ENCONTROS AZARADOS 3ª PARTE



- Magic touch, boa tarde. - Caterine atendeu o telefone ao segundo toque.
- Caterine?!
- Olá Lori. Se procuras Jess, ela não está aqui.
- Eu sei. - Lori fez uma pausa - Queria falar contigo. Podes vir aqui?
- Está tudo bem?! - Caterine ficou apreensiva.
- Sim. Apenas queria falar mas sem a presença de Jess, sabes que o aniversário dela está próximo.
- Daqui a dez dias.
- Sim... Podes vir hoje à tarde?! Acho que Jess tem uma reunião.
- A primeira de muitas. - Caterine fez uma careta ao recordar que a reunião era com os Roice. - Sim, penso que posso ir a meio da tarde.
- Obrigada.

Caterine desligou e voltou a sua atenção para o computador onde o sinal de uma mensagem nova piscava. Abriu-a. Era da florista. As flores que pretendia para o casamento dos Roice superava em muito o orçamento estipulado. Aquilo vinha alterar os planos dela. Gostava daquela florista, conhecia-a à muito tempo e sabia que as flores chegavam na manhã do dia pretendido e não com dias de antecedência como tinha acontecido com algumas das floristas que trabalhara no início. Resignada abriu uma nova página e pesquisou outras floristas. Possivelmente conseguiria comprar as mesmas flores mas por um preço mais acessível.

As conversas com as floristas mantiveram-na ocupada toda a manhã e, como algumas tinham de vir do estrangeiro, apenas uma lhe garantia as flores que os Roice queriam. Lírios, Orquídeas e Crisântemos para adornar a igreja, um pequeno lago no centro do salão com flor de Lotus e os centros de mesa com lírios brancos.

- Já almoçaste? - Jess espreitou pela porta.
- Não. E sinceramente perdi o apetite.
- Problemas?!
- Não são bem problemas. Estou num impasse.
- Então vamos almoçar e discutimos isso.
- "Não se decide nada de estômago vazio". - Caterine citou a frase favorita de Jess.
- Exactamente.

As duas saíram em direcção ao bar mais próximo enquanto Caterine colocava Jess a par do ocorrido.

- E que pensas fazer? - Jess deu uma dentada na sanduíche de carne assada.
- A diferença de preço é enorme mas não conheço a florista. Sabes que nesta altura do ano é complicado manter os horários dos transportes. Tenho medo que me entreguem flores com alguns dias. Mas, ainda que mais dispendioso, na Art Flower tenho a certeza que recebo o que peço e nas melhores condições.  Acho que é preferível ganhar menos mas manter a qualidade dos nossos serviços. Que dizes?!
- Essa parte é competência tua.
- Eu sei, mas que farias tu?
- Jogaria pelo seguro. E quem sabe, se negociares um contrato de exclusividade com eles, talvez te façam um desconto.
- Um contrato... Não tinha pensado nisso.
- Então pensa. - Jess fez sinal ao empregado - Agora um café, para ganhar coragem, e vamos enfrentar as indecisões dos Roice!


Caterine riu da cara que Jess fez. Sentiu pena dela, os Roice podiam ser bastante indecisos e isso tornava-os irritantes. Mas naquele momento ela precisava de algo para manter Jess ocupada. E ela tinha a certeza que eles eram as pessoas indicadas para a tarefa.

O vento fustigava a cara de Caterine enquanto caminhava em direcção ao apartamento de Jess e Lori. Gostava daquele clima, mas o vento estava gelado demais. Apertou o casaco e apressou o passo.
Assim que tocou a campainha, Lori abriu a porta e espreitou para o corredor somo se estivesse a cometer um crime.

- Não fui seguida. - Caterine brincou.
- Nunca se sabe! - Lori fechou a porta rapidamente - Acreditas que nunca a consegui surpreender?!
- A quem?!
- Jess! Descobre sempre. Por isso pensei que podias ajudar-me.
- Que tens em mente?
- Um jantar surpresa.
- Não se torna demasiado cansativo para ti?!
- Não! Estava a pensar em convidar apenas os amigos mais chegados.
- E queres que eu a mantenha ocupada.
- Não! Bem, sim. Isso e, se não te importares, o teu apartamento.
- O meu apartamento?! Mas é demasiado pequeno!
- Damos um jeito. - Lori gesticulou - Com umas mesas e alguns bancos podemos fazer um jantar tipo bufê. Que dizes?!

