PERFEITO ESTRANHO 4º PARTE
Os dias passavam fugindo, e a cada dia que passava ela sentia-se mais à vontade com ele. Ela tinha razão,o desejo dele por ela tinha terminado, o que não era surpresa nenhuma,os homens tendiam a cansar-se dela, mas sentia um pouco de tristeza ao pensar nisso, principalmente quando levava as noites sonhando com ele. Mas ela sabia que era melhor assim. Depois daquele dia nunca mais tentou tocá-la, nem almoçavam juntos. Ele almoçava no escritório, mas insistia em que ela fosse almoçar com Bela. A amizade entre as duas crescia e começava a confiar nela, até nas coisas mais intimas.Um dia acabou por lhe contar sobre Pedro. Há muito tempo que não falava do assunto, e para sua surpresa percebeu que o nó que sentia no estômago, sempre que pensava nele, tinha desaparecido. Estava definitivamente arrumado, ficara finalmente no passado.
- Tens de arranjar um namorado. Com a tua idade e a tua cara não te devem de faltar pretendentes.
- Não estou interessada. Nem tenho tempo para isso.
- Mas um dia, ele vai chegar. O amor não pergunta se estás disponível. Ele chega, instala-se e só tens uma alternativa, aproveitar. Estejas ou não preparada.
- Agradeço a tua preocupação com a minha vida amorosa, mas agora temos de ir tratar da outra. Acaso achas que é fácil arranjar um namorado, com paciência suficiente, para aturar este horário louco que tenho?
- Não desperdices o que te é oferecido, seja por medo de sofrer ou medo do que vão dizer. Muitas vezes, as coisas estão mesmo à nossa frente, nós é que não as vemos.
-Que queres dizer com isso?
- Nada. Devem de ser coisas da minha cabeça. Vamos trabalhar antes que nos despeçam.
O dia passou rapidamente, havia muita coisa a tratar, para que pudessem sair bem cedo para o norte no dia seguinte. A noite já ia alta quando deram o dia por terminado.
Quando Cristy chegou ao estacionamento, restava apenas o carro dela e o de Carlo, apressou-se a entrar no carro para escapar ao frio, deu à chave várias vezes mas o seu carro não pegava! Tinha de pedir ajuda a Carlo. Mas ele perceberia de mecânica? Talvez tanto como ela. Olhou o relógio, 23h! Talvez o seu mecânico ainda estivesse acordado. Depois de pedir desculpas vezes sem fim, lá lhe explicou que se passava. Viria assim que se vestisse e deixava-a a casa se fosse preciso.
Estava a ficar congelada. Nunca mais sairia de casa sem um casacão enorme, e bem grosso! Tinha a sensação que até os ossos estavam congelados. Andava de um lado para o outro, tentando aquecer-se, quando o carro de Carlo parou junto a ela.
- Que se passa?
- Nada de mais. O carro não pega. Já chamei o mecânico.
Carlo já tinha descido do carro e estava junto a ela.
- Podes dar à chave?
- Não é preciso, não deve demorar.
- Fazes-me a vontade?
- Com certeza.
Lá estavam outra vez, irritavam-se mutuamente.Ela deu à chave mas o carro não dava sinal de vida.
- Eu disse.
- Parece ser o motor de arranque.
Carlo dirigiu-se ao seu carro e tirou de lá o casaco, coloco-o sobre os seus ombros
- Estás gelada. Tens a certeza que ele vem?
- Quem?
- O mecânico. Podes deixar aqui o carro e deixo-te em casa. Amanhã resolve-se isto.
- Amanhã vamos para cima, eu não gosto de deixar coisas por resolver.E se ele disse que vem é porque vem!
- Então entra no carro, está um frio danado.
Ela voltou-lhe costas e ia a entrar no carro,quando ele lhe gritou
- No meu carro!
- O meu serve perfeitamente.
- Deixas de te comportar como uma criança, e entras no carro? O teu não trabalha, logo não tens forma de te aquecer.
Embora relutante, não teve alternativa se não concordar, entrou relutante no carro e sentou-se no banco bem junto à porta. Já lhe bastava ter o cheiro dele a entrar-lhe pelo nariz . Não queria sentir o calor do corpo dele também. Podia jurar, que mesmo àquela distancia, sentia o calor que emanava do corpo dele.
- Podes relaxar. Não te vou atacar.
