NOS TEUS BRAÇOS 1ª PARTE



Alexandra acabava de vestir as calças quando o telemóvel tocou. Reconheceu o número da empresa.

- Sim!?
- Como está a minha funcionária favorita?!
- Olá António. Rita não te faz o café como gostas?!

Por alguns segundos uma gargalhada ocupou a linha, seguida de uma silêncio que ela reconhecia como antecessor de algo que António achava urgente.

- Como estás?! E não quero a resposta convencional.
- Vou aguentando.
- Maria está preocupada contigo, e eu também.
- Eu sei e agradeço imenso, mas não precisam de se preocupar. Não serei a única com um coração destroçado. - Alexandra obrigou-se a controlar as lágrimas - Vou sobreviver.
- Claro que sim. E se precisares de mais tempo...
- Eu sei. - Alexandra calou-se uns instantes, era doloroso recordar o fim da sua relação. - Olha, não cheguei a agradecer-te estas férias.
- Era o mínimo que podia fazer por ti. Estás a gostar de Sintra?
- Não vi muito mas o que vi adorei.
- Maria achou que irias gostar. E já viste os jardins?
- Estou a preparar-me para ir. Formámos um grupo aqui no hotel.- Alexandra consultou o relógio - E já estou atrasada.
- Então que fazes na conversa?! Vá... falamos outro dia.
- Obrigada António.
- Diverte-te rapariga.

Alexandra sorriu ligeiramente, António era seu patrão desde que deixara a faculdade, assim como ele e Maria lhe tinham carinho, ela também o sentia por eles, e ficaria eternamente grata por todo o apoio que lhe estavam a dar nesta fase menos boa. As lágrimas afloraram nos olhos castanhos, determinada a esquecer Miguel respirou fundo. Apanhou o cabelo com um elástico, atou uma camisa à cintura e saiu apressada na direcção dos elevadores.
O grupo estava reunido junto à entrada, juntou-se a eles observando o alegre grupo. Todo ele era praticamente formado por casais de alguma idade, vestidos com roupas vistosas, à excepção de uma senhora de cabelo grisalho que vestia roupas sombrias. Esta sorriu-lhe quando se aproximou, aparentemente era a única que estava como ela, sozinha. Alexandra retribuiu o sorriso e concentrou-se em procurar os óculos de sol na mochila.

- Bom dia! - Uma voz alegre e jovial fez-se ouvir - Sou Ana. Serei a vossa guia por hoje. Se estiverem de acordo podemos sair.
- Desculpe. - Alexandra levantou a mão. - Esqueci-me dos óculos de sol. Dá-me só dois minutos?!
- Claro, esperamos na entrada.
- Obrigada.

Alexandra entrou no elevador e carregou no botão para o quarto andar. Detestava que esperassem por ela, mas a conversa com António distraiu-a do que estava a fazer e acabou por esquecer os óculos. Tentando não demorar, começou a procurar as chaves do quarto na mochila ainda dentro do elevador, e ainda o estava a fazer quando as portas abriram. Saiu ainda a olhar a mochila, mas ao contrário de se apressar, como ela queria, acabou nos braços de um desconhecido, que a puxou quando a porta do elevador se fechou evitando que a sua camisa fica-se presa. Alexandra levantou a vista e ficou frente a frente com os olhos mais lindos que ela tinha visto. De um verde brilhante, ou castanhos?! Não tinha a certeza. Estava tão próximo que podia sentir a respiração dele no rosto, o que a levou a tomar consciência que a boca dele estava a centímetros da dela.  Cheirava a mar e podia sentir o calor do corpo dele sob a sua mão... A sua mão mexeu-se involuntariamente no peito dele e ficou vermelha.

- Obrigada. - Alexandra baixou a vista - E peço perdão, não o vi.
- Não?! Pareceu-me o contrário.

Ela olhou para ele. Tinha um sorriso lindo e os olhos pareciam agora mais verdes. Aliás, o olhar dele parecia o olhar de uma criança com um brinquedo novo, pareceu-lhe... divertido! Como se acha-se piada. Estava a rir-se dela?!

- Espero não o ter magoado. - Alexandra ficou ainda mais vermelha ao perceber o ridículo que aquilo soava - Desculpe mais uma vez.

Alexandra entrou no quarto sentindo as faces arderem. Apanhou os óculos que tinha deixado em cima da cama e lavou a cara com água fria tentando acalmar o rubor. Saiu apressada e juntou-se ao grupo que já esperava na rua.

