TUDO O QUE FICOU 10ª PARTE




- Não... - As palavras saiam entre beijos - Temos... Não...
- Não digas nada.

Isi sentia as mãos dele lutarem com a sua camisola com a mesma urgência que a sua boca procurava a dela.  Ela sabia que aquilo não estava certo. E no mínimo não era justo para com a esposa dele, nem para ela. Lutando contra o desejo que lhe pedia que se entrega-se, separou as duas bocas com uma mão.

- Por favor, não faças isto. - Isi olhava para ele com olhos suplicantes - Não é justo.
- Não?! - Ele parou mas não a soltou - Sei que ainda sentes algo por mim.
- Sim, seria estúpido negá-lo, mas a vida mudou. Não sou mais aquela adolescente apaixonada.
- Não?! Pois finges muito bem. - Philippe parecia aborrecido - Nunca pensaste no que...

O toque da campainha interrompeu a pergunta dele.

- Tenho de ir abrir. - Isi olhou para a mão que ele mantinha firmemente agarrada - Por favor.

Philippe soltou a mão dela com alguma relutância ao ouvir o terceiro toque da campainha. Era Matheus, ainda parecia um pouco aborrecido.

- Eu disse não foi?! - Matheus forçou um sorriso.
- Sim. Sinto-me uma idiota. -Isi olhou na direcção da cozinha - Não devia de ter descarregado em ti.
- Não, não devias. Mas sou teu amigo e se um amigo não perdoa o outro que espécie de amigo é?!
- Também é verdade.-  Ela abraçou o amigo carinhosamente - Mais uma vez desculpa, não merecias.
- Esquece isso, é preciso muito mais para me afastar de ti.

Philippe tossiu chamando a atenção deles.

- Philippe! - Matheus estendeu-lhe a mão visivelmente admirado - Como vai?!
- Matheus. - Philippe aceitou a mão que Matheus lhe estendia - Amanhã volto para ver Leonard.

Sem lhe dirigir uma palavra saiu, ficaram os dois em silêncio a olhar o espaço vazio como se tivessem visto um fantasma.

- Por esta eu não esperava. - Matheus rompeu o silêncio - Pensei que estivesses sozinha. - Olhou para ela fixamente - Oh não! Não acredito!
- Não acreditas no quê?
- Vocês estavam...?!
- Não!
- Claro que não. - Matheus piscou o olho - Por isso demoraste a abrir a porta. Agora percebo.
- Não sejas tão precipitado. Simplesmente ficou para almoçar.
- Almoçar. Sim, sei.
- Caso tenhas esquecido ele é casado.
- Sim, mas longe de casa. A carne é fraca e tu mesma disseste que ainda o amas. Basta observar as evidências.
- Quais evidências?! Não sabia que além de advogado eras detective.
- Passo a enumerar: Demoraste a abrir a porta, tens aquele brilho nos olhos, os teus lábios estão vermelhos e ligeiramente inchados, ele não se juntou a nós quando cheguei. E não me parecia muito feliz por ter sido interrompido.
-  Foi apenas um beijo.
- Ahah! Sempre aconteceu algo!
- Como te disse, um beijo! Nada mais que isso.
- Porque eu cheguei! Sabe-se lá onde estariam se eu não tivesse interrompido.Temos de combinar um sinal qualquer para colocares na porta nestas situações. Ou na janela.
- És terrível!


Depois daquele beijo decidiu manter-se afastada dele. Aquelas situações tinham de terminar, ou acabaria por fazer algo que se iria arrepender depois. Ele queria fazer parte da vida do filho, e segundo Matheus tinha todo o direito a isso. Era pai dele e podia estar com ele sempre que quisesse, desde que não tenta-se tirar-lho! Como Philippe nunca fez menção a tal possibilidade, aceitou com mais calma a presença dele lá em casa e até sentia a casa vazia quando ele não estava .

Como se lesse os seus pensamentos, Philippe tornou-se presença constante no palacete, ficava quase todos os dias para almoçar e até jantar. Muitas vezes Isi esquecia que ele era casado e falava como se nunca se tivessem separado.  Antes de sair Philippe despedia-se dela com um beijo na face, depois de fechar a porta tocava o local com carinho e sorria. Apesar do sentimento de solidão que a assolava durante a noite, a certeza de o ver na manhã seguinte dava-lhe novo alento e acordava sempre animada.

