TUDO O QUE FICOU 13ª PARTE
Isi caiu pesadamente sobre o sofá. "Não sou casado" as palavras martelavam na sua cabeça insistentemente.
- Mas eu vi o convite...
- Sim. - Philippe sentou-se junto a ela segurando-lhe uma mão - E se não te tivesse conhecido estaria casado. Mas não podia casar amando-te como te amo. Por isso desmarquei o casamento assim que cheguei a casa.
- Quando estives-te cá,na última vez que nos vimos, já tinhas anulado o casamento?
- Não. Ainda estava indeciso quanto...
- Como podes dizer que me amas se estavas indeciso?!
- Não te precipites. Lembras-te de dizer que me sentia pressionado?! - Isi anuiu - Sentia que devia algo a Shasha.
- Ela estava... - Isi sentiu o seu estômago dar voltas, ele tinha outro filho - Estava grávida?!
- Shasha?! Não!
- Cada vez entendo menos.
Philippe olhou a parede nua, como se estivesse a ver um filme, e por uns instantes permaneceu em silêncio. Isi sentiu a sua mão ser apertada e olhou para ele. Tinha o olhar fixo num ponto que ela não via, o seu corpo estava ali mas a sua mente não. Tentou retirar a mão mas ele não permitiu.
- Quando terminei a faculdade fui com Pierre, um amigo, numa viagem partindo à aventura. Depois de um mês de barco decidimos continuar de jipe, era a última semana, saímos sem rumo, parando onde queríamos, sem mapa que nos orienta-se acabámos numa aldeia, dessas menos favorecidas. Um povo amigável embora reservado, talvez por sermos estrangeiros. - Philippe depositou um beijo na mão dela - Numa noite estávamos sentados num boteco, um bar de baixa categoria, quando vemos passar um homem corpulento arrastando uma miúda aos gritos, que enfiou num casebre em frente. Entre os gritos gesticulava e estendia os braços na nossa direcção. Sem saber que se passava levantámos-nos para ajudar a rapariga, mas fomos travados pelo rapaz que nos servia de tradutor. A rapariga tinha fugido de casa, pela terceira vez, estava prometida para casar a um homem abastado, mas não queria casar. Enquanto ele nos explicava o sucedido, vimos sair o homem ajeitando o cinto e juntar-se a nós com um sorriso vitorioso. Não preciso de dizer o que pensámos. Acho que nunca senti tanta vergonha do ser humano! Olhei para Pierre e soube que ele pensava o mesmo. - Philippe olhou momentaneamente para ela - Vou poupar-te os detalhes. Despedimos-nos do rapaz agradecemos a ajuda e fingimos ir dormir porque partíamos de madrugada. Enquanto esperámos dentro do jipe telefoná-mos para casa, precisávamos de um avião com urgência, o pai de Pierre arranjou um, mas até lá chegarmos tínhamos uma hora de caminho, isto na melhor das hipóteses. Mas esse pequeno detalhe não nos preocupava, o mais urgente era tirar aquela miúda dali, aproveitámos o estado de embriagues do sujeito e raptamos a rapariga. Quando nos viu não gritou, apenas chorou agarrada ao meu amigo, saímos por uma janela lateral e partimos essa mesma noite. Descansávamos à vez, só pensávamos em chegar ao aeroporto. Duas horas depois avistámos o avião, ela dormiu toda a viagem enquanto nós começávamos a pensar nos problemas que isso nos traria. Sabíamos que não era correto, mas não conseguíamos voltar as costas à situação! Telefonámos a todas as pessoas que conhecíamos, finalmente chegámos a minha casa em segurança. Foi vista por uma médica amiga, a pobre tinha as costas cheias de cicatrizes do cinto! Pelos exames que lhe fizeram disseram que não tinha mais que dezasseis anos.
- Meus Deus! Pobre rapariga! - Isi limpou as lágrimas - Como o ser humano é capaz de tal monstruosidade?!
- Desde que conheci Shasha fiz muitas pesquisas, isto é o melhor que pode acontecer ás meninas de certas povoações. Costumes enraizados, falta de cultura e de dinheiro. Sabes que os pais chegam a vender as filhas, algumas ainda crianças, a homens ricos?!
- Que horror! - Isi estremeceu - O que ela não terá sofrido.
- Por isso não podia deixá-la assim, sem conhecer ninguém. Compreendes?!
- Acho que sim. Mas a família não a procurou?