- Peço desculpa.
- Podemos ir?! - Ana olhou o grupo com atenção.
- Não precisa de ficar envergonhada. - A senhora que estava sozinha juntou-se a ela - Acontece a todos.
- Não costumo ser assim.
- Minha querida, não estamos realmente de férias se continuamos escravos do relógio! Desculpe, não me apresentei. Sou Clara.
- Prazer. - Alexandra aceitou a mão que Clara lhe estendia - Alexandra.
- Que nome bonito. - Clara observou o grupo - Não se vêem muitos jovens no grupo.
- Isto poderá parecer aborrecido, certamente preferem aventuras.
- A Alexandra não gosta de aventuras?!
- Depende das aventuras, mas acho que prefiro passear entre a natureza.
- Eu também. Mas também não sou jovem. - Clara fez uma pausa - Está sozinha?!
- Sim. - Alexandra respondeu bruscamente.
- Desculpe. Não queria parecer intrometida. Como está sozinha pensei que gostaria de conversar, não era minha intenção...
- Eu é que peço desculpas. Não pretendia ser rude.
- O meu falecido marido tinha razão. Falo demais, eu e a minha mania de fazer perguntas. De forma alguma pretendia imiscuir-me nos seus assuntos.
- Não se preocupe. -Alexandra sentiu pena dela e sorriu-lhe, afinal a pobre não tinha culpa dos seus fracassos amorosos -  E tem razão, gosto de conversar. Seria bom ter companhia.

Clara sorriu e pareceu esquecer aquele pequeno incidente, durante o percurso contou-lhe que ficara viúva à cinco anos e que se tinha reformado no ano passado. Como adorava viajar e nunca teve tempo, aproveitava agora para o fazer. Mostrou as fotografias da neta e dos filhos que tinham emigrado. Ainda falava da família quando entraram no parque.

- Como podem ver. - A voz de Ana fez-se ouvir mais alta - O parque da Liberdade é um bom sítio para descansar ou ler um livro. Foi em 1936 que se anunciou a aquisição do Parque Valenças pela Comissão de Turismo de Sintra, com o propósito de dotar Sintra de um Parque Público. Sendo inaugurado em Julho de 1937, com a Presença do presidente da República. Em Agosto de 1939 voltaria a ser notícia, para saudar os melhoramentos entretanto introduzidos, com um especial destaque a caber ao campo de ténis e ao então inaugurado campo de patinagem. Desde então que este Parque tem funcionado como um dos principais pontos de visita a Sintra, sendo sucessivamente alvo de melhoramentos e manutenção.
O coberto vegetal do Parque da Liberdade é caracterizado por um desenvolvimento essencialmente natural, com uma estética, uma paisagem e um conjunto de interacções que permitem um variado número de nichos ecológicos incrementando a biodiversidade.- Ana fez uma pausa - Se pretenderem,
podemos ver o Teatro Virtual: ali podemos ver os primórdios do intercâmbio entre Portugal e o Japão. Uma cidade portuária do séc. XVI é reproduzida numa maqueta, no interior da qual são representadas imagens virtuais de personagens japonesas e portuguesas que recriam acontecimentos históricos, entre eles a Missão de quatro jovens cristãos japoneses à Europa e que também estiveram em Sintra.

Uma brisa levou até ela um cheiro a mar que a fez recordar o estranho de olhos verdes e estremeceu. Porque se lembrava dele?!

- Está doente?! - Clara colocou a mão na testa dela - Não, não está quente.
- Não, é apenas um arrepio.
- Esperemos que não esteja a apanhar nada que a impeça de conhecer o palácio da pena.
- Palácio?!
- Estou curiosíssima, apenas vi as brochuras, mas dizem que é lindo.
- Então tenho de ir ver.
- Pessoalmente preferia não ir sozinha. - Clara ficou momentaneamente triste - Mas não sei se Ana estará disponível, nem se vamos fazer novo grupo.
- Não tem porque ir, eu também gostava de conhecer o palácio.
- Então está decidido, vamos juntas.

