O CONTRATO 1ª PARTE
- Minha querida, à quanto tempo não dormes?
- Eu?! - Bella olhou para dona Luísa - Durmo todas as noites.
- Frequentas a minha casa à quinze, dezasseis anos?!
- Sim, mais ou menos isso.
- Então não me mintas. Sabes que te conheço como se fosses minha filha.
- E eu agradeço que me considere como tal, mas quem disse que lhe estou a mentir?! - Bella forçou um sorriso.
- Essas olheiras e esse sorriso amarelo. - dona Luísa agitou a mão no ar - Oh sim... Podes tentar enganar-me mas não consegues! Se essas olheiras fossem devido a um homem eu até entendia.
- Deus me livre! Já tive a minha conta!
- A tua conta?! Quantos namorados tiveste?! Um! Minha querida os homens não são todos iguais.
- Claro que não! - Bella encolheu os ombros - Uns são piores que outros!
- Um dia vais encontrar um que te vai fazer esquecer tudo. Até de ti mesma.
- Mais um para me fazer de idiota?! Não, obrigada.
- Ainda és muito nova. Não tarda muito voltas a sonhar com o príncipe encantado.
- À muito que deixei de acreditar em príncipes.
- Pois não devias. Devemos alimentar os nossos sonhos. Sempre!
- Nesse caso os meus morreram à fome. Eu desisti de ambas as coisas.
- Quando se desiste de sonhar, chega um dia e percebemos que não existem lágrimas suficientes para acalmar a saudade.
- Saudades!? Nunca irei ter saudades de quem me faz sofrer. - Bella guardou os papéis - Mas explique lá como foi que a conversa tomou este rumo.
- Tens razão, desviámo-nos um pouco. Estávamos a falar de quê precisamente!? - Dona Luísa olhou para o gato persa que se espreguiçava no cadeirão - Ah, já sei. Do teu descanso. Tens de pensar em descansar. Não adianta muito teres uma enorme fortuna se não a podes desfrutar.
- Fortuna!? Ainda estou muito longe disso. Mas tem razão, preciso descansar mais. O problema é que é muito complicado encontrar alguém de confiança.
- Complicado. Não impossível! Afinal encontraste Marisa. Quem disse que não podes encontrar alguém que te ajude com a papelada e as viagens?!
- Sim, tem razão.
- Tenho sempre. Por isso arranja alguém e descansa. Ou pelo menos pondera isso.
Bella colocou em cima da mesa uns papeis e esperou que dona Luísa os assinasse.
- Prometo pensar no assunto se isso a deixa mais descansada. - Bella beijou a face da velha senhora e sorriu - Amanhã venho às onze. Está bem para si?!
- Perfeito. E espero realmente que penses no assunto.
- Até amanhã dona Luísa.
- Que tenhas uma boa noite Bella.
- Obrigada, você também.
Ao sair da vivenda sentiu o ar frio da noite. Aquele ar gélido que só as noites no norte têm e que parece chegar aos ossos. Apertou o casaco e esfregando os braços com as mãos, iniciou a caminhada até casa enquanto pensava que tinha de desistir de ir a pé sempre que ia a casa da dona Luísa.
Dona Luísa além de sua amiga, era a ex-presidente da junta de freguesia e uma das suas primeiras clientes. Foi ela que a incentivou a seguir com aquele projecto, mas por esses dias estava longe de pensar que ia conseguir viver disso.
Bella tinha regressado à vila para passar as férias de verão, geralmente passava o tempo andando pela vila ou a passear pelos arredores tirando fotografias. Um dia percebeu que uma vizinha estava de cama com febre e ofereceu-se para ajudar. Com os filhos a estudar em Lisboa e o marido a trabalhar, esta ficava sozinha a maior parte do dia sem ter quem a auxilia-se. E embora as vizinhas fizessem várias visitas durante o dia, nem sempre estavam presentes quando era realmente necessário.