- Nunca se sabe
- Nunca obriguei mulher nenhuma a ir para a minha cama, não penso começar contigo.
- É bom saber.
Cristy não estava a gostar do rumo da conversa. Mulheres! No plural! E na cama dele! Não. não gostava de pensar nelas. Felizmente o Sr. Raimundo chegou pouco depois. Depois de ver o carro chegou à conclusão que era o motor de arranque! Ia demorar uns bons dias a resolver o problema. O Sr. Raimundo ofereceu-se para a levar, mas Carlo insistiu em ser ele a levá-la, gesto que o Sr. Raimundo agradeceu, assim podia seguir directamente para a oficina.
Cristy estava a ficar nervosa,ele conduzia depressa demais!
- Se vais conduzir assim o resto do caminho podes encostar que vou a pé!
- Não estás com pressa de te ver livre de mim?
- Mas quero chegar viva a casa. De que me adianta livra-me de ti se morro antes?
- Não estás a exagerar um pouco?
- Não me parece exagero algum.
Carlo murmurou algo que ela não percebeu mas começou a conduzir mais devagar. Vinte minutos depois estava em casa.
- Chegas-te viva. Apanho-te às sete em ponto.
- Obrigada.
Não sabia se ele a ouviu, pois mal tinha fechado a porta, já ele tinha arrancado. Ainda ficou um pouco na estrada, olhando as luzes do carro afastando-se na noite. Ajeitou o casaco que escorregou dos ombros. Deixou ficar o casaco! Aconchegou-se nele e entrou em casa. Napoleão dormia no sofá, abriu os olhos quando ela fechou a porta, para os voltar a fechar em seguida.
- Que calorosa recepção! A isto se resume o interesse masculino a respeito da minha pessoa!
Cristy dormiu já de madrugada. Imaginar que teria de fazer a viagem até ao norte com ele, mexia com a sua imaginação. Acordou com o bater na porta. Olhou o relógio. Eram seis e vinte. Faltavam dez minutos para tocar o despertador. Quem seria a esta hora. Carlo teria resolvido sair mais cedo? Confirmou no telemovel se tinha uma chamada dele. Nada!
- Já vai. Quem é?
- É o Pedro.
- Pedro?!
- Abre por favor. Preciso de falar contigo
- À muito que não temos nada a dizer. Vai para casa ou chamo a policia.
- Por favor... estou de partida e tenho de resolver algumas coisas. Faz parte do programa.
- Que programa?
- O que estou a fazer.
Cristy abriu a porta, ele entrou. Estava abatido e mais magro. Olhou o relógio,tinha uns minutos antes de Carlo chegar. Fez café,ela bem precisava.
Pedro contou-lhe que conheceu uma rapariga de quem gostava de verdade. Mas a bebida e as mulheres acabaram por se meter entre eles. Ela deu-lhe a escolher, tratava-se ou ela deixava-o para sempre. Estava sóbrio à um ano e estava na fase dos passos. Agora tinha de lhe pedir desculpa por tudo o que a fez sofrer.
Pedro chorava, não parecia o mesmo. Ela não se lembrava de o ter visto sóbrio alguma vez. Deu-lhe os parabéns e pediu desculpa mas ela tinha de se despachar, estava atrasada. Vestiu o robe e acompanhou-o à porta. Abraçou-o e desejou-lhe sorte.
Ficou gelada,no outro lado da rua Carlo observava a cena. Fingiu não o ver. Entrou em casa, faltavam pouco mais de cinco minutos. Meteu-se no duche. Quando acabou Carlo batia à porta.
- Ainda não são sete horas.
Ela olhava-o de frente, se ele pensava que tinha passado a noite com Pedro era muito bem feito. Talvez aprendesse, a não lhe esfregar as "suas" mulheres na cara.
- Estás pronta ou o teu amante não te deixou dormir.
- Dormi lindamente. Quando quiseres.
- Então vamos.
Carlo esperou, enquanto ela confirmava se tinha tudo desligado, e se Napoleão tinha água e comida suficiente. Napoleão nem se mexeu do sofá.
Fizeram duas horas de caminho em silêncio. O clima cortava-se à faca. De repente ele guinou o carro para fora da estrada e travou bruscamente.
- Estás doido? Já me estou a arrepender de não ter ido...
Carlo beijou-a sem mais. A principio ela tentou esquivar-se, mas por pouco tempo. O beijo que começara bruscamente, começou a ficar mais suave e instantes depois ela rendia-se aos seus beijos.