Regressaram ao hotel pouco antes do almoço, depois de combinar com Clara a visita ao palácio, Alexandra foi para o quarto descansar. Deitou-se na cama a olhar o quadro que decorava o quarto. Retratava uma ponte, talvez uma cópia de, se não estivesse enganada, do famoso Water lily pond, de Monet. Lembrava-se de ter lido sobre isso quando fez uma pesquisa para António à alguns anos, quando ele pretendeu oferecer um Monet a Maria. Voltou a atenção para o quarto de cor marfim, era enorme, com casa de banho privada e uma salinha, com sofá, televisão e um mini bar. Chegou à conclusão que, embora recebesse um bom salário, possivelmente não se poderia dar ao luxo de pagar um quarto daqueles. O que a fez pensar nos  motivos porque estava ali. O fim abrupto do seu noivado! Quando António descobriu que Miguel tinha terminado o noivado a apenas três meses do casamento, insistiu em que ela tirasse uns dias de férias. Aceitou porque precisava de se afastar de Miguel. Mas ela não queria acreditar quando António e Maria lhe disseram que as férias eram oferta deles. Apesar de os tentar dissuadir não conseguiu, Maria insistira dizendo que ela merecia, afinal não tinha férias há quatro anos. E isso era demais para qualquer pessoa que tivesse de suportar António todos os dias. Dadas as circunstâncias António foi muito compreensivo, durante aqueles dias tinha de decidir se voltaria para o seu emprego. Independentemente da sua decisão, António assegurou-lhe que esta seria respeitada. Embora gostasse dela e dos seus serviços, reconhecia que trabalhar lado a lado com Miguel seria doloroso demais para ela.  Receando as lágrimas saiu da cama e abriu a janela.
A vista sobre a cidade era linda. O seu estômago fez um ruído lembrando-a que não tinha almoçado, estava faminta mas não queria almoçar no hotel. Tomou um duche rápido, vestiu um vestido leve e apanhou a mochila. Colocou os óculos de sol e saiu decidida a descobrir a cidade.

Almoçou numa esplanada no centro da cidade e depois de comprar um mapa iniciou a descoberta da cidade e veio a descobrir que, apesar de Sintra ser sede de município e contar com 11 freguesias, era qualificada como vila e não cidade. De mapa na mão, não tardou em encontrar no centro da vila, o Palácio Nacional. Ficou fascinada com o exterior de arcos góticos e fachadas simplistas em branco. Mas a sua atenção voltou-se para as duas imponentes chaminés, que se estendiam sobre as cozinhas. O interior do palácio reflectia bem o contínuo uso do edifício com múltiplos estilos e designs. Adorou a Sala dos Cisnes e a Sala das Pegas.

Com alguma relutância abandonou o local, uma pontada de tristeza invadiu-a, gostaria de ter alguém com quem conversar sobre o palácio. Lembrou-se que podia ter convidado Clara, certamente iria gostar.
Saiu sem rumo, percorrendo as ruas e descobrindo coisas novas, que ia imortalizando com a máquina fotográfica. Quando se desorientou um pouco descobriu que as pessoas eram muito simpáticas e com um sorriso no rosto prontificaram-se a dar-lhe as indicações necessárias para chegar à igreja de Santa Maria e São Miguel que não tardou em encontrar.
Antes de entrar para ver o interior, decidiu tirar umas fotografias, àquela hora as pessoas eram poucas e o sol dava um aspecto especial ao local. Afastou-se um pouco para fazer o enquadramento e sentiu o pé deslizar no degrau da escada, fechou os olhos esperando uma queda aparatosa mas abriu-os quando se sentiu envolta por uns braços fortes e por um cheiro que não lhe era totalmente estranho.

- Isto está a tornar-se um hábito.

Alexandra abriu os olhos e viu como o dono dos olhos verdes acastanhados sorria para ela, enquanto as poucas pessoas que estavam ali riam da situação.

- Obrigada. - Alexandra ficou vermelha.
- Se é assim tão desastrada, acho melhor contratar um guarda costas ou uma ama.

Ama?! Mas quem ele pensava que era?! Uma miúda irresponsável?! Sentiu-se enfurecer. Que idiota! Desde que chegara tivera alguns percalços, mas porque tinha de passar a vida a cair nos braços dele?! Duas vezes em apenas um dia! Era todo um recorde!

- Caso não tenha reparado, já tenho idade para prescindir de ama. - Alexandra apoiou-se no braço dele para se equilibrar antes de se afastar. - Apenas me distrai momentaneamente. Asseguro-lhe que não precisará de me segurar novamente.
- Isso quer dizer que não gosta de estar nos meus braços?!

Alexandra ficou vermelha novamente, a forma como ele dizia aquilo insinuava algo mais, uma intimidade que não existia.

- Vou ter mais cuidado. - Alexandra afastou-se - Muito obrigada.