Sentindo pena de dona Joana, acordava cedo para lhe levar o pão acabado de sair do forno e fazia-lhe o pequeno-almoço. Depois ficava para o caso desta precisar de algo, mas sentindo-se aborrecida acabou por cuidar da casa.
Quando o marido de dona Joana regressou no fim de semana ficou-lhe muito agradecido e depois de falar com o pai dela, perguntou-lhe se em troca de um determinado valor estava disposta a cuidar da esposa até que esta recuperasse. Aceitou pois era preferível fazer isso que passar as férias a olhar para as árvores ou para a porta do estúdio onde o pai que preferia passar o tempo.
Depois disso não demorou a fazer pequenos favores para as demais vizinhas. Ir ao banco, ao supermercado, levar os netos ao jardim, acompanhá-las ao médico...
Mas o verão chegou ao fim e ela teve de regressar aos estudos. Na altura sentiu uma certa melancolia ao deixar a pequena vila e regressar a Chaves. Durante dois anos as férias dela eram passadas assim, a "trabalhar" para as vizinhas e gostava de o fazer. Sentia-se útil e os dias pareciam mais curtos quando estava com os mais velhos. Deliciava-se com as histórias que eles tinham para contar e saber que tinha de regressar à cidade e aos estudos deixava-lhe sempre aquela sensação de vazio. Passava o tempo das aulas a desejar que chegassem as férias para regressar a casa.
Estava na aula de química quando tudo mudou. Recordava que sentiu as pernas tremer enquanto caminhava para o gabinete do director. Quando este lhe deu a notícia da morte do pai caiu no cadeirão e naquele momento teve consciência do que era sentir-se vazia.
Sem mais familiares sentiu-se completamente perdida. Depois de muitas noites sem dormir, cancelou a matrícula e regressou a casa. Um dia, quando encontrasse forças, iria retomar os estudos. Mas as forças não regressaram como ela esperava, sentia-se cada vez mais só. Ali não tinha amigos da sua idade, nem locais onde pudesse sair e as conversas com dona Luísa não a animavam. Decidiu colocar a casa em venda e mudou-se para a cidade.
Pensando recuperar parte da alegria de outrora alugou um apartamento e retomou os estudos, mas após alguns meses a viver na cidade percebeu que a solidão ia acompanhá-la onde quer que fosse e decidiu regressar à pequena vila. Podia não ter muitos jovens da sua idade, mas tinha pessoas que conheciam o seu pai e em quem podia confiar.
Quando souberam que ela se tinha mudado recomeçaram os pedidos de pequenos favores, que pagavam em género, e pouco tempo depois tinha uma agenda tão preenchida que mal tinha tempo para respirar.
Observava dona Luísa a preparar o chá, para o lanche diário delas, quando pensou que tinha de perder o medo. Repensar no assunto não lhe iria elucidar algumas reservas que tinha a respeito.
- Estás muito pensativa. Está tudo bem? - dona Luísa deu-lhe uma chávena de chá.
- Sim. - Bella aceitou a chávena e ficou a brincar com a colher - Estou apenas a considerar uma possibilidade.
- E posso saber de que se trata essa possibilidade?!
- Esta situação dos favores.
- Pensei que gostasses.
- E gosto. Mas tenho de pensar na minha vida. No meu futuro.
- Vais voltar para a cidade?
- Oh, não! Não é isso. Acho que vou abrir um negócio.
- Um negócio... - Dona Luísa sentou-se frente a ela - Sim, seria bom para a vila. Fala-me sobre isso.
- Ainda estou a ponderar. - Bella agarrou um pedaço de bolo - Basicamente é fazer o que sempre tenho feito mas em troca de um valor. Tudo legal, com facturas e afins!
- Ou seja vais cobrar pelo que fazes.
- Acha mal?
- Não. Claro que não!
- Até acho mais justo para com as pessoas.
- Porquê?