- Carlo, por favor!
Cristy respirava com dificuldade, nesse momento podia pedir-lhe o que quisesse, estava completamente à sua mercê...
- É só para que conste.
Da mesma maneira que começou, assim terminou. Carlo voltou à estrada, enquanto Cristy o amaldiçoava por ter esse poder sobre ela, e se amaldiçoava a ela própria por não lhe resistir.
Algum tempo depois, o telemovel dela tocou. Pediu desculpa e atendeu.
- Sim?
- Desculpa filha. Sei que estás a trabalhar, mas preciso de te perguntar uma coisa
- Não tem problema D. Maria. Diga.
- É o Napoleão.
- Passa-se algo com ele?
- Além da preguiça nada mais. O Vítor faz anos e o André vem buscar-me para passar uns dias com eles na quinta. Era para te dizer que levo o Napoleão
- O André não se vai importar?
- Sabes que ele adora o Napoleão. E ele não dá trabalho nenhum.Mas não queria ir sem saberes que o levo. Como lá não há telefone achei melhor dizer-te. Nós vamos agora para lá.
- Não queria dar-lhe tanto trabalho!
- Não é trabalho nenhum.
- Obrigada D. Maria e dê um beijinho ao André e ao Vítor. E muito parabéns.
- Dou sim filha, faz boa viagem.
Cisty fingiu que revia uns papeis com as indicações para a inauguração da nova galeria. A meio da viagem pararam numa área de serviço.
- Vamos,tenho de beber um café.
Segui-o sem dizer uma palavra. Carlo pediu dois cafés e sentaram-se numa mesa.
- Quem era?
- A minha vizinha.
- Algum problema?
- Não.
- Então ligou para dizer olá!
- Ligou por causa do Napoleão
- Aconteceu-lhe algo?
- Não.
- Podes desenvolver pelo amor de Deus?! A viagem vai ser interminável se o ambiente está assim entre nós.
- E de quem é a culpa?
- Se te faz sentir melhor eu dou-me por culpado. Desde que não digas que não estavas a gostar,porque isso não acredito!
Se tivesse ali um buraco tinha-se enfiado nele. Ela gostara sim. Mas uma coisa era ela ter consciência disso, e outra era ele também saber!
Carlo sorriu e agradeceu à empregada que foi levar os cafés.
- O Napolão?!
- Está de viagem. A D. Maria vai para a quinta do filho e leva-o, pedi-lhe que lhe desse de comer estes dias e agora vê-se com um burro às costas!
- Se não o quisesse levar seguramente o diria. E ao ar livre pode ser que ele sinta vontade de se mexer. Sabes que os animais precisam de espaço e isso é coisa que não tens.
-Não precisam só de espaço. Segundo eles, o que precisava com urgência, era amor e carinho.
- Quem não?!
-Quando o adoptei não me disseram que ele ficaria tão grande.
- Enganaram-te,pois esta raça cresce muito.
- Pois, isso eu já vi!
- Quem faz anos? O filho ou o neto?
- O Vítor não é neto, nem filho da D. Maria. É namorado do filho.
Carlo quase que se engasgou com o café.
- Namorado?!
- Sim. Não me digas que tens preconceitos a esse respeito?
- Nunca pensei nisso. Tu não tens?
- Não. Acho que se a pessoa é feliz assim, ninguém tem nada que ver com isso.
- Suponhamos que tens um filho, e escolhe namorar com um rapaz, tu achas normal?
- Normal ou não isso não interessa. O que importa seguir os padrões normais da decência e tudo o mais, se depois brigam ou traem o parceiro? Ou as duas coisas ao mesmo tempo? Uma vida de fingimento, só para agradar aos demais, arruína a vida de qualquer um! O que realmente importa é que seja feliz com as escolhas que faz.
- Tens razão.
Quando chegaram ao Porto era quase hora do almoço. Foram almoçar e depois começaram a tratar dos preparativos para a inauguração da galeria. Carlo foi para cima rever os contratos e ela ficou a ajudar na decoração do espaço.
Quando Carlo desceu, entraram em desacordo, ele e Cristy, não concordavam com a escolha do quadro principal. A rapariga encarregue de decorar o evento era inexperiente, o que veio atrasar as coisas. E Carlo não tinha paciência nenhuma.A rapariga estava quase a chorar.