- O tempo passa rápido. - Isi olhava para Philippe pelo espelho da casa de banho enquanto vestia o filho. -  Amanhã faz um ano.
- Amanhã?!
- Sim. Não te disse ?
- Não. - O olhar dele perdeu o brilho por momentos.
- Estava a pensar fazer um jantar para comemorar.
- Iguais aos que gostavas de organizar?

Os seus olhares encontraram-se no espelho e emocionou-se ao recordar aqueles enormes jantares que organizava para a madrinha.

- Não. -  A emoção era palpável na sua voz, baixou o olhar - Bem mais pequeno.

Sentiu a mão dele no seu ombro e estremeceu.

- As recordações são sempre dolorosas, até as mais doces.
- Não sabia que eras filósofo. - Isi tentou não pensar em Isabelle.
- Há toda uma imensidão de coisas que não sabes.
- Acredito. Se bem que existem coisas que preferia não saber.
- Como quais?! - Philippe apanhou o filho e abriu a porta para ela passar.
- Tudo o que me magoa. - Sussurrou ao passar junto a ele.
- Mesmo o que nos magoa é necessário para que possamos evoluir ou tentar encontrar um meio de usar isso a nosso favor.
- Talvez. - Olhou o relógio dando o assunto por terminado -Hoje não venho almoçar. Tens a certeza que não te importas de ficar com ele? Posso telefonar a Rice.
- Não te preocupes temos planos. - Philippe notou a sombra no seu olhar - Um passeio pelo parque e talvez te façamos uma visita.
- Ficaria muito feliz.
- Falas a sério?
- Claro.

 Deu um beijo na bochecha vermelha do filho, pelo calor da banho e depositou um breve beijo na cara de Philippe. Sorriu ao ver a marca do bâton, ele permaneceu imóvel enquanto ela passava a mão pela marca até esta desaparecer.
Durante a viagem e boa parte da manhã os seus pensamentos permaneciam no motivo que a levou a beijá-lo, apesar da sua decisão de se manter afastada, aqueles pequenos beijos estavam a tornar-se rotina entre eles, como se fossem dois bons amigos. Tentava convencer-se que não tinha nada de mal, tentavam ser civilizados para bem do filho. Sim, era isso. Apenas tentava entender-se com Philippe por Leo, nada mais. Os sentimentos de tranquilidade e familiaridade, que a assaltavam quando estava com ele, nada tinham que ver com um outro sentimento mais profundo que ela nutria por ele. O mesmo sentimento que a fazia passar muitas horas sem dormir durante a noite e a sonhar quando estava acordada.


- Não imaginava isto assim. - Philippe entrou no escritório com o Leo sentado no carrinho - Sempre imaginei que terias montes de tecidos pendurados pelas paredes, estilo mercado indiano.
- Acho que não era o indicado para o espaço e duvido que os clientes gostassem. - Isi inclinou-se sobre o carrinho, Leo dormia - Já foram ao parque?
- Não. Fomos ao supermercado e viemos convidar-te para um piquenique.
- Tenho imenso trabalho.

Evitava o olhar dele, tinha esperança de ocultar os verdadeiros motivos de recusar o convite. Um piquenique no parque dava uma ideia errada da situação e o seu coração já estava suficientemente dividido. Não precisava de mais indícios do quão maravilhoso que podia ser uma vida com ele.

- Certamente terás de almoçar. Ou existe algo mais que te impeça?
- Não apenas trabalho. Se for, vou atrasar-me imenso.
- Então faremos o piquenique aqui.
- Aqui?!
- Porque não?! É um lugar tão bom como outro qualquer.
- Não me parece que seja.
- Acho que a mãe está esconder-nos algo.

Philippe olhou para o filho. Isi percebeu que ele não ia desistir da ideia.

- Tens razão, tenho de almoçar, se prometeres que não demoramos vou.
- Palavra de escuteiro. - Philippe bateu com a mão no peito.
- Foste escuteiro?! - Issi sorriu imaginando-o com uma farda de escuteiro. - Seguramente foste daqueles que não deixam saudades.
- Fui sim senhora. - Philippe tirou-lhe a chave da mão e fechou a porta por ela. - Porque não deixaria?!
- Não sei. Intuição.
- Fiz umas quantas travessuras. Mas nada de mais. - Ele fez uma careta - Coisas típicas de criança.

