DE VOLTA AO PASSADO 6º PARTE
Leonor ficou toda a tarde a pensar na conversa com Afonso. Numa simples conversa com a vizinha de cima, ele descobriu o que se passava na sua casa! Nunca pensou que as vizinhas ouvissem, possivelmente era tema de conversa na padaria do bairro. Ainda bem que raramente estava em casa, não suportaria que a olhassem com condescendência, nem queria ser o alvo da piedade alheia.
Fechou a livraria por uns instantes, precisava falar com a filha. Mas ninguém atendeu o telefone, possivelmente estava nas aulas e o seu irmão ainda estava a trabalhar. Deixou recado no voicemail, pedindo que lhe ligassem no dia seguinte durante a manhã, pois não queria correr o risco de Rui a ouvir.
Quando o marido chegou para a apanhar, olhou para ele e perguntou a si própria o porquê?!
Não percebia porque a tratava assim, não o amava, mas sempre o respeitou. Desde que decidiu casar com ele que nunca mais olhou para outro homem. Nos primeiros anos de casada, pensara que eram os ciúmes que o levavam agir assim, mas os anos passaram e nada mudou. Pelo contrário os "ataques" ficaram mais intensos quando a sua mãe foi falar com ele e meio disfarçadamente lhe pediu uma casa decente. Usando a desculpa, de que certamente ele quereria que a mãe da sua esposa vivesse de acordo com o estatuto social dele.
A partir daí tudo piorou, os ataques que eram apenas quando ela saia de casa para passear, começaram a ser constantes. Começou a acusá-la de casar por interesse, e a partir desse dia limitou o dinheiro que lhe dava, e deixou bem claro que se ela quisesse algo mais do que aquilo que ele estava disposto a dar-lhe, teria de trabalhar. As coisas melhoraram um pouco quando no segundo mês ela lhe disse que estava grávida, aí os ataques cessaram. Pelo menos até ao fim da gravidez. O filho que queria era uma menina. Sim, casara com ele por interesse, mas não no do seu dinheiro. Apenas queria dar um lar ao seu filho.
Mal entraram em casa ela subiu com a desculpa de que lhe doía a cabeça. Ele ficou no andar de baixo, reclamando qualquer coisa sobre o jantar, mas pela primeira vez ela não deu atenção.
Meteu-se no duche e deixou a água quente escorrer-lhe pelo corpo. Sentia-se oprimida, como se lhe faltasse o ar. Precisava de sair dali, apanhar ar, ar fresco! Levou as mãos aos lábios e lembrou a boca de Afonso sobre a sua. Deu por si a sorrir. Sentia no seu interior um formigueiro traquina que ameaçava levá-la a cometer uma loucura. Precisava de saber tanta coisa antes de resolver a sua vida. Afonso tinha razão, ela não tinha de viver assim. Sentia-se novamente com forças para lutar...
Vestiu umas calças de ganga e uma camisola. Olhou-se no espelho, ainda tinha boa figura, não estava nada mal para quem está nos entas e já era mãe! Ainda vestia o seu 40 de toda a vida.
Desceu as escadas a correr e pegou no casaco.
-Onde pensas que vais vestida dessa maneira?- perguntou o marido olhando-a com desaprovação
- Vou sair, preciso de apanhar ar.
-E quem disse que...
O que ele estava a dizer ficou do outro lado da porta, porta essa que Leonor fechou com força.
Quando o ar da rua lhe bateu na cara primeiro sentiu medo...e se estivesse a cometer um erro ao enfrentar o marido? E se Afonso...
-CHEGA! -gritou para a noite.
Não soube se a ouviram, pois não ficou tempo suficiente para ver se alguém vinha espreitar.
Respirando fundo caminhou sem saber para onde ia, sabia apenas que queria ir para bem longe dali. Precisava de pensar.
Apanhou um táxi e pediu para a deixar na baixa...sempre gostara da baixa.
Entrou no primeiro café que encontrou e sentou-se numa mesa afastada das janelas e da porta. Queria estar sozinha.
Leonor embrenhou-se nos seus pensamentos sem perceber que a olhavam com curiosidade. O café estava cheio de casais namoriscando.
Pensou em tudo o que fez para agradar a todos menos a si mesma.