- Porque não telefonas a pedir que venha a responsável?
Voltaram-se para o local de onde vinha aquela voz. Uma loira espampanante sorriu para Carlo e pendurou-se no seu pescoço. Cristy teve vontade de se atirar a ela! Só podia ser uma das suas amantes!
- Carlo! Continuas na mesma. Não sossegas um segundo.
- Andrea! Que fazes aqui? Não sabia que vinhas.
- Sabes que há coisas que tenho de ver com os meus próprios olhos.
Abraçaram-se. Cristy afastou-se dali, uma coisa era saber que ele tinha amantes, outra era presenciar a cena. Levou consigo a rapariga e tentaram chegar a um acordo sobre a distribuição dos quadros.
O trabalho evitou que pensasse nele o resto da tarde. No inicio da noite convidaram-na para ir jantar com eles, mas inventou uma dor de cabeça e ficou no hotel. Sentou-se no sofá em frente ao televisor e pensou em Pedro. Conheciam-se desde sempre e quando a pediu em namoro ficou encantada,,afinal tinha 15 anos e era a única que não namorava. Com o passar dos anos, os ciúmes foram tomando conta da relação. Os amigos começaram a afastar-se dela. Ele comandava a sua vida, até as roupas eram escolhidas por ele! A namorada dele, não andava a mostrar as carnes aos demais. Ela apenas saía se ele saísse. Depois de muito insistir com ela, lá fizeram amor. Não achou a coisa tão especial como Ana contava, mas se iam casar tinha de se sujeitar. Ele começou a dormir lá em casa quando queria. E se antes a bebida fazia parte da vida dele, depois disso aumentou a permanência. Mas como não a chateava, para ela estava tudo bem, até ao dia em que se esqueceu do telemóvel em casa, na pausa do café voltou para o apanhar, e deu com Pedro na sua cama com Rita. Segundo ele a culpada era ela por ser frígida. Fazer amor com uma boneca insuflável era mais animado que com ela! As palavras tiveram um efeito devastador. Chegou mesmo a pesquisar o que era frígida. E depois de saber convenceu-se que era. Nunca desejara estar com Pedro, evitava as suas caricias, nem os seus beijos lhe despertavam qualquer tipo de desejo. Totalmente o oposto do que sentia com Carlo! Deixou-se dormir a ver televisão. Era quase duas da manhã quando se ouviu barulho no quarto ao lado. Tinha chegado. Aconchegou.-se no sofá e adormeceu abraçada à almofada enquanto lágrimas caiam pela sua face. Precisara de ir até ao norte para constatar que o amava! Estava apaixonada por ele... e amá-lo só implicava uma coisa. Sofrimento, muito sofrimento!
- Tens de arranjar um namorado. Com a tua idade e a tua cara não te devem de faltar pretendentes.
- Não estou interessada. Nem tenho tempo para isso.
- Mas um dia, ele vai chegar. O amor não pergunta se estás disponível. Ele chega, instala-se e só tens uma alternativa, aproveitar. Estejas ou não preparada.
- Agradeço a tua preocupação com a minha vida amorosa, mas agora temos de ir tratar da outra. Acaso achas que é fácil arranjar um namorado, com paciência suficiente, para aturar este horário louco que tenho?
- Não desperdices o que te é oferecido, seja por medo de sofrer ou medo do que vão dizer. Muitas vezes, as coisas estão mesmo à nossa frente, nós é que não as vemos.
-Que queres dizer com isso?
- Nada. Devem de ser coisas da minha cabeça. Vamos trabalhar antes que nos despeçam.
O dia passou rapidamente, havia muita coisa a tratar, para que pudessem sair bem cedo para o norte no dia seguinte. A noite já ia alta quando deram o dia por terminado.
Quando Cristy chegou ao estacionamento, restava apenas o carro dela e o de Carlo, apressou-se a entrar no carro para escapar ao frio, deu à chave várias vezes mas o seu carro não pegava! Tinha de pedir ajuda a Carlo. Mas ele perceberia de mecânica? Talvez tanto como ela. Olhou o relógio, 23h! Talvez o seu mecânico ainda estivesse acordado. Depois de pedir desculpas vezes sem fim, lá lhe explicou que se passava. Viria assim que se vestisse e deixava-a a casa se fosse preciso.
