O CONTRATO 6ª PARTE
O silêncio dentro do carro tornou-se insustentável e ela resolveu folhear uma revista que tinha comprado no dia anterior. Como não conseguia concentrar-se na leitura recostou-se no banco e apreciou a paisagem. Algum tempo depois percebeu que tinham atravessado a fronteira e estavam em Verín na Galiza.
Quando Marc estacionou na parte lateral de uma vivenda com jardim, ela agradeceu por a viagem ter chegado ao fim.
- Has venido!
Uma menina de loiras tranças, vestindo umas calças azuis e uma camisola de gola alta branca, corria na direcção deles.
- Aqui está la niña mas guapa de españa!
- Tio...
- Ainda sabes falar português? - Marc agarrou a menina ao colo.
- Como la abuelita.
- Si...como la abuelita. - Marc beijou as faces da pequena carinhosamente - Quero apresentar-te Bella.
- Como la peli... - A criança calou-se e depois continuou num português perfeito - Desculpa. Como no filme da Bella e do Monstro?
- Achas que se parece com a Bella?! - Marc parecia outro homem.
- Hum... Também é bonita, mas tem o cabelo... Como se dice?!
- Encaracolado?! - Bella sorriu para a menina - Sou Isabela mas todos me chamam Bella, e tu como te chamas?
- Mari. E tenho dois irmãos. Tu tens irmãos?!
- Mari! Chega de perguntas.
Ao ouvir aquela pequena repreensão Bella olhou por cima do ombro de Marc e viu uma mulher de baixa estatura com um bebé ao colo e um menino agarrado à sua saia. Após um olhar mais atento percebeu que este era parecido com a pequena Mari.
- Chegaram cedo. - A mulher beijou Marc e depois Bella - Carmen, irmã de Marc. Estes são Bea e Pablo, gémeo de Mari.
- Prazer. - Bella olhou para a bebé - Tem quantos meses?
- Onze. - O olhar da mulher ficou sombrio ao olhar para a filha - Mas não fiquemos aqui.
Carmen começou a caminhar em direcção a casa. Bella olhou disfarçadamente para Marc enquanto corria atrás de Pablo. Estava mais descontraído, era como se o homem que ela conhecia tivesse desaparecido.
Pouco depois entravam numa sala enorme onde a lareira era o centro das atenções. Em frente a esta uns sofás pretos com almofadas cinza e muitos brinquedos espalhados pela carpete. Quando percebeu que estava sozinha com a irmã de Marc procurou-o com o olhar. Ainda o viu a ser "arrastado" pelos gémeos no jardim, ficou a olhar para eles por uns minutos. Quando voltou a concentrar-se em Carmen, esta colocava Bea no carrinho, depois sentou-se fazendo sinal para ela fazer o mesmo.
- Mandei preparar os vossos quartos, espero que gostes do teu. - Carmen sorriu e olhou atentamente para ela. - Sabias que iam ficar?
Bella ficou uns segundos a olhar para Carmen sem saber que dizer. Devia dizer-lhe que supostamente deviam partir essa mesma tarde?!
- Sim, Marc falou nisso. - Bella mentiu e olhou para o jardim.
Bella levantou-se e Carmen levantou-se também e ficaram as duas a olhar para o homem que corria pelo jardim com os sobrinhos.
- Adoramos quando ele vem. Infelizmente a vida não permite que o faça com a frequência que desejamos.
- Talvez ele pudesse mudar-se para mais perto.
- Não me parece, não agora que comprou o solar.
- Acho que vai ficar apenas por um ano. E o tempo passa rápido.
- Rápido demais... - Carmen fixou o irmão e depois olhou para ela - Ele simplesmente não te disse que iam ficar.
- Não.
- Ele não faz por mal. - Carmen voltou a indicar o sofá - Vamos sentar-nos. Marc disse que tens experiência com crianças.
- Alguma.
- E esta situação não te vai causar nenhum transtorno?
Bella olhou para ela sem entender a pergunta, porque haveria de causar?! Ela gostava de crianças e geralmente elas gostavam dela. Isso sem esquecer que muitas vezes, estas davam menos trabalho que os adultos. E embora estivesse em Espanha, certamente que não estava a infringir nenhuma lei ao cuidar dos filhos dela.
- Não. Deveria?
- Pensei em alguém daqui, mas depois Marc falou em ti... - Carmen calou-se e os seus olhos encheram-se de lágrimas.
- Está tudo bem?!