- Não sei, nem me preocupei com isso. Pedimos ajuda junto de quem sabia de casos como o de Shasha. Arranjámos uma instituição para ela ficar, mas agarrava-se a Pierre a chorar de tal forma que voltávamos com ela para casa. Sem papéis era mais uma ilegal no país, a única forma de a legalizar seria através do casamento. Ela adorava Pierre, mas ele estava noivo e não seria justo para com a noiva. Restava eu, e achei que lhe devia isso, não a tinha tirado de lá para a deixar no meio de uma selva que ela não conhecia. Resolvemos esperar mais uns anos até ela ser maior de idade. Entretanto aprendeu francês, e trabalhou com a minha irmã. - Philippe mostrou-lhe uma fotografia, nela estavam duas mulheres sorrindo, uma de pele branca e cabelo negro como o dele e outra de pele dourada com um cabelo castanho, apanhado ao alto. Notava-se a cumplicidade - O meu cunhado tirou esta fotografia no último dia que Shasha passou com eles.
- Onde está agora?
- Voltou para casa.
- E isso não te trará problemas?
- Penso que não, e se por alguma eventualidade a reconhecerem, ela diz que fugiu.
- Mas... não tem medo que a obriguem a casar? Nem ficou triste por teres faltado ao que prometes-te?
- A ideia de voltar foi dela.- Philippe guardou a fotografia - Depois do que fizemos por ela, não queria ser um entrave à minha felicidade. Um dia, ela também ia encontrar alguém como Pierre, alguém que a amasse e aí sim casaria. - Philippe sorriu carinhosamente - Tornou-se uma mulher forte e independente. Disse que tinha de voltar, que tinha a obrigação de ajudar a quebrar aquelas tradições ridículas. Ajudei-a economicamente, de forma a não ser obrigada a submeter-se a ninguém. E penso continuar a ajudá-la. No ano passado escreveu, comprou uma casa e construiu um abrigo.
- Gostava de a ter conhecido.
- Quando nos casarmos vais conhecê-la.
- Casarmos?!
- Lógico ma petite. Achas que depois de estar separada de ti, vou deixar-te partir?!
- Podias ter regressado mais cedo. - Isi tentava abstrair-se das caricias dele.
- E regressei. Regressei disposto a falar com Isabelle, dizer-lhe o que sentia por ti. Mas quando cheguei não estavas. - Philippe afastou-se dela - Isabelle disse que tinhas pedido um tempo, ela pensava que amavas Matheus... Não queria acreditar nisso, telefonei para casa dele, precisava encontrar-te.
- Eu sei...
- Sabes?! Ele disse-te?
- Fui eu que atendi o telefone.
- Porque não disseste nada?! Mon Dieu!
- Tenta perceber. Estava grávida, assustada e a imaginar-te casado.
- E com Matheus!
- Matheus é um amigo, um grande amigo. - Isi olhou os olhos tristes dele - Oh meu Deus! Por isso tu pensas-te que namorava com ele... Isabelle disse que eu amava Matheus, anos depois ele estás sem camisa na minha casa...
- Mais precisamente a sair do teu quarto.
- Tens de acreditar. Amo-te e nunca estive com outro homem.
- Isso quer dizer que tenho razão - Os olhar dele recuperou o brilho do desejo - Tu m´appartiens, ma chérie.
- Hoje e sempre.
Isi entregou-se aos beijos dele deixou-se levar pelo desejo sem medos nem reservas, Philippe sempre a amou. Estremeceu quando as mãos dele fizeram deslizar o roupão pelo corpo. De repente ele parou e olhou-a nos olhos.
- Mon dieu! Adoro-te e quero passar, além desta, as restantes da nossa vida contigo, mas onde está o nosso filho?
- O nosso filho está com Matheus e Hector.
- Matheus e Hector?! Mas o que... - Philippe calou-se e sorriu para ela compreendendo o que ela não dizia - Todos devemos de lutar pela nossa felicidade.
- Concordo.
- Acho que pode ficar por lá esta noite - Philippe deitou-a sobre a espessa alcatifa - Afinal temos dois anos para recuperar.
FIM
Esta historia só foi possível graças à colaboração de: Susana Louro, Susana Maria Alves, Cindy Hernandez-Ruize e Vera Almeida. A todas elas o meu muito obrigada pelas aulas de Francês.

Adorei a volta que deste ao caso, lembrei-me de vários motivos para o desaparecimento mas longe de tal ideia. Cada vezes estas a elaborar melhor as histórias. Beijinhos e parabéns.
ResponderEliminarObrigada Pocahontas. Tento não ser muito óbvia :) ainda bem que gostaste. Beijinhos
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