- Porque, tirando a dona Antónia, todos arranjam forma de me pagar. Uns até demasiado.
- A Antónia?! Isso nem parece coisa dela, nunca foi forreta.
- E não é! Enquanto uns inventam desculpas para me darem o dinheiro, para a gasolina, para um café, para comprar algo bonito, para um livro... Ela dá em género. Ontem fui com ela à cidade para fazer uns exames e deu-me uma couve e um bolo de banana.- Bella sorriu. - E anteontem um cozido de grão e uma garrafa de vinho. Mas como a vila é tão pequena e a maioria das pessoas têm uma certa idade eu...
- Por isso mesmo! - Dona Luísa interrompeu-a - A maioria delas precisa de alguma coisa e não deves ter vergonha de pedires dinheiro pelo que fazes. Afinal estás a realizar um serviço em favor de outrem. Sim, acho que podes ser bem sucedida. E quem disse que tens de limitar os teus serviços à vila?! Podes oferecer os teus serviços nas aldeias vizinhas.
- Não acha que me pedem para fazer coisas porque têm pena de mim e querem manter-me ocupada? Como fiquei sozinha e isso tudo.
- Não sei. Mas de uma coisa tenho a certeza, porque o ouvi mais de uma vez. Confiam em ti e é bom ficar em casa quando está frio ou muito calor. Nada mais justo que pagar pela comodidade desfrutada.
- Acha?!
- Tenho a certeza.
- E que pensas fazer? Podes ser-me útil. Sabes que detesto tratar da pelada da sociedade.
- Nem pense que lhe vou cobrar por isso! A dona Luísa...
- Tu é que nem penses fazer algo sem cobrar! Que diriam os demais quando soubessem?!
- Não precisavam saber.
- Mas sabia eu e isso bastava. - dona Luísa deu uma gargalhada - Até parece que estamos a discutir o preço a pagar.
- Pois parece. - Belle bebeu mais um pouco de chá - Que diz? Acha viável?
- Acho que podes tentar, afinal não tens nada a perder.
- Pois não. Mas tenho de pensar antes de decidir.
E pensou muito bem, o dinheiro que o pai deixou não duraria para sempre e queria terminar os estudos. Independentemente da situação, futuramente aquele dinheiro iria fazer-lhe falta. Sem ele não poderia fazer face às despesas e muito menos voltar a estudar. Podia tentar por uns meses ou um ano se não resultasse procuraria um trabalho na cidade.
Depois de ponderar todas as hipóteses, decidiu estudar a partir de casa indo apenas à faculdade para fazer os exames e ficando com a maior parte do dia livre para trabalhar.
No verão seguinte "nascia" a "Faço por Si". Uma pequena empresa que prestava todo o tipo de serviços. Desde limpar a casa ou tratar da roupa, comprar pão, acompanhamento durante uma consulta ou para exames, levar as crianças à escola ou ficar com elas durante a noite, fazer pagamentos ou depósitos. Ela realizava todas as tarefas que lhe eram pedidas. Sorriu ao recordar o anúncio que colocara no jornal local e nos jornais locais das aldeias vizinhas.
"Não tem tempo ou simplesmente não quer realizar essa tarefa que tanto o/a aborrece?! Ou então não a consegue realizar sem ajuda?! Não se preocupe, posso ajudar ou então posso fazer por si. Basta entrar em contacto comigo"
O que começou como forma de passar o tempo transformou-se numa fonte de alguns rendimentos e quando deu por si tinha tantos clientes que precisou de contratar uma rapariga para a ajudar.
Mas em sete anos o pequeno negócio crescera, apesar de muitos dos serviços serem na vila ou nas aldeias vizinhas, muitas vezes tinha de se deslocar até à cidade e deixava Marisa encarregue das tarefas mais simples.