Perante a resposta que não chegava, Bella segurou-lhe a mão perguntando-se porque incomodava a Carmen o facto de deixar os filhos ao cuidado dela ou de outra pessoa qualquer. Ao olhar as lágrimas que caiam pelo rosto de Carmen recordou a forma de Marc resolver os assuntos. Ah não! Ele não seria capaz! Mas porque não?! Ele gostava que tudo e todos "funcionassem" como e quando ele queria! E tinha decidido que iam dormir ali sem a consultar!
- Sim... Apenas... Esquece.- Carmen levantou-se - Vou buscar café. Ou preferes chá?
- Café está óptimo. - Bella levantou-se também - Desculpa, podes dizer-me onde...
- Segunda porta à esquerda.
- Obrigada.
Bella percorreu o corredor e abriu a porta, era a casa de banho. Ela queria saber como ia para o jardim, não onde era a casa de banho! Se bem que era útil saber. Caminhou até à porta por onde entraram e seguiu os gritos das crianças.
O seu coração deu um salto ao ver Marc jogar à bola com os sobrinhos. O sorriso dele demonstrava o quão feliz estava e esqueceu tudo o que queria dizer-lhe. Um dia ele seria um bom pai. Mari viu-a e acenou-lhe e o irmão aproveitou para lhe tirar a bola o que originou uma corrida agitada em direcção a casa.
- Carmen?! - Marc aproximou-se dela.
- Foi fazer café. - Bella olhou-o fixamente - Lavada em lágrimas! Podes dizer-me porque tens de impor sempre as tuas ideias?! As pessoas não são obrigadas a fazerem as coisas só porque tu assim o decides!
- Impor as minhas ideias?!
- Sim! - Bella encarou-o - Como por exemplo, dormirmos aqui! Por acaso pensaste se eu queria ou podia?!
- Ah, então é isso que te incomoda.
- E não só! Porque tiveste de obrigar a tua irmã a aceitar-me e não a deixas contratar alguém em quem confie?
- Calma aí! - Marc interrompeu-a furioso - Ela disse isso?
- Não. Mas...
- Estou a ver... Chegaste a essa conclusão ao vê-la chorar. - Marc sorriu irónico - É muito gratificante perceber como me vês!
- Que querias que pensasse?!
- Mon dieu! - Marc passou a mão pelo cabelo exasperado - A minha irmã vai receber algumas pessoas para jantar e precisava de uma pessoa para cuidar das crianças. Como, desde que falou contigo, disse que queria conhecer-te achei boa ideia unir o útil ao agradável. E como egoísta que sou achei que podias aproveitar para passear e descansar.
- Não podias ter dito isso?
- E tu não podias dar-me o beneficio da dúvida?!
- Tio... - Mari puxou a mão dele visivelmente assustada - A mãe já fez café.
- Gracias mi vida.
Marc segurou a mão da pequena e dirigiu-se para casa enquanto ela ficou ali a olhar para o vazio. Ela via-o como uma pessoa egoísta?! Não! Talvez... No que dizia respeito a Marc não tinha a certeza de nada! A única coisa que estava segura era da atracção que se sentia por ele!
Algum tempo depois decidiu entrar. Quando chegou à sala Marc e Carmen falavam em espanhol, ao vê-la, Carmen colocou a mão no ombro do irmão e sorriu.
Depois daquele pequeno incidente Bella evitou falar com ele o que não foi complicado pois as crianças exigiam a sua atenção fazendo perguntas sobre a pequena vila. Depois do almoço Carmen deixou os filhos verem televisão e eles puderam falar um pouco mais calmamente.
A pedido da mãe, Mari acompanhou Bella ao andar de cima onde lhe mostrou o quarto onde Bea dormia e que era o quarto de Carmen, assim como os quartos dela e o do irmão que ficava em frente, seguindo para o que ela iria ocupar nessa noite que ficava ao lado do de Carmen e em frente ao de Marc.
Quando ao fim da tarde subiu com os gémeos, já sabia que a pequena gostava de pintar enquanto o irmão preferia fazer puzzles. Que todos os anos iam visitar a avó em França e que esta aproveitava o verão para visitar a filha. Que Bea chorava muito de noite mas, segundo Mari, eram saudades do pai.
Ao início teve alguma dificuldade em manter as crianças ocupadas, mas depois de alguns jogos e de lhes contar uma história, as crianças adormeceram esgotadas e até a pequena Bea dormia na sua caminha ao lado da cama de casal no quarto principal.
