TUDO O QUE FICOU 7ª PARTE
Isi desligou o telemóvel depois de falar com a ama de Leo. O pai desta teve um pequeno acidente e estava no hospital. Como tal não podia cuidar de Leo e ia deixa-lo no palacete. Foi arrumar a cama para deitar o filho, com dez meses ainda passava a maior parte do tempo a dormir. Esperou por eles no jardim da entrada e depois de desejar as melhoras, entrou com o filho em casa. Por muito que tentasse esquecer Philippe o seu filho estava ali para lho recordar, os traços fortes do pai estavam bem visíveis. Deitou o filho na enorme cama e deitou-se ao lado. Depositou um beijo na cabeça dele enquanto lágrimas caíram sob a almofada. Era tão parecido com Philippe... Um barulho no jardim atraiu a sua atenção, espreitou pela janela e viu Matheus carregando uns sacos seguido de um cão que ladrava ao mesmo tempo que tentava alcançar um dos sacos.
- Agora adoptas animais abandonados? - Isi tentava controlar o riso.
- Importas-te?! - Matheus estendeu-lhe uns sacos com roupas e fraldas de Leo -Nunca mais compro frango assado numa churrasqueira.
- Entra antes que ele te ataque.
- Ainda bem que alguém encontra a situação divertida.
- Tens de concordar que tem uma certa piada.
- Para a próxima deixo-te morrer à fome.
- É para mim?! Que querido.
- Agora sou querido. E não é para ti, é para nós. Já que vim até aqui acho de muito mau tom não me convidares a almoçar.
- Tens toda a razão. - Isi agarrou-lhe a mão - Obrigada por trazeres as coisas de Leo.
Decidida a esquecer a discussão com Philippe, passaram o tempo a falar sobre as mudanças na casa. E no que pensava fazer dali para a frente.
- Acho que além dos jardineiros, devias de arranjar alguém para te ajudar em casa.
- Não vejo porquê, estou sozinha. Quando começar a trabalhar vou contratar alguém. Até lá não vejo necessidade. E tenho de pensar, que apesar de Isabelle me deixar dinheiro, ele não dura para sempre.
- Com o lucro dos hotéis é mais que suficiente para pagares a alguém.
- Do que estás a falar?
- Mas onde estavas tu quando... - Matheus estalou a língua - É verdade, saíste a meio da leitura do testamento, Isabelle certificou-se que receberias uma mensalidade, o suficiente para não passares dificuldades.
- Esqueci-me completamente dos hotéis.
- Agora tens possibilidades de comprar o espaço que querias.
- O valor dá para isso?!
- Podes falar com os herdeiros e pedir para receberes um valor adiantado.
- Sim, vou pensar nisso.
- Não te perguntei. Como te sentiste ao voltares a encontrar Philippe?
- Sinceramente?! - Matheus mexeu o garfo no ar em sinal de resposta - Uma mistura de sentimentos, pensei que quando o dia chegasse iria sentir apenas ódio por tudo o que me fez, mas não.
- Ou seja, apesar de tudo ainda o amas.
- Infelizmente. Queria que me abraça-se, que dissesse que não se tinha casado.
- Pode estar divorciado. Queres que lho pergunte ?
- Não! Que ideia louca!
- Ora, não mais louca que a tua de lhe dizeres que o amavas quando ainda andavas de fraldas.
- Seu... - Isi atirou-lhe o pano da cozinha à cara - Tinha 18 anos - Isi olhou para ele quando disse a idade - Que sorriso é esse?
- Agora estou convencido, cresceste. Naquele tempo dizias: Tenho 18, quase 19 anos! Ah! E enchias o peito como um pavão emproado.
- Eu cresci, mas parece que tu não. - Isi fez uma careta - Ainda hoje me pergunto como ficaste advogado de Isabelle.
- Sorte cara amiga, sorte.
Matheus deixou a casa ao fim do dia. Depois de dar banho a Leo encheu a banheira e meteu-se lá dentro sentindo os músculos relaxarem em contacto com a água quente. Fechou os olhos e deixou que o calor reconfortante a levasse para longe.
- Como acabas apaixonada por um francês quando detestas francês?!
- O destino tem destas coisas.
- O que me deixa incrédulo é que andas com ele à quase dois meses e eu não sei de nada. Pensei que o tinhas esquecido - Matheus sentou-se na cama dela - E dizes que és minha amiga.
- Não sabia como dizer-te, sei que achas mal por ele ser mais velho, mas tenho de falar com alguém.
- Quem sou eu para achar mal ou bem ?! Ainda não me esqueci que não me voltaste costas quando soubeste de Hector.
- Desculpa. Queria contar-te mas Philippe pediu para esperar, ele quer falar primeiro com Isabelle.
- Hum. Parece-me bem. Oficializar a situação. - Matheus apanhou um envelope da sua pasta. - Já que estamos com boas notícias...
- Que é?!
- Sabes que estou a terminar os estudos. Recebi esse convite. Estou tentado a aceitar.
- Mas é dos escritórios dos advogados de Isabelle! - Isi lia a carta rapidamente - Parabéns!