Se não fosse tão insegura, quando ficou grávida, teria enfrentado tudo e todos sozinha sem necessidade de casar, não seria a primeira mãe solteira. Mas teve medo de enfrentar a mãe...De enfrentar os preconceitos de uma sociedade atrasada, onde a mulher tem o papel de serva obediente do esposo! Não podia ficar em Lisboa, não queria ser alvo da chacota dos amigos de Afonso, teria de voltar para a terra e lá ser mãe solteira não seria fácil. E possivelmente a sua mãe deixaria de lhe falar pois era uma vergonha. Pensava que ao casar com Rui tudo se resolveria. Mas não foi assim. Piorou e bem, a sua mãe não aguentou e... afastou aqueles pensamentos tristes.
-Desculpe, sabe me dizer se há alguma pensão aqui perto?- perguntou à senhora do balcão- Era só por uma noite ou duas.
-Aqui perto não há nada. Mas espere. Guilherme?- chamou para dentro da cozinha- Olha lá, a tua mãe ainda está a alugar quartos aos estudantes?
-Mas eu não sou...- começou por dizer
-Ninguém lhe vai perguntar a idade. - disse a senhora a sorrir- Não tem cara de assaltante. - Um moço franzino apareceu - Desembucha rapaz!
-Boa noite minha senhora.-cumprimentou ele meio envergonhado-Tem mas é muito simples...
-Serve perfeitamente- disse Leonor- Se me puder indicar onde é agradecia.
-Vou anotar a morada...
-Vais é tirar o avental e acompanhar a senhora até lá. Vamos mexe-te. Estes rapazes de hoje, são tão moles!
- Obrigada mas não é preciso, posso ir sozinha.
-Minha querida, claro que precisas! Do que andas a fugir?!- perguntou olhando-a de olhos semicerrados.
-Porque diz que ando a fugir?-aquela mulher começava a dar-lhe arrepios, a mulher soltou uma gargalhada funda.
-Minha filha,tenho muitos anos atrás deste balcão. Já vi muita coisa... e todos andamos a fugir de algo não é verdade?
-Possivelmente.
- Mas se calhar estou a fazer o que gostava que me tivessem feito, ou então a pagar o que me fizeram, ou a outra mulher qualquer. Quem sabe?! Ah... ali está ele, depois de lavado até fica apresentável.
-Obrigada.
-Fé minha filha. Muita fé. O sol começa a brilhar ao fundo iluminado todo o horizonte.
-É por aqui.- disse o rapaz
-A sua patroa. Ela...
-É boa pessoa. Há quem diga que é meio bruxa, outros que tem descendência cigana. A minha mãe diz que isso nada importa. O que importa é o coração enorme dela.
-E tem razão. Um bom coração. Já não há muitos.
-Mas ela acerta em tudo. Ás vezes acho que consegue ver a nossa alma quando olha nos olhos da gente. Chegámos. - disse abrindo a porta e desviou-se para ela entrar.
- Obrigada, não é preciso chamar a sua mãe?- nesse instante uma mulher baixinha e gorda apareceu do nada.
-Boa noite menina, sou Francisca a mãe do Guilherme, a D. Elisa ligou a avisar que vinha. Podes voltar para o café. Entre menina, não é nada luxuoso, mas é limpo.
Em 5 minutos ficou a saber onde era o quarto e a casa de banho, que teria de ser dividida pelas raparigas que estavam ali hospedadas. Pediu-lhe se fosse possível para ela usar a casa de banho depois das oito, pois as raparigas iam para a faculdade e andavam sempre atrasadas.
Concordou e despediu-se. Estava esgotada queria descansar. Despiu-se, percebeu então que não tinha nem umas cuecas limpas. Riu-se ao mesmo tempo que se atirou para cima da cama.
Ainda estava estupefacta por ter saído de casa assim sem pensar... mas quando pensou muito as coisas não correram bem, talvez assim as coisas corressem melhor. A lua brilhava lá fora e olhou-a sonhadora. Afonso também estaria a olhar a lua? Adormeceu sorrindo e acordou quando bateram à porta.
-Sim.-disse meio confusa
- Bom dia menina. Mas são quase 10 horas... está tudo bem?- perguntou D. Francisca
-Já?! Desculpe, não costumo dormir até tão tarde.
-Se calhar precisava. Vou preparar-lhe um pequeno almoço reforçado. - Esta saiu deixando Leonor sozinha.
Deixou a pensão assim que tomou o pequeno almoço. Passou no centro comercial e comprou algumas coisas que lhe faziam falta. Era quase hora de almoço quando chegou à livraria. Olhou para o chão, um papel dobrado estava no chão, apanhou-o a medo. Seria do marido? E se fosse? O pior já tinha feito. Desdobrou-o era de Afonso. E dizia:
Não podes desaparecer assim,
Estou à tua espera na estufa fria.
No sítio de sempre.
Não faltes
Afonso

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