Estava a ficar congelada. Nunca mais sairia de casa sem um casacão enorme, e bem grosso! Tinha a sensação que até os ossos estavam congelados. Andava de um lado para o outro, tentando aquecer-se, quando o carro de Carlo parou junto a ela.
- Que se passa?
- Nada de mais. O carro não pega. Já chamei o mecânico.
Carlo já tinha descido do carro e estava junto a ela.
- Podes dar à chave?
- Não é preciso, não deve demorar.
- Fazes-me a vontade?
- Com certeza.
Lá estavam outra vez, irritavam-se mutuamente.Ela deu à chave mas o carro não dava sinal de vida.
- Eu disse.
- Parece ser o motor de arranque.
Carlo dirigiu-se ao seu carro e tirou de lá o casaco, coloco-o sobre os seus ombros
- Estás gelada. Tens a certeza que ele vem?
- Quem?
- O mecânico. Podes deixar aqui o carro e deixo-te em casa. Amanhã resolve-se isto.
- Amanhã vamos para cima, eu não gosto de deixar coisas por resolver.E se ele disse que vem é porque vem!
- Então entra no carro, está um frio danado.
Ela voltou-lhe costas e ia a entrar no carro,quando ele lhe gritou
- No meu carro!
- O meu serve perfeitamente.
- Deixas de te comportar como uma criança, e entras no carro? O teu não trabalha, logo não tens forma de te aquecer.
Embora relutante, não teve alternativa se não concordar, entrou relutante no carro e sentou-se no banco bem junto à porta. Já lhe bastava ter o cheiro dele a entrar-lhe pelo nariz . Não queria sentir o calor do corpo dele também. Podia jurar, que mesmo àquela distancia, sentia o calor que emanava do corpo dele.
- Podes relaxar. Não te vou atacar.
- Nunca se sabe
- Nunca obriguei mulher nenhuma a ir para a minha cama, não penso começar contigo.
- É bom saber.
Cristy não estava a gostar do rumo da conversa. Mulheres! No plural! E na cama dele! Não. não gostava de pensar nelas. Felizmente o Sr. Raimundo chegou pouco depois. Depois de ver o carro chegou à conclusão que era o motor de arranque! Ia demorar uns bons dias a resolver o problema. O Sr. Raimundo ofereceu-se para a levar, mas Carlo insistiu em ser ele a levá-la, gesto que o Sr. Raimundo agradeceu, assim podia seguir directamente para a oficina.
Cristy estava a ficar nervosa,ele conduzia depressa demais!
- Se vais conduzir assim o resto do caminho podes encostar que vou a pé!
- Não estás com pressa de te ver livre de mim?
- Mas quero chegar viva a casa. De que me adianta livra-me de ti se morro antes?
- Não estás a exagerar um pouco?
- Não me parece exagero algum.
Carlo murmurou algo que ela não percebeu mas começou a conduzir mais devagar. Vinte minutos depois estava em casa.
- Chegas-te viva. Apanho-te às sete em ponto.
- Obrigada.
Não sabia se ele a ouviu, pois mal tinha fechado a porta, já ele tinha arrancado. Ainda ficou um pouco na estrada, olhando as luzes do carro afastando-se na noite. Ajeitou o casaco que escorregou dos ombros. Deixou ficar o casaco! Aconchegou-se nele e entrou em casa. Napoleão dormia no sofá, abriu os olhos quando ela fechou a porta, para os voltar a fechar em seguida.
- Que calorosa recepção! A isto se resume o interesse masculino a respeito da minha pessoa!
Cristy dormiu já de madrugada. Imaginar que teria de fazer a viagem até ao norte com ele, mexia com a sua imaginação. Acordou com o bater na porta. Olhou o relógio. Eram seis e vinte. Faltavam dez minutos para tocar o despertador. Quem seria a esta hora. Carlo teria resolvido sair mais cedo? Confirmou no telemovel se tinha uma chamada dele. Nada!
- Já vai. Quem é?
- É o Pedro.
- Pedro?!
- Abre por favor. Preciso de falar contigo
- À muito que não temos nada a dizer. Vai para casa ou chamo a policia.
- Por favor... estou de partida e tenho de resolver algumas coisas. Faz parte do programa.
- Que programa?
- O que estou a fazer.
Cristy abriu a porta, ele entrou. Estava abatido e mais magro. Olhou o relógio,tinha uns minutos antes de Carlo chegar. Fez café,ela bem precisava.
