O Padre XII parte





Valerie sentou-se rapidamente sem conseguir desviar o olhar de Erick. Padre! Como era possível?! Nunca nos seus sonhos mais estranhos ela imaginaria que ele fosse padre! Levou a mão ao rosto pois tinha a certeza que estava vermelha de vergonha. Fechou os olhos perante a ironia do destino. Lá em cima alguém devia de estar a brincar com ela. Logo ela que, além do marido, nunca tinha conhecido outro homem, tinha de se entregar a... Mas poderia não ser!
Com um fio de esperança olhou para ele procurando sinais de este não ser padre mas sim diácono. Talvez assim deixasse de se sentir a maior pecadora de todos os tempos. Após um olhar mais atento para a estola que repousava nos ombros percebeu que era realmente padre! Se anteriormente sentia o rosto vermelho naquele momento deveria estar pegando fogo! Erick levantou ligeiramente a voz e ela olhou-o directamente. Mas se ele sentia alguma réstia de embaraço não o mostrava. Sentiu um misto de raiva e ódio ao perceber que, enquanto ela se debatia por esconder a vergonha, ele agia com a maior naturalidade.
 Como era possível ele prosseguir a cerimónia com tamanha tranquilidade?! Nem a voz lhe tremia nos breves momentos em que os olhares se cruzavam! Se pudesse fugir dali não pensaria duas vezes. Ou se tivesse um buraco para se esconder! Deus do céu! Como se tinha colocado naquela situação? Estava assim tão carente?! Que raiva sentia dela própria! Ele não tinha dado sinais... ou tinha?! Olhou novamente para ele mas a única coisa que recebeu foi um ligeiro sorriso quando os seus olhares se voltaram a encontrar. 

- Alice diz que chegou recentemente. - A sua mãe piscou o olho - Até que ele é bem apanhado. Não achas?
- Mãe! - Valerie sussurrou e tentou esconder o seu embaraço. - Estamos na igreja!
- Deus não gosta de mentiras. 

Abriu a boca para responder mas resolveu ignorar o comentário. A sua mãe era bastante astuta e possivelmente já achara estranho o embaraço dela. Responder-lhe só iria aumentar as suspeitas. Que pensaria se soube que tinha dormido com o padre?! E não apenas uma vez! Era melhor fingir que ele não a afetava. Se desse demasiada importância ao assunto a sua mãe seria como um cão agarrado a um osso. 
Tentou concentrar-se na cerimónia mas a cada gesto de Erick só conseguia pensar nas mãos dele percorrendo o seu corpo nu e isso levava-a a sentir-se ainda mais pecadora. Propositadamente evitou olhar para Erick. Nesse intuito o seu olhar parou no confessionário. Teria que confessar-se! Mas a ele?! E ele?! Teria confessado a sua indiscrição a algum colega?! E, caso o tivesse feito, não dava direito a expulsão?! Ou iriam relevar?! Oh Deus... esperava que ao menos não tivesse nomeado a pessoa em causa!  

Evitando o olhar dele dirigiu a sua atenção para a imagem de Nossa Senhora e pediu perdão. Perdão por se ter deixado arrastar pelas circunstâncias, por ceder perante as palavras doces dele, por de alguma forma o ter levado a quebrar os votos, por se ter colocado no caminho dele, por ser a causa do pecado dele, por não ter percebido quem ele era... Sentia a obrigação de pedir perdão por tudo e por ambos.
O sol entrou naquele instante pelo vitral incidindo no rosto de Nossa Senhora dando-lhe um ar mais doce, mais maternal. Uma lágrima deslizou pela sua face ao fixar o rosto delicado da imagem.

- Estás bem?! 

A pergunta da mãe recordou-lhe que não estava sozinha. 

- Desculpa. - Valerie sussurrou evitando olhar para ela - Estava longe.
- Antes de irem... - a voz de Erick fez-se ouvir mais alto - Gostaria de recordar que pra semana iremos receber a visita de um grupo de peregrinos e que ainda temos algumas coisas pendentes. Se alguém estiver interessado em ajudar, a d. Alice aqui presente, é a responsável pela recepção e agradece toda a ajuda que puderem dar. Agora sim... 

O burburinho em redor dela aumentou e as palavras finais dele perderam-se entre as perguntas que eram feitas a d. Alice que parecia encantada com toda a quela agitação. 