Caterine olhou para ela enquanto imaginava as pessoas no seu pequeno apartamento. Apartamento que seria seu apenas por mais um mês, apartamento onde tinha vivido com a sua mãe e de onde tinha sido convidada a sair pelos novos donos. Se fosse no novo apartamento...Mas... talvez...

- Já vi que não gostas da ideia. - Lori apenas murmurava.
- Acho esplêndida. Mas tenho outra ideia. - Caterine agarrou o telemóvel e procurou as fotografias do seu novo lar - Que dizes se fizermos aqui?!
- Mas está vazia!
- Claro. Ainda não me mudei! Assino as escrituras dentro de três semanas mas acho que se falar com o agente da imobiliária não haverá problema em realizar lá o jantar e posso pedir-lhe outra chave. Colocamos umas mesas e cadeiras, decoramos o espaço... Bem, tu decoras. Depois de Jess sair podes ir quando quiseres. Se precisares de algo mandas mensagem que eu dou um jeito. Assim ficamos com espaço suficiente e quando forem jantar lá em casa, Jess não vai notar nada.
- Não pensei no jantar semanal. Mas não é má ideia não senhora. - Lori abraçou-a - Já percebi o que Jess viu em ti. Tens olho para isto.
- Não é para tanto. - Caterine ficou sem jeito.
- Claro que é! És boa no teu trabalho. Não deixes que te digam o contrário.
- Obrigada. Não vou deixar.
- Acho bem. - O olhar de Lori ficou brilhante - Recordas-me Jess. Dinâmica, de raciocínio rápido, inteligente e bonita. Sabes que a conheci durante um casamento?
- Não.
- Fomos contratadas para o mesmo casamento. Ela estava encarregue do catering e eu de decorar o espaço. Simpatizámos desde o primeiro momento e poucos dias depois começámos a sair, mas apenas como amigas. Um dia estava tão descontraída que, sem pensar no que estava a fazer, toquei-lhe mão e entrelacei os dedos. Primeiro olhou para mim depois para a mão, naquele momento pensei que ia fugir ou começar aos gritos. Mas não, apertou a minha com força e sorriu. Vi nos seus olhos a surpresa mas não falámos no assunto. Para quê!? Sabíamos o que queríamos! Semanas depois fazíamos planos para o futuro e pensávamos que as nossas famílias iam entender e apoiar-nos, mas tal não aconteceu. Jess é forte e não desabou mas eu... Bem, vês como estou e já passaram cinco anos. Se bem que não estou tão mal como ao início, acho que me sentiria melhor se algum deles, um só que fosse, nos aceitasse. - Lori começou a chorar - Jess não merece...
- Nem tu. - Caterine abraçou Lori e deixou que esta desabafasse.
- Desculpa. - Lori limpou a face com a mão. - Um dia vou regressar e terei todo o prazer em trabalhar ao teu lado. Até lá conto contigo para manter o barco à superfície.
- Jess espera por esse momento à imenso tempo.
- Eu sei... Se ao menos se limitasse a esperar.
- Porque dizes isso?!
- Além de ter esperança que regresse, acho que se sente culpada. Do afastamento da minha família. Acho que cometi um erro ao dizer-lhe que se não a tivesse conhecido ainda estaria solteira. - Lori sorriu abertamente - Jess é tão linda... Eu afoguei-me nos seus lindos olhos verdes. Se bem que quando está furiosa ficam negros e não há quem a aguente. Tenho pena dos Roice...
- Sim... - Caterine sorriu - Pobres Roice!



 Caterine massajava o pescoço dorido quando o som de uma mensagem se fez ouvir. Sorriu ao ver a mensagem. Lori aceitara a sua oferta para a ajudar e dera-lhe como primeira tarefa comprar velas brancas, flores secas e aquários de vidro. Não muito grandes. Era acrescentado numa outra mensagem em letras garrafais.