Pedro contou-lhe que conheceu uma rapariga de quem gostava de verdade. Mas a bebida e as mulheres acabaram por se meter entre eles. Ela deu-lhe a escolher, tratava-se ou ela deixava-o para sempre. Estava sóbrio à um ano e estava na fase dos passos. Agora tinha de lhe pedir desculpa por tudo o que a fez sofrer.
Pedro chorava, não parecia o mesmo. Ela não se lembrava de o ter visto sóbrio alguma vez. Deu-lhe os parabéns e pediu desculpa mas ela tinha de se despachar, estava atrasada. Vestiu o robe e acompanhou-o à porta. Abraçou-o e desejou-lhe sorte.
Ficou gelada,no outro lado da rua Carlo observava a cena. Fingiu não o ver. Entrou em casa, faltavam pouco mais de cinco minutos. Meteu-se no duche. Quando acabou Carlo batia à porta.
- Ainda não são sete horas.
Ela olhava-o de frente, se ele pensava que tinha passado a noite com Pedro era muito bem feito. Talvez aprendesse, a não lhe esfregar as "suas" mulheres na cara.
- Estás pronta ou o teu amante não te deixou dormir.
- Dormi lindamente. Quando quiseres.
- Então vamos.
Carlo esperou, enquanto ela confirmava se tinha tudo desligado, e se Napoleão tinha água e comida suficiente. Napoleão nem se mexeu do sofá.
Fizeram duas horas de caminho em silêncio. O clima cortava-se à faca. De repente ele guinou o carro para fora da estrada e travou bruscamente.
- Estás doido? Já me estou a arrepender de não ter ido...
Carlo beijou-a sem mais. A principio ela tentou esquivar-se, mas por pouco tempo. O beijo que começara bruscamente, começou a ficar mais suave e instantes depois ela rendia-se aos seus beijos.
- Carlo, por favor!
Cristy respirava com dificuldade, nesse momento podia pedir-lhe o que quisesse, estava completamente à sua mercê...
- É só para que conste.
Da mesma maneira que começou, assim terminou. Carlo voltou à estrada, enquanto Cristy o amaldiçoava por ter esse poder sobre ela, e se amaldiçoava a ela própria por não lhe resistir.
Algum tempo depois, o telemovel dela tocou. Pediu desculpa e atendeu.
- Sim?
- Desculpa filha. Sei que estás a trabalhar, mas preciso de te perguntar uma coisa
- Não tem problema D. Maria. Diga.
- É o Napoleão.
- Passa-se algo com ele?
- Além da preguiça nada mais. O Vítor faz anos e o André vem buscar-me para passar uns dias com eles na quinta. Era para te dizer que levo o Napoleão
- O André não se vai importar?
- Sabes que ele adora o Napoleão. E ele não dá trabalho nenhum.Mas não queria ir sem saberes que o levo. Como lá não há telefone achei melhor dizer-te. Nós vamos agora para lá.
- Não queria dar-lhe tanto trabalho!
- Não é trabalho nenhum.
- Obrigada D. Maria e dê um beijinho ao André e ao Vítor. E muito parabéns.
- Dou sim filha, faz boa viagem.
Cisty fingiu que revia uns papeis com as indicações para a inauguração da nova galeria. A meio da viagem pararam numa área de serviço.
- Vamos,tenho de beber um café.
Segui-o sem dizer uma palavra. Carlo pediu dois cafés e sentaram-se numa mesa.
- Quem era?
- A minha vizinha.
- Algum problema?
- Não.
- Então ligou para dizer olá!
- Ligou por causa do Napoleão
- Aconteceu-lhe algo?
- Não.
- Podes desenvolver pelo amor de Deus?! A viagem vai ser interminável se o ambiente está assim entre nós.
- E de quem é a culpa?
- Se te faz sentir melhor eu dou-me por culpado. Desde que não digas que não estavas a gostar,porque isso não acredito!
Se tivesse ali um buraco tinha-se enfiado nele. Ela gostara sim. Mas uma coisa era ela ter consciência disso, e outra era ele também saber!
Carlo sorriu e agradeceu à empregada que foi levar os cafés.
- O Napolão?!
- Está de viagem. A D. Maria vai para a quinta do filho e leva-o, pedi-lhe que lhe desse de comer estes dias e agora vê-se com um burro às costas!
- Se não o quisesse levar seguramente o diria. E ao ar livre pode ser que ele sinta vontade de se mexer. Sabes que os animais precisam de espaço e isso é coisa que não tens.