No dia que ia ao médico com alguém, trazia sempre exames, exames que colocava nas respectivas pastas e nesses dias acabava por se deitar demasiado tarde. Se fosse sincera consigo própria tinha de reconhecer que precisava de uma ajuda extra. Para si e para Marisa. A pobre rapariga não tinha jeito nenhum com crianças e não sabia conduzir, mas era uma excelente dona de casa e cozinhava como ninguém. Graças a ela pode incluir as refeições na sua lista de serviços e ficar encarregue da lavagem das roupas das casas rurais sempre que eram alugadas a turistas.
Definitivamente tinha de procurar quem ajudasse no mínimo três dias por semana ou corria o risco de adoecer e descuidar o seu trabalho. Ou pior. Que Marisa se despedisse visto o serviço aumentar quase diariamente. Com isso em mente começou a escrever o anúncio...
"Procuro rapariga jovem, responsável, dinâmica e com conhecimentos de secretáriado para realizar pequenas tarefas.
Serão fornecidos detalhes pessoalmente."
Antes que se arrependesse carregou no "enter" e ficou a olhar para o monitor do computador. Restava-lhe esperar mais dois dias. Dois dias era tudo o que a separava de ter mais uma pessoa dependente dela.
Abriu a agenda e olhou para as tarefas a realizar durante as semanas seguintes.
Ir à lavandaria na cidade recolher o fato do sr. Jacinto, arejar a casa do casal Mello, que estava de férias, recolher o correio e verificar as facturas a pagar, fazer o jantar para o sr. Pedro, ir ao supermercado com dona Joana, levar Branquinha ao veterinário, acompanhar a dona Marion à cidade para a reunião do clube de leitura...
Bella levantou-se repentinamente ao ouvir o som de um apito estridente e sentiu uma pontada no pescoço. Percebeu nessa altura que adormecera em cima da agenda. Massajou o pescoço e olhou para o relógio. Cinco da manhã! Passara a maior parte da noite a dormir em cima da mesa! Precisava urgentemente de arranjar alguém.
Temia não ouvir o despertador quando este tocasse duas horas mais tarde, mas estava tão cansada que se atirou para cima da cama sem pensar duas vezes. Mas contrariamente ao que pensava, não adormeceu. Ficou a olhar as luzes que entravam pela persiana e brincavam com a escuridão fazendo figuras no tecto.
Quando era criança adormecia muitas noites a olhar o luar que entrava pela janela e parecia pintar no tecto animais e flores.
Abraçou a almofada e recordou parte da sua vida.
Crescera numa pequena vila no norte de Portugal junto à fronteira com Espanha e regra geral fora feliz ali. Nunca conheceu a mãe, nem qualquer familiar além do pai. O pai passava o tempo em casa, pelo menos não tinha recordações de ele sair para trabalhar como os outros homens, enquanto ela percorria as ruas. Andava na escola quando soube que o pai era professor e devido a uma depressão trabalhava a partir de casa, mais precisamente no estúdio que existia ao lado do quarto dela. O estúdio era a única habitação que ela mantinha intacta, nas outras tinha alterado algo de modo a dar-lhe um toque pessoal.
Na cozinha tinha mandado instalar alguns electrodomésticos pois ainda tinha o velho fogão riscado de tanto ser esfregado, na sala de estar apenas trocara os sofás castanhos a imitar pele, por uns enormes de tecido preto e colocara-os em frente à lareira. Tinha adaptado uma sala como escritório e colocou papel de parede na casa de banho do piso inferior. Comprara cortinados para dois dos três quartos que ficavam no piso superior. No verão seguinte iria ligar a casa de banho ao seu quarto, ao qual ela trocara a mobília rosa e creme por um roupeiro de parede e uma cama de casal de tons escuros quando teve a infeliz ilusão de que Bruno era o homem perfeito.
Recordar Bruno mexia com o seu sistema nervoso, não que ainda sentisse algo por ele, mas não conseguia evitar sentir-se a mulher mais idiota ao cimo da terra ao lembrar que esteve apaixonada por um homem casado.

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