- Se tenho de repetir a lista de bolos mais uma vez juro que os atiro da ponte! - Jess entrou furiosa.
- Os Roice?!
- Quem mais?!
- Não há paciência! Ontem era o de amêndoa, anteontem o pão-de-ló, esta manhã regressámos ao bolo de chocolate do primeiro dia! Pensei que ficávamos por aí, mas acabei de saber que estão a pensar seriamente num de frutas! Acreditas?! Não aguento! A sério!
- Queres que fale com eles?!
- Não. Já decidi. Vou dar-lhes um ultimato. Têm apenas mais três dias para escolher a ementa. Depois disso podem procurar outra pessoa! Cansei!
- Acredito. - Caterine voltou ao computador. - Estou a pedir as coisas para a festa de Natal. Queres ver?
- Outro dia. Vim apenas dizer-te que vou para casa. Ainda ficas?!
- Sim, tenho de terminar umas coisas.
- Não fiques até muito tarde.
- Dá beijos a Lori.

Jess respondeu com um sorriso enquanto fechava a porta. Ao ouvir os passos de Jess afastarem-se desligou o computador e dirigiu-se para a janela onde ficou até que Jess entrou no próprio carro e se misturou com os demais veículos que circulavam naquele fim de tarde.
Vestiu o casaco e dirigiu-se ao centro comercial. Conhecia o local ideal para conseguir o que Lori pretendia.

Caterine empurrava um carrinho com alguns sacos de flores e folhas secas. Segundo a funcionária do estabelecimento, devido aos enfeites natalícios, os aquários estavam na prateleira de cima. Não teve dificuldade em encontrá-los.

- Precisa de ajuda?

Caterine voltou-se ao ouvir aquela voz.

- Obrigada mas não é necessário.
- Ainda está furiosa comigo?! - Ele sorriu - Estamos no natal, época de boa vontade e essas coisas.
- Essas coisas...
- Sim. Perdoar o próximo e praticar a caridade.
- E quer o meu perdão ou a minha caridade?!
- Contento-me com a sua companhia para um café. Não me esqueci que lhe estou a dever um café.
- Se está a pensar restituir o que derramou em cima da minha camisola, era um cappuccino.
- Se for um cappuccino aceita?!
- Ainda vou demorar.
- Não tenho pressa.
- Vai insistir nisso não é?!
- Pelo menos até que aceite.
- Muito bem. Aceito.
- Recomeçamos?! - Ele estendeu-lhe a mão - Nathan.
- Caterine.
- Prazer.
- Já que vamos beber café pode ajudar-me a tirar aquelas caixas?!
- Vais comprar aquários?!
- Sim. Algo contra?
- Estou apenas surpreendido!
- Porque...
- Não te imaginava a vender peixes.
- Não me acha capaz de tal?!

Caterine colocou as mãos nas ancas e Nathan olhou-a de sobrolho carregado.

- Tenho a sensação que, independentemente do que diga, vais interpretar tudo pelo lado mais negativo!?

Caterine manteve o olhar dele sem saber que dizer. A sua relação com Barry tinha-a tornado numa mulher amargurada!? Uma mulher que procurava sempre um lado oculto em certos comentários?! E principalmente se os comentários partissem do sexo masculino!? Não podia ser!!! Ela tinha apenas vinte e sete anos! Ainda tinha esperança de encontrar um homem que a fizesse sentir tudo o que a sua mãe dizia sentir quando o...

Um barulho ali perto trouxe-a de volta à realidade. Caterine olhou para ele e sorriu.

- Tem razão. Peço desculpa, não devia...
- Depois de tudo o que passámos vais continuar com as formalidades?
- Acabámos de nos conhecer e ...
- Já nos conhecemos à uns dias.  Tenho a certeza que se nos conhecêssemos no bar...
- Não vou a bares.
- Então num... - Nathan fez uma careta teatral - Num circo?!
- Também não.
- No zoológico!
- Não... - Caterine riu - Dada a nossa história não me parece boa ideia.
- Gostei dessa parte. - Nathan afastou-se com o carrinho do supermercado - Precisas de mais alguma coisa?
- Velas brancas.
- Acho que as vi quando entrei.