- Obrigada, se aceitar não vou ter tempo para as nossas saídas.
- Depois vens visitar-me. E vou telefonar para te contar como vão as coisas com Philippe.
- Ele faz-te feliz?!
- Muito. Tanto que acho que vou morrer de felicidade.
- Isso é o importante.
Isi contentava-se com os encontros fortuitos entre as viagens de Philippe, vivia para aqueles momentos. Ainda que discretamente aproveitavam todos os momentos para estarem juntos e quando Isabelle saía, ela deitava a cabeça no colo dele e ficavam a ver televisão ou a falar dos planos dela para o futuro. E foi numa dessas noites que tudo aconteceu.
- Estás muito calado. Está tudo bem?
- Dentro de dois dias tenho de voltar para casa.
O seu coração gelou ao saber da nova viagem dele, regressara à tão pouco tempo. Tentou não demonstrar o muito que lhe custava separar-se dele.
- Vais demorar a voltar?
- Uns dois meses.
- Vais ter saudades minhas?!
- Si tu le savais...
- Pois...seja o que for que isso quer dizer. Eu sei que vou ter. - Isi beijou-lhe o canto da boca - Dois meses... Tanto tempo.
- Ma petite Isi...
- Inventamos uma desculpa qualquer e... - Isi calou-se ao ver o sorriso forçado dele - O que foi?
- Não tarda fazes 19 anos.
- E?!
- Não vou estar cá. Podes encontrar alguém da tua idade.
- Não quero mais ninguém! - Isi sentiu-se ofendida - Porque dizes essas coisas?
- Quand je suis prêt de toi, se me suit inutile.
- Importas-te de não falar em francês?! Não entendo praticamente nada do que dizes.
- Desculpa, faço-o inconscientemente, principalmente se estou sobre pressão.
- E quem te pressiona?! Eu?!
- No ma petite... - Philippe beijo-a brevemente e levantou-se - Acho que esta noite não sou boa companhia.
Philippe subiu deixando-a no sofá sozinha, tinha a sensação que algo o incomodava mas não partilhava o motivo com ela, perdeu-se em suposições sobre o assunto e ainda ali estava quando Isabelle regressou do bingo.
- Ainda acordada?! Está tudo bem?
- Sim, acho que me deixei dormir a ver televisão.
- Então é melhor subires. É muito tarde.
- Sim, é melhor.
- Eu também subo. - Isabelle enfiou a mão no braço dela - Hoje estou com uma dor de cabeça terrível Rose estava...
Deixou de ouvir o relato que a madrinha fazia da sua noite, além da sua preocupação com o que inquietava Philippe, ainda tinha de lutar contra a tristeza que a invadia com a nova partida e com as saudades que eram cada vez maiores, o tempo que passava com ele não lhe bastava, queria mais, muito mais. Não podia continuar assim, tinha... A madrinha retirou a mão do seu braço.
- Estás mesmo cansada. - Isabelle beijou-lhe a face - Bem, vou tomar um comprimido e dormir.
- Que descanses.
Isi esperou até Isabelle entrar no seu quarto e foi para o dela. Deitou-se e ficou a olhar a lua que brilhava no céu estrelado. Algum tempo depois levantou-se rapidamente. Vestiu o roupão e saiu, não ia esperar mais. Fechou a porta do quarto, o suave clic da fechadura ouviu-se levemente. Instantes depois entrava no quarto de Philippe, amava-o e queria que ele soubesse disso. Esta noite ia provar o muito que o amava. Aproximou-se da cama, pela luz da lua que entrava pela janela podia ver que ele dormia. Tirou o roupão deixando a descoberto a roupa interior de seda preta. Philippe acordou quando ela se sentou na cama.
- Isi!
- Não me peças para voltar para o meu quarto.
- Mas devias.
- Por favor, deixa-me ficar.
- Ma petite... sabes o que me pedes?
- Disseste que me querias...
Ao ouvir a voz trémula dela Philippe saiu da cama e abraçou-a.Quando sentiu os braços dele sobre a sua pele nua estremeceu, olhou-a nos olhos e beijou-a ternamente.
- Isto é uma loucura. - Philippe agarrou a cara dela entre as mãos. - Se ficas não...
- Amo-te.
Philippe pegou-a ao colo e depositou-a delicadamente sobre a cama. Voltou a olhá-la nos olhos antes de começar a beijar o seu corpo enquanto lhe retirava o soutien. Isi fechou os olhos e entregou-se a todas aquelas sensações que até agora eram desconhecidas para ela. Quando ele acariciou a parte interior das suas pernas sentiu um calor no seu interior tão forte que pensou que ia desmaiar. Involuntariamente, arqueou o corpo, como se ele reconhece-se o toque de Philippe e assim lhe desse as boas vindas, parecia que ela era a única que não sabia bem que fazer.