Durante o almoço Philippe contou-lhe algumas da peripécias desse tempo, e brincaram com Leo. Quando regressaram ao escritório, Philippe trocou o breve beijo na face por um nos lábios, não foi demorado, apenas um leve contacto, mas o suficiente para ela desejar que a tomasse nos braços e fizesse amor com ela ali mesmo. Sacudiu a cabeça afastando aqueles pensamentos, tinha muito que fazer e pensar no sedutor que ele era, nos seus beijos e em outras coisas menos próprias não ajudava a terminar a tarefa. Decididamente tinha de arranjar um meio de se manter afastada dele e dos seus beijos por muito tentadores que fossem. E principalmente tinha de se lembrar que ele era um homem casado.

No fim da tarde Matheus telefonou a confirmar o jantar de aniversário de Leo e a informar que Hector fazia questão de levar o bolo e um doce de chocolate. Isi disse-lhe que ia convidar Philippe e Matheus riu como resposta. Regressou a casa pensando no que faria para o jantar, tinha idealizado um jantar simples apenas com Matheus e Hector, mas agora parecia-lhe injusto não incluir Philippe.

Philippe estava a dar o jantar a Leo quando entrou em casa, o filho agitou os bracinhos ao vê-la e sorriu. Tinha a cara coberta de puré o que a fez sorrir também.

- Tens a certeza que ajudavas a tua irmã?!
- Estás a colocar em duvida as minhas aptidões?
- Deus me livre. - Isi ficou imersa numa tristeza imensa perante o olhar carinhoso que ele lhe devolveu. - Vou preparar o banho dele.

A voz de Philippe e as risadas do filho chegavam até ela à medida que subia as escadas aumentando a sua tristeza. Olhou o seu reflexo no espelho, os olhos tristes confirmavam o que o seu coração sabia à muito, ainda o amava e nunca iria amar ninguém. Restava-lhe o filho e as recordações de um sonho que foi apenas dela. Com o tempo aprenderia a viver apenas delas e quando ele volta-se para casa e para a sua esposa, tudo seria mais fácil.  Lavou a cara ao ouvir os passos nas escadas, abriu a torneira e começou a preparar a roupa do filho. Quando pensava ter as emoções controladas voltou a sua atenção para o filho. Mas vê-lo a brincar com Leo apenas recalcou a tristeza que sentia. Sentindo que não conseguia controlar as lágrimas saiu do quarto de banho. Desceu as escadas e refugiou-se na cozinha. As lágrimas caiam na bancada ao mesmo tempo que arranjava a alface. Amaldiçoou a ideia de permitir que ele fizesse parte da vida dela novamente. Mas que alternativa lhe restava?! Uma vez que ele sabia da existência do filho, não podia simplesmente dizer-lhe que se afasta-se.

- Algum problema? - sentiu a mão dele no seu ombro - Se puder ajudar em algo.

Queria dizer-lhe que sim, que podia divorciar-se. Que podia abraça-la e dizer-lhe que a amava. Mas isso estava fora de questão.

- Obrigada. - Ela tentou sorrir - Apenas estou emocionada, Leonard faz um ano e parece-me que foi ontem que nasceu.
- Sinto o mesmo, mas para mim foi praticamente ontem.
- Desculpa.

 Sentiu-se culpada por privá-lo do filho durante esses meses. Philippe apertou levemente a mão sobre o ombro dela. Permaneceram olhando-se em silêncio por algum tempo, ela entreabriu os lábios involuntariamente e o olhar dele desceu até eles, por alguns segundos parecia que ele ia beijá-la mas depois não o fez, o que deixou Isi desolada, mais uma vez desejou que a beija-se. Queria voltar à noite em que se entregou a ele sem reservas, queria sentir o corpo dele no dela.

- Leonard já dorme e eu vou indo.
- Não ficas para jantar?
- Ambos sabemos que se ficar, onde as coisas podem acabar.