Olhou para as fotografias que estavam em cima da cómoda.
Carmen abraçava um homem mais velho que ela e muito parecido a Marc, noutra Carmen era o retrato da mais plena felicidade enquanto um jovem moreno beijava o seu rosto. A sua atenção foi captada por uma mulher mais velha vestida de preto, apesar do sorriso, a tristeza no olhar dela era tão visível quanto a felicidade no rosto de Carmen.
Bella abandonou o quarto quando ouviu passos no lado de fora do quarto e ao sair esbarrou num homem loiro.
- Perdón señorita. - O loiro sorriu largamente.
- Boa noite. - Bella fingiu não entender o que ele dizia.
- Oh, temos uma conterrânea. - Ele fez uma vénia - Xavier ao seu dispor. Que faz uma dama tão bela aqui escondida?
- A bela dama está ocupada.
Bella estremeceu ao ouvir Marc, não pelas palavras em si, mas pelo tom que ele usou.
- Desculpa Marc, eu vou...
À medida que ia falando Xavier ia aproximando-se das escadas até que as desceu sem olhar para trás.
- A minha irmã pediu para desceres.
- Agradeço imenso mas vou ficar.
- Será uma ofensa para ela, por isso vais descer!
- E se não quiser, vais obrigar-me?
- Porque não haverias de querer?! - Marc olhou-a com os olhos semicerrados - Estou a ver... Não vou permitir que te encontres novamente com Xavier!
- Como?! - Bella conteve a vontade de o esbofetear - Mas por quem me tomas?!
- O que fazias no quarto da minha irmã? Não era suposto...
- Não quero pensar na tua insinuação! - Bella levantou o queixo - E para tua informação fui ver Bea! Se não confias em mim devias ter arranjado outra pessoa!
E dito isto Bella entrou no quarto e bateu com a porta, o que acordou Mari. Abraçou a menina e lágrimas silenciosas começaram a cair pelo rosto dela enquanto trauteava uma canção para que Mari voltasse a adormecer.
A imagem das crianças dormindo serenamente recordaram-lhe o único apoio que teve, o pai. Sentindo um vazio enorme foi até à janela e abraçou os próprios braços enquanto olhava o céu nublado.
Perdeu a noção do tempo que ali ficou sentindo o peso da solidão, deixando as lágrimas escorrerem pelo rosto. Ainda tinha o rosto húmido quando a porta abriu lentamente.
- Não queres descer ? - Carmen aproximou-se dela e também ficou a olhar o vazio.
- Obrigada mas preferia ficar, estou cansada. - Bella recordou a conversa de Marc - Mas se insistires...
. Não! Claro que não.
Carmen saiu depois de beijar os filhos e ela foi para o seu quarto. Abriu a janela a aspirou o cheiro do jardim. Cheirava a erva fresca, a rosas e a lavanda?! O som de conversas chamou a sua atenção, olhou para baixo e viu algumas pessoas a dirigirem-se para os carros. Pouco depois apenas restava o carro de Marc.
Ficou mais um pouco na janela a olhar a pouca paisagem que a penumbra lhe deixava vislumbrar. Deitou-se quando a cabeça ameaçou rebentar. Depois de algum tempo desistiu de dormir e procurou o livro que tinha comprado mas sem sucesso. Quando voltava para a cama recordou que Mari lho pedira quando estavam na biblioteca. Vestiu o roupão que fazia conjunto com a camisa de dormir cinza que Carmen tinha deixado em cima da cama e desceu. A meio das escadas parou.
- Tens a certeza? - Carmen falava com o irmão.
- Pela primeira vez não tenho a certeza de nada.
- Quando a mãe souber...
- Pois...
- Compreendo que tenha sido uma surpresa.
- E que surpresa! Ainda estou em choque... Não sei lidar com isto. Entendes?! - Marc suspirou profundamente - Tenho medo. Depois de tudo...
Bella sentiu-se mal por estar a ouvir a conversa e regressou para o quarto. Consciente que ouvira parte de uma conversa privada e que esta dizia respeito à mãe de ambos deitou-se a pensar no pouco que ouvira. A conversa levava a crer que alguém estivesse doente, talvez fosse esse o motivo das lágrimas de Carmen. Talvez tivesse sido injusta ao acusar Marc. Ficou a pensar nele e em Carmen, assim como nos filhos desta, até que adormeceu.
