali não lhe pediram grandes referências, nem fizeram perguntas quando usou o segundo nome, nem porque preferia receber o ordenado em dinheiro. Quando assinou contrato o patrão fora muito compreensivo com a sua situação e parecia bastante simpático. Era apenas temporário, pensava esconder-se apenas até ao nascimento de Leo, mas assim que viu o filho soube, qualquer pessoa que conhecesse Philippe saberia que o filho era dele. Não podia regressar para junto da madrinha como tinha planeado.
Juntamente com Matheus tinha elaborado a mentira para quando regressa-se, tinha-se apaixonado por um amigo da faculdade e as coisas aconteceram, não se orgulhava do que tinha feito e tinha mais vergonha porque ele a tinha abandonado, como o seu pai com a sua mãe. Por isso escondeu-se na casa de Matheus, tinha vergonha de enfrentar a madrinha, que tinha sido tão boa para ela. Mas com as semelhanças tão notórias de Leo com Philippe não tinha como ocultar o óbvio. Que diria ela?! Compreenderia?! Ou daria mais valor ao estatuto social?! O que a levava a outra questão, que aconteceria à amizade que a madrinha tinha com o pai de Philippe?! Provavelmente este pensaria que ela tinha engravidado para "caçar" um marido rico. Mesmo que a madrinha não partisse em sua defesa, coisa que duvidava, isso abalaria a amizade entre eles. Ela não podia permitir isso, a mentira envolvia demasiadas pessoas.
Não lhe importava o que os demais pensavam dela, a opinião deles era-lhe indiferente, mas a opinião da madrinha...
Apenas Matheus sabia o quanto ela amava Philippe, o quanto sofreu nesses dias. Matheus ofereceu o seu ombro e o seu apartamento durante o tempo que fosse necessário. Mas viu-se forçada a sair quando Philippe ligou para o apartamento e ela atendeu. Felizmente estava a comer e ele falou primeiro, não podia ficar ali. Esse dia foi o recomeço da vida que tinha deixado à oito anos atrás, uma vida onde estava sozinha e onde apenas podia contar com ela própria .

Que linda história!! Adorei.. beijinho <3
ResponderEliminarInspiring
Obrigada linda. Beijinhos
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