Isi permaneceu acordada por muito tempo, pensando em como esteve perto de ceder ao amor que sentia, o quão perto esteve de repetir o mesmo erro, ignorando o facto de ele ser casado. Levantou-se cedo, fez a lista das compras e colocou as loiças que iria usar nessa noite em cima da mesa.  Quando Leo acordou restava ir ás compras e fazer o jantar. Queria que a noite fosse especial, era o primeiro aniversário de Leo. Estava tão ansiosa que fez a decoração da mesa vezes sem fim, nem quando organizava os jantares de Isabelle se sentiu tão nervosa.

Leo brincava numa manta no chão, sob o olhar atento de Isi, mas ao ver Matheus chegar começou a atirar brinquedos como fazia com o pai. Matheus tentou apanhar os cubos mas quando se levantou, esbarrou em Hector que trazia uma enorme taça e não conseguiu evitar que o doce de chocolate fosse parar no peito de Matheus sujando a sua imaculada camisa branca.  Ficaram em silêncio olhando a cara de Matheus até que a gargalhada sonora de Leo se fez ouvir.

- Achas piada?! - Matheus olhava a camisa coberta de chocolate.
- O pior foi que ficamos sem sobremesa. - Hector tentou disfarçar o riso - Vou a casa apanhar uma, não demoro.
-  Vai, mas quando voltares certifica-te que deixas-te lá esse sorriso.

Hector agitou a mão no ar e saiu pelo jardim rindo.

- Anda, vai lavar-te enquanto eu lavo a camisa.
- Bela maneira de começar a noite.

Isi  colocou o filho na cadeira e foi lavar a camisa na casa de banho. Estava a meio da tarefa quando a campainha tocou.

- Espero não chegar cedo demais. - Philippe olhou para a roupa dela - Passou-se algo?

Isi não teve tempo de responder, Philippe olhava para o cimo da escadas e pelo seu olhar não gostava do que estava a ver. Ao voltar-se viu Matheus descer as escadas mostrando o seu peito musculado. Já o tinha visto sem camisa várias vezes, mas nunca perdeu tempo a reparar como o amigo era bem proporcionado fisicamente.
Philippe deixou no chão o saco que tinha na mão e olhou para os dois como se eles tivessem cometido um crime.

- J´etais a stupid. - Philippe estava furioso - J´etais a stupid.

 Isi ficou na entrada vendo-o partir até que ele desapareceu na entrada do palacete. Matheus juntou-se a ela.

- Acho que devias de falar com ele.
- Porquê?
- Vamos a isto outra vez. Enumerando a situação - Matheus falava como se ela fosse uma criança pequena - Porque se estivesse no lugar dele, possivelmente também tirava conclusões precipitadas. Porque se ele ainda está por cá, talvez, mas só talvez, o casamento dele não seja tão bom como tu pensas. E finalmente, porque por algum motivo ele sente-se um idiota, ou um estúpido.
- E onde queres que o vá procurar?!
- Não lhe perguntas-te onde está a dormir?!
- Não!

Hector chegou interrompendo a conversa deles.

- Philippe não era para jantar connosco? - Hector deu a camisa a Matheus - Passei por ele a pouco.
- Tens a certeza que era ele? - Matheus parecia mais interessado que ela - Só o viste uma vez.
- Sou bom em fisionomias. Estava a entrar para a herdade, a que tem duas palmeiras na entrada.
- Do que esperas?! Vai falar com ele. - Matheus empurrava-a literalmente para fora de casa. - Vai!
- Não quero iludir-me.
- Nem eu quero que te iludas, mas mesmo que não queiras alimentar esperanças pensa no que ele pode fazer em relação a Leo. Ficou com uma ideia errada da situação, convém esclarecer.
- O que se passou? - Hector olhou para os dois sem perceber do que falavam.
- Depois te explico. - Matheus voltou a empurrar a amiga para as escadas - E não te preocupes, cuidaremos de Leo, o tempo que for preciso.

Isi percorria o caminho até à vivenda pensando em tudo aquilo. Matheus tinha razão, tinha de haver um motivo para Philippe permanecer ali e outro para a reacção dele ao ver Matheus. Mas não queria construir castelos no ar imaginando que ainda a amava e que tinha sentido ciúmes. Era melhor não imaginar nada. Quando chegou à vivenda olhou para as janelas, estava tudo ás escuras. Encheu-se de coragem e tocou à campainha. Esperou mas ninguém apareceu, repetiu o processo por mais duas vezes até desistir e voltar para casa, sentindo o coração mais pesado que no dia que soube que ele ia casar.

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