-Não precisam só de espaço. Segundo eles, o que precisava com urgência, era amor e carinho.
- Quem não?!
-Quando o adoptei não me disseram que ele ficaria tão grande.
- Enganaram-te,pois esta raça cresce muito.
- Pois, isso eu já vi!
- Quem faz anos? O filho ou o neto?
- O Vítor não é neto, nem filho da D. Maria. É namorado do filho.
Carlo quase que se engasgou com o café.
- Namorado?!
- Sim. Não me digas que tens preconceitos a esse respeito?
- Nunca pensei nisso. Tu não tens?
- Não. Acho que se a pessoa é feliz assim, ninguém tem nada que ver com isso.
- Suponhamos que tens um filho, e escolhe namorar com um rapaz, tu achas normal?
- Normal ou não isso não interessa. O que importa seguir os padrões normais da decência e tudo o mais, se depois brigam ou traem o parceiro? Ou as duas coisas ao mesmo tempo? Uma vida de fingimento, só para agradar aos demais, arruína a vida de qualquer um! O que realmente importa é que seja feliz com as escolhas que faz.
- Tens razão.
Quando chegaram ao Porto era quase hora do almoço. Foram almoçar e depois começaram a tratar dos preparativos para a inauguração da galeria. Carlo foi para cima rever os contratos e ela ficou a ajudar na decoração do espaço.
Quando Carlo desceu, entraram em desacordo, ele e Cristy, não concordavam com a escolha do quadro principal. A rapariga encarregue de decorar o evento era inexperiente, o que veio atrasar as coisas. E Carlo não tinha paciência nenhuma.A rapariga estava quase a chorar.
- Porque não telefonas a pedir que venha a responsável?
Voltaram-se para o local de onde vinha aquela voz. Uma loira espampanante sorriu para Carlo e pendurou-se no seu pescoço. Cristy teve vontade de se atirar a ela! Só podia ser uma das suas amantes!
- Carlo! Continuas na mesma. Não sossegas um segundo.
- Andrea! Que fazes aqui? Não sabia que vinhas.
- Sabes que há coisas que tenho de ver com os meus próprios olhos.
Abraçaram-se. Cristy afastou-se dali, uma coisa era saber que ele tinha amantes, outra era presenciar a cena. Levou consigo a rapariga e tentaram chegar a um acordo sobre a distribuição dos quadros.
O trabalho evitou que pensasse nele o resto da tarde. No inicio da noite convidaram-na para ir jantar com eles, mas inventou uma dor de cabeça e ficou no hotel. Sentou-se no sofá em frente ao televisor e pensou em Pedro. Conheciam-se desde sempre e quando a pediu em namoro ficou encantada,,afinal tinha 15 anos e era a única que não namorava. Com o passar dos anos, os ciúmes foram tomando conta da relação. Os amigos começaram a afastar-se dela. Ele comandava a sua vida, até as roupas eram escolhidas por ele! A namorada dele, não andava a mostrar as carnes aos demais. Ela apenas saía se ele saísse. Depois de muito insistir com ela, lá fizeram amor. Não achou a coisa tão especial como Ana contava, mas se iam casar tinha de se sujeitar. Ele começou a dormir lá em casa quando queria. E se antes a bebida fazia parte da vida dele, depois disso aumentou a permanência. Mas como não a chateava, para ela estava tudo bem, até ao dia em que se esqueceu do telemóvel em casa, na pausa do café voltou para o apanhar, e deu com Pedro na sua cama com Rita. Segundo ele a culpada era ela por ser frígida. Fazer amor com uma boneca insuflável era mais animado que com ela! As palavras tiveram um efeito devastador. Chegou mesmo a pesquisar o que era frígida. E depois de saber convenceu-se que era. Nunca desejara estar com Pedro, evitava as suas caricias, nem os seus beijos lhe despertavam qualquer tipo de desejo. Totalmente o oposto do que sentia com Carlo! Deixou-se dormir a ver televisão. Era quase duas da manhã quando se ouviu barulho no quarto ao lado. Tinha chegado. Aconchegou.-se no sofá e adormeceu abraçada à almofada enquanto lágrimas caiam pela sua face. Precisara de ir até ao norte para constatar que o amava! Estava apaixonada por ele... e amá-lo só implicava uma coisa. Sofrimento, muito sofrimento!

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