Institivamente o seu olhar procurou Erick mas este desaparecera por uma das portas laterais. Sentia-se agradecida por isso mas ao mesmo tempo desiludida. Sentindo raiva pela sua fraqueza apertou o casaco e juntaram-se ás outras pessoas na entrada da igreja. O seu corpo gelou ao ver Erick, já sem as vestes, junto ao pequeno portão despedindo-se das pessoas que abandonavam o recinto. 

- Oh Deus!
- Algum problema? 

Valerie olhou para as duas mulheres que sorriam perante a admiração dela. 

- Não é nada. - Valerie ajeitou as luvas fingindo naturalidade - Apenas me lembrei de uma coisa.
- Disse exactamente o mesmo quando o vi pela primeira vez.  - Alice piscou o olho e agarrou o braço da amiga.- Se fossemos mais novas... Ui,ui!
- Ui,ui amiga. 

Valerie sentiu as faces ferverem de vergonha enquanto as duas mulheres se afastavam sorrindo como duas crianças traquinas. Havia momentos em que não reconhecia a sua mãe. O regresso ás raízes, a estadia no hospital e a separação dela pareciam ter acordado uma faceta que ela não conhecia. 
 
Ao perceber que se aproximavam de Erick o seu coração iniciou uma cadencia de batimentos completamente desgovernados pois não havia forma de evitar aquele "frente a frente" mas ele agiu com a maior naturalidade enquanto se despedia delas agradecendo a presença e desejando uma boa semana. Quem os visse pensaria que não se conheciam. 
O alivio que sentiu naquele momento foi momentâneo pois rapidamente foi substituído por desilusão.
Ao sentir o calor da mão dele através das finas luvas estremeceu e ele arqueou as sobrancelhas enquanto lhe devolvia o olhar. Perante a indiferença dele um pensamento surgiu na sua mente...  fora ela apenas uma forma de agitar a vida monótona que levava?! Afinal ela implicava menos riscos que uma mulher da pequena vila. Não era presença habitual na vila logo não levantava suspeitas. Mas escusava ser tão frio com ela! Fechou os olhos momentaneamente consciente da dualidade de pensamentos que se moviam na sua mente. 
Analisando a situação friamente era melhor assim! Fingir que nada acontecera. Talvez a sua mente romântica imaginasse determinadas coisas. Afinal nunca se tinham prometido nada. O facto de ele não lhe dizer que era padre mostrava bem o quanto conhecia Erick e o quanto ele confiava nela. E podia confiar nos seus sentimentos?  Saíra de uma relação complicada e estava carente em demasiados aspectos. Carente de carinho, de amor, de atenção... Olhando objetivamente para os últimos meses o seu estado emocional, e comportamento, era o de uma adolescente. Decididamente não podia confiar a cem por cento nos seus sentimentos. Estava demasiado carente para ser objectiva. 


Os dois dias seguintes foram demasiados estressantes para ela.  A sua mãe não falara no quão atraente era o novo padre mas isso não evitava que o seu coração saltasse sempre que a sua mãe se sentava junto a ela. Talvez por isso tinha dificuldade em adormecer. 


- Estás bem? Acho-te preocupada.
- Só ando a dormir mal. Nada demais.
- O divórcio?
- Não. - Valerie levantou-se nervosa - Simplesmente não sei que rumo dar à vida.
- Como assim? 

Algo na voz da sua mãe a fez olhar directamente para ela. Tinha os olhos semicerrados, como se tentasse ver além do visível.

- Vivi toda a vida dependente de alguém. Do pai, de Steven... - Pelo menos conseguia levar a conversa para um ponto que não era mentira - Que faço agora?! Do que vivo?! E onde?
- Ora essa! Aqui, comigo!
- Oh mãe... sei que queres ajudar mas está na hora de cuidar de mim mesma. Procurar casa, emprego... deixar de ser um fardo para os demais.
- Nunca o foste.
- Obrigada. - Valerie segurou a mão da mãe - Mas tenta compreender. Preciso de ter o meu espaço, de pensar por mim mesma. Descobrir quem sou e o que quero.
- E não podes descobrir aqui?
- Tenta compreender. Eu...

Valerie calou-se mantendo o olhar fixo na sua mãe. Precisava ter cuidado com as palavras que escolhia. 

- Não te vou deixar enquanto precisares de mim. Tenho tempo para organizar a minha vida quando estiveres recuperada. 
- Quer dizer que já decidiste ir. 
- Sim.
- Já que estás decidida talvez gostasses de regressar à quinta. Não sei... é apenas uma ideia que me surgiu de repente.
- A quinta?! Não tinha...