Sentindo o rosto a arder entrou na igreja. Agradeceu por o interior estar fresco, sempre podia acalmar-se um pouco. Aquele desconhecido desconcertava-a, mas tinha de reconhecer, se ele não estivesse ali podia ter-se magoado e muito! Precisava ter mais cuidado se não queria acabar as férias no hospital.  Quando se voltou para sair, viu-o sentado uns bancos mais atrás. Olhava para ela e sorria, sentiu-se indignada. Levantou o rosto e saiu. Não ia deixar aquilo estragar o dia. Regressou ao hotel e depois de um banho rápido desceu. Clara falava com um casal, mas ao vê-la levantou-se e foi ao seu encontro.

- Não a vi em toda a tarde. - Clara olhou atentamente para ela - Não ficou doente, pois não?!
- Felizmente não.
- Óptimo, assim nada a impede de se juntar a nós para uma visita nocturna à cidade.
- Nós?!
- Eu e o casal Reis. Vamos jantar numa casa típica, indicada pelo gerente, e passear um pouco. Não quer juntar-se à mini excursão?!
- Se não estiver a forçar a minha presença.
- Que bom! Quer mudar de roupa?!
- Estou mal assim?!

 Alexandra olhou para os seus sapatos de salto alto e para as calças pretas, apenas o top branco podia tornar-se fresco se regressassem quase madrugada. Talvez não fosse má ideia apanhar um casaco leve e mudar de sapatos.

- Não! Claro que não! Desculpe...
- Você tem razão, quando voltarmos estará mais fresco. Vou apanhar um casaco e desço já.

Alexandra entrou no quarto pouco depois, procurou um casaco e calçou umas sandálias, também eram de salto mas mais confortáveis. Quando se aproximava do elevador viu, o desconhecido estava lá. Felizmente desta vez viu e não lhe caiu nos braços, mas uma vozinha na sua cabeça disse-lhe que não se importava de cair novamente. Olhou para aqueles ombros largos cobertos com uma camisa preta e seguiu as costas largas até chegar à cintura onde começavam as calças cinza, estremeceu ao recordar a sensação de estar nos braços dele. Que se estava a passar com ela?! Nunca se perdeu nesses pensamentos e menos quando envolviam um desconhecido! Decidida a evitar um novo encontro passou por ele e dirigiu-se às escadas.

- Anda a evitar-me?!
- Claro que não! - Alexandra olhou para ele, ainda permanecia no mesmo sítio, a olhar a porta do elevador que já estava aberta - Não vejo porque o faria.
- Então não percebo porque não desce comigo. - Ele olhou-a nesse instante e ela estremeceu. - Se a preocupava esperar pelo elevador essa preocupação deixou de existir.

Alexandra olhou para ele, uma mão segurava a porta e com a outra indicava o elevador. Porque não haveria de descer no elevador?! E embora ele lhe desperta-se pensamentos que nunca tivera, era um desconhecido, e ela nunca se atirou nos braços de nenhum! Sorriu ao pensar na ironia dos seus pensamentos, e sem pensar deu um passo na direcção dele.

- Primeiro andar?! - Ele carregou no botão quando ela anuiu. - Vai sair?!
- Porque quer saber?! Pensa ir de guarda costas?!
- Paga bem?!

Ele olhou para ela e ela ficou vermelha, porque tinha de lhe recordar os incidentes?!

- Isso quer dizer que tenho de lhe pagar pelo salvamento anterior?!
- Não tinha pensado nisso, mas podemos chegar a um acordo e beber um café.
- Um café?!
- Acha demais?!

Nesse instante a porta abriu e ela deu um passo na direcção da porta, mas ele segurou-a pelo pulso e a porta voltou a fechar-se pouco depois.

- Porque o fez?!
- Porque não me respondeu.

Alexandra olhou a mão dele sobre o seu pulso, sentia o calor da mão dele percorrer o braço chegando ao seu estômago deixando-a com uma sensação estranha.

- E posso segurá-la aqui toda a noite. - Ele voltou a falar perante o silêncio dela
- Toda a noite?!
- Pelo menos até que me responda.
- Ao quê?
- Ao café! Acho pouco como pagamento. Mas como sou inexperiente terei de me contentar.

Mais uma vez ela ficou com a sensação que ele dava um outro sentido ás palavras, o que a levou a pensar que ele seria muita coisa, menos inexperiente.

- Muito bem. - Alexandra achou melhor aceitar antes que a sua mente começasse a divagar - Quando?
- Quando achar melhor.
- Amanhã ás nove. Parece-lhe bem?!
- Ás nove na entrada ou no elevador?!
- No elevador?!
- Podemos coincidir aqui, não seria a primeira vez.

A porta do elevador voltou a abrir e ela juntou-se a Clara e ao casal Reis na entrada. Mas antes de abandonar o hotel não conseguiu evitar olhar na direcção dele.

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