De olhos fechados parecia sentir melhor as caricias dele, sentiu as mãos deslizarem pelas suas pernas até chegarem ás cuecas e retirá-las. Por uns segundos teve medo, mas esqueceu esse receio quando ele voltou a beijá-la. Sentiu o peso do corpo dele sobre o seu e com a perna afastou as dela. Não estava preparada para a dor que sentiu e encolheu-se, o que fez com que Philippe parasse automaticamente e ficasse a olhá-la admirado.
- Ce n`est pas possible!
Isi pensou que ele não ia perceber que era virgem e ao ver a surpresa nos olhos dele, por momentos temeu que ele a deixa-se só, mas ele beijou-a com mais carinho que anteriormente e com o olhar fixo na dela retomou os movimentos até a levar ao êxtase. Enquanto repousava nos braços dele sentia-se completa, mas ao mesmo tempo queria voltar a sentir todas aquelas sensações. Nunca foi tão feliz, enquanto estivesse com ele tudo seria perfeito. Isso lembrou-a que ele partiria dentro de dois dias, uma lágrima caiu involuntária no peito dele.
- Pourquoi?!
- Desculpa?!
- Porque não me disseste?
- Faria alguma diferença?! - O coração dela encolheu-se.
- Apenas que teria mais cuidado. - Philippe beijou-a brevemente - Nada mais.
- Então não importa. - Ela colocou os braços no pescoço dele impedindo que se afasta-se. - Não é?!
- Se não me soltas - Com o braço colocou-a debaixo do seu corpo - corres sérios riscos de repetir o que acabamos de fazer.
- Isso é uma promessa?!
Quando, nessa madrugada, abandonou o quarto de Philippe este dormia. Voltou para o seu quarto sentindo-se a mulher mais feliz do mundo. Estava tão feliz que não conseguiu voltar a adormecer, a sua mente revia cada caricia, cada beijo, sorriu como uma adolescente idiota ao recordar como ele a colocou em cima dele e a abraçou mantendo os corpos colados na segunda vez que fizeram amor.
Estava tão feliz que não conseguia estar deitada, agarrou na sua agenda e foi para o seu cantinho, a sala que ela tinha decorado a seu gosto para trabalhar, era a sala mais pequena do palacete, mas ela adorava-a, quer pelo sol que entrava pela janela enorme que dava para o jardim traseiro, quer pela lareira que acendia mal o frio se fazia sentir. Sentou-se no sofá e começou a elaborar ementas, escolher cores para as toalhas... Instantes depois tinha o sofá completamente cheio de livros e papéis.
- Pensei que tinhas fugido. - Philippe observava-a da porta - Imaginei acordar a teu lado.
- Estou na minha casa, para onde fugia?!
- Tens razão. Aqui o intruso sou eu. - Philippe olhou para trás e juntou-se a ela - Senti a tua falta.
- Isabelle... - Ele calou-a com um beijo - Ela pode descer.
- Ainda dorme - Voltou a beijá-la - Quero passar esta noite contigo.
- Eu também.
Tinha passado quase dois meses e não tinha notícias de Philippe, ela sentia-se com dores de barriga e com algumas tonturas. Pensava que era porque sentia falta dele e a cada dia que passava ficava mais apreensiva. Durante um jantar com Matheus desmaiou. Acordou com Matheus e uma médica a olhá-la seriamente. Foi nesse dia que soube que estava grávida. Sentia-se eufórica por ter um filho dele e ao mesmo tempo apreensiva com a ausência de notícias dele.
Uma semana e dois meses depois da partida de Philippe, confrontou a madrinha.
- Isabelle, Philippe não vem por estes dias?! Tinha anotado na agenda mas não encontro.
- Agora que falas nisso... Sim, era para vir.
- Não pode estar em algum hotel?
- Ele?! - Isabelle sorriu - Ele sempre detestou hotéis. Evita-os a todo o custo. Ai, esta cabeça minha. Deve de estar ocupado com o casamento. Nunca mais me lembrei.
- Casamento?!
Isi sentiu que o seu mundo ruía, estava grávida de um homem que ia casar com outra. Como pode ser tão idiota? Ouviu dizer que os homens são capazes de tudo para levar uma mulher para a cama, sempre achou isso um exagero, mas agora ela era a prova viva disso. Que seria dela e do filho que carregava no ventre?
- Vai casar dia... - Isabelle começou a procurar algo nas gavetas - Onde é que coloquei o convite?!
- Não sabia.
- Porque haverias de saber? - Isabelle olhou desconfiada para ela -Não me digas que querias organizar o casamento dele?
- Era uma coisa que gostava. - Isi tentou mostrar-se indiferente - Terei outra oportunidade.
- Claro, ainda és nova. Quando fores uma organizadora de renome, porque o serás, terás imensos casamentos para organizar. Aqui está. - Abriu o envelope - Ora bem... amanhã. Casa amanhã.
Isabelle acabou por contar-lhe que Philippe estava noivo à alguns anos, mas por negócios sempre foi adiando o casamento. Isi não quis ouvir mais nada, inventou uma desculpa sobre estudar e subiu. Nessa tarde colocou umas roupas numa mochila e depois de escrever uma carta à madrinha saiu de casa.

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