Quando acordou tomou um duche e desceu pensando que iam embora assim que Marc acordasse mas Mari agarrou-se a ela pedindo para ficarem mais um pouco e ao olhar nos olhos azuis da menina não conseguiu dizer que não.
Apesar do frio que se fazia sentir passearam pela pequena vila. Bella ficou encantada com as paisagens e com a visita ao castelo que tinha vislumbrado quando chegaram no dia anterior.
Mari e Pablo corriam pelas ruela estreita quando perguntou a Marc o nome do castelo. Marc parecia admirado pela pergunta e olhou-a fixamente. Depois de pedir às crianças que regressassem disse que era o castelo de Monterrei e que datava do século XVI. Esperou que Marc continuasse a descrição, afinal aquela era a área dele, mas o relato ficou por ali.
Pablo e Mari sossegaram um pouco depois de lancharem num pequeno café. Depois do lanche o ambiente entre eles parecia mais descontraído e Bella deu por si a sorrir das histórias que ele contava.
Pouco depois avistavam o rio Sil, um rio de grande beleza afluente do Rio Minho, cheio de curvas, percursos e recantos espantosos!
Daquela vez não perguntou nada mas ele disse que o rio atravessava Montefurado. Que este se chamava assim porque o monte tinha sido realmente furado pelos romanos!
Mas que o buraco, na realidade era um túnel de 120m e fora construído pelos romanos para desviar o curso do rio e assim secar uma zona do seu leito para recolher o ouro que a água arrastava.
Quando chegaram a casa, Carmen tinha preparado a mesa para comerem algo e acabaram por partir apenas depois de jantar, prometendo regressar um dia.
Marc ligou o radio e ela pensou que ele não queria conversar. Sentindo-se um pouco triste com a atitude dele, encostou a cabeça no vidro concentrando-se na paisagem.
Enquanto as árvores iam passando ela pensou que devia por um ponto final em toda aquela situação. Tudo tinha acontecido muito depressa.
A seu favor podia dizer que se sentira atraída por ele antes de saber quem era, mas depois dormira com ele, coisa que não devia ter feito, pois...
- Notícia de última hora. Algumas estradas estão cortadas devido à queda de neve que caiu durante as últimas hora - A voz enumerou algumas estradas e depois continuou - por isso aproveitem a música que escolhi.
A voz de Elvis encheu o ar e ela olhou para ele. Parecia preocupado com alguma coisa.
- Algum problema?
- A estrada por onde vamos passar está cortada.
- Como cortada?
- Não podemos passar.
- Podemos dar a volta por outro lado qualquer!
- Não...
- Como não?! Deve haver alguma forma de contornar a situação!
- Há... dormir e esperar que amanhã possamos seguir viagem.
- Podíamos voltar para casa da tua irmã.
- E correr o risco de ficarmos presos no meio da neve?!
- Que fazemos?!
- O que disse anteriormente. Dormir.
- Mas eu não posso ficar! Tenho coisas a fazer amanhã bem cedo!
- E achas que eu quero ficar aqui?!
Não sabia explicar o motivo mas aquelas palavras magoaram-na. Era como se ele lhe estivesse a dizer que não queria a companhia dela.
- Pelos vistos não nos resta outra alternativa a não ser dormir no carro. - Bella aconchegou o casaco ao corpo.
- Vamos para uma pousada. - Marc escreveu algo no GPS -Felizmente há uma por perto.
- Uma pousada?! - Bella olhou para ele franzindo o sobrolho.
- Falavas a sério quando disseste que ficavas no carro?!
- Claro que sim!
- Estás louca se pensas que te vou deixar aqui.
- E tu se achas que vou contigo!
Marc parou o carro num pequeno parque e ficou a olhar para ela. Bella ignorou o olhar dele e ajeitou-se no banco tapando as pernas o melhor que conseguiu com o casaco. Marc respirou fundo e saiu do carro. Depois de contornar o carro abriu a porta dela.
- Caso não tenhas reparado está a começar a nevar. - Marc olhava impacientemente para ela.
- Aqui não!
- Vais gelar-te aqui!
- Vou ficar!
Bella olhou-o desafiante e Marc manteve o olhar dela por uns minutos depois resignou-se e encolhendo os ombros voltou-lhe costas.
- Quando recuperares a sensatez sabes onde me encontrar.
Bella olhava incrédula para ele. Ia realmente embora e deixava-a ali sozinha! Porque tinha de nevar?! Porque tinham de discutir por coisas tão idiotas?! E porque tinha ele de ter razão?!

Comentários
Enviar um comentário