Nathan ajudou Caterine a levar as coisas para o carro e regressaram à pastelaria. Uma hora de conversa sobre trivialidades foi quanto bastou a Caterine para chegar à conclusão que Nathan não era tão desastrado como ela pensava e era bastante simpático. Simpático e bonito!

- Já sei que esta é a tua pastelaria preferida. - Nathan abriu a porta da pastelaria.
- Como sabes?!
- Observando. O que me indica que moras nos arredores.
- Por essa perspectiva tu também.
- Estou num hotel aqui perto. Ainda não encontrei a casa ideal.
- Não é complicado encontrar um apartamento.
- Acredito, mas prefiro uma vivenda.
- Algo contra os apartamentos?
- Nada em concreto.


Caminhavam lentamente quando um carro passou a alta velocidade atirando a água da estrada para cima de Caterine que, ao sentir a água gelada nas pernas, pulou e foi de encontro a Nathan. Este apenas teve tempo de a segurar contra o próprio corpo. Por alguns instantes olharam-se em silêncio, Caterine sentia as mãos dele quentes e fortes nas suas costas, o coração batia fortemente debaixo da sua mão enquanto os lábios dele lhe pareciam cada vez mais perto. Ao voltar a olhá-lo nos olhos pensou em Lori e na metáfora que usara para descrever os olhos de Jess.
Ela não se afogava nos de Nathan mas, assim como uma pessoa se pode perder num local desconhecido em plena noite de trovoada, ela podia perder-se na profundidade dos olhos dele.
Caterine abriu os olhos quando os lábios dele se juntaram aos dela. Sentiu um leve gosto a café... Nathan apertou-a mais e entrelaçou os dedos no cabelo dela. Devia protestar mas a única coisa que fez foi rodear-lhe o pescoço quando a língua dele tocou levemente os lábios dela.


- Acho que está a chover.
- Sim... - Caterine olhou para as gotas de chuva que escorriam pelo rosto dele.
- Vou acompanhar-te ao carro.
- Sim.


Quando entrou em casa Caterine ainda sentia os lábios de Nathan sobre os seus, o que a levava a levar os dedos à boca e sorrir como uma adolescente.



Caterine acordou com o som de uma mensagem. Lori agradecia-lhe a ajuda e anunciava que passaria no apartamento depois de Jess sair para dar início à decoração do apartamento.
Durante os dias seguintes as mensagens eram constantes entre as duas. Jess estava tão absorvida pela preparação da ementa dos Roice que nem notou as várias saídas dela.

- Vou ao centro, precisas de algo?

 Caterine fechou a porta do escritório de Jess. Esta olhava para o telemóvel que tinha na mão.

- Desculpa. Dizias...
- Está tudo bem?! - Caterine aproximou-se dela de semblante carregado.
- Sim. Acho que sim. - Jess forçou um sorriso. - Harry diz que quer conhecer Lori.
- Harry?!
- O meu irmão... Ainda não estou em mim. - Jess tinha lágrimas nos olhos - Depois de tanto tempo, agora quer vir.
- Isso é bom.
- É?! Depois de sete anos sem nos vermos?! Porque não telefonou?! Ou me procurou?! - Jess abafou um soluço - Pensei que podia contar com o seu apoio mas enganei-me.
- Agora está aqui.
- Nunca irei esquecer o olhar dele. - Jess falava como se falasse para si própria - Não sou um bicho raro! Apenas quero ser feliz. E mereço que me respeitem!
- Claro que sim!
- Aquele olhar de desprezo... De ódio...
- Não penses nisso. Tens de pensar que ele quer conhecer Lori. Isso só pode ser um bom sinal.
- Não sei... - Jess deixou o telemóvel em cima da secretária - Mas diz-me, que querias?
- Vou ao centro. Precisas de algo?
- Paz de espírito. Consegues arranjar?!


Enquanto se dirigia ao centro comercial pensou em Jess. Estava visivelmente admirada pelo telefonema do irmão. Admirada e magoada, muito magoada! Sentiu um certo rancor contra o irmão de Jess. Não, era algo mais. Rancor era pouco para descrever o que sentia. Mesmo sem o conhecer ela odiava aquele homem!

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