Uma leve pancada na porta da cozinha seguida da voz de Tim interrompeu a conversa.

- Desculpe interromper senhora mas o padre está no portão.
- O padre?! Que coisa estranha. 
- Mesmo. - Valerie evitou o olhar da mãe - Deve querer falar contigo, como és amiga da Alice. Eu aproveito e vou descansar um pouco. 


O coração de Valerie parecia querer saltar do peito à medida que subia as escadas até ao seu quarto.  Decididamente tinha que sair dali antes que a sua mãe descobrisse que dormira com o padre. E que como uma idiota se tinha apaixonado por ele. No momento que aquele pensamento cruzou a sua mente as suas pernas cederam e por sorte conseguiu sentar-se num degrau. O facto de Erick ser padre não impedia de ela o amar com todo o seu coração! Independentemente do que sentia tinha que arranjar forma de o esquecer. Mas admitir que tinha de o esquecer originou uma dor demasiado grande no seu peito.

 Deixando as lágrimas correrem livremente pelo seu rosto entrou no quarto e deitou-se sobre a cama agarrada à almofada tentando sufocar os soluços que pareciam aumentar a cada suspiro. Realmente não tinha sorte nenhuma. Casara com Steven sem o amar pensando que o amor viria com o tempo, que aprenderia a amá-lo mas tal não aconteceu. O amor chegara à sua vida lentamente, sem prévio aviso, infiltrando-se silenciosamente pela mão de um homem que lhe era proibido amar. Aparentemente ele admitira o seu erro e já a esquecera. E ela, por muito doloroso que fosse restava-lhe esquecê-lo também. Mas antes tinha que sobreviver, e esconder aquele sentimento, até a sua mãe estar totalmente recuperada, depois arranjaria forma de o esquecer.

Mas o que lhe parecia uma tarefa simples depressa tomou proporções gigantescas. 
Erick aparecia quase todas as tardes para visitar a sua mãe e ela, após o cumprimentar, usava a presença dele como desculpa para retomar as suas caminhadas. "Caminhadas" que muitas vezes ela fazia sentada no banco em frente ao lago até que o frio a convencia a regressar ao aconchego do lar. A maioria dos dias Erick ainda estava na sala e ela subia rapidamente com a desculpa de tomar um duche. E ficava junto à janela até o ver sair pelo portão. 
Com algum esforço colocava um sorriso no rosto e juntava-se à mãe que a olhava em silêncio. Geralmente o silêncio mantinha-se até ela arranjar um tema fútil e inócuo que debatiam até tarde mas naquele fim de tarde tal não aconteceu. 


- O que se passa contigo?
- Comigo?! Nada.
- Não me venhas com essa! - Lana baixou a voz, coisa que fazia sempre que estava irritada - Sou tua mãe! Sei bem quando estás a esconder alguma coisa! 
- Desta vez estás enganada. - Valerie dirigiu-se à lareira e atirou um pedaço de lenha lá para dentro. 
- Não estou! Sei que algo te incomoda. Se é pelo facto do padre... - Lana calou-se ao ver a expressão da filha - É por causa do padre?! 
- Estás a imaginar coisas. - Valerie sentiu um nó na garganta e voltou a atenção para o lume.
- Valerie! - Lana gemeu ao colocar-se de pé o que obrigou Valerie a ir ajudar a mãe - Estás estranha desde que fomos à missa a primeira vez. Não sou cega. O padre é novo, bastante giro e como se dizia no meu tempo, tem tudo no sitio. Diria até que é um crime um homem daqueles ser padre mas cada um escolhe o seu caminho. Se sentes algo por ele certamente não és a primeira e certamente não serás a única. Aposto que ele mora nos sonhos de muitas mulheres da vila. Casadas e solteiras! 
- Mãe! - Apesar de saber que a sua mãe tinha razão, isso não a ajudava - É padre! 
- E homem! Desde que tudo se mantenha nos nossos pensamentos ...
- Nossos?! - Valerie agarrava-se a qualquer deslize da mãe para evitar o assunto.
- Nossos é uma expressão. À muito que essas coisas não me tiram o sono. E não tentes desviar a conversa! Se te sentes atraída por ele é só substituir ... - Lana olhou fixamente a filha - Oh meu Deus como sou burra! Sempre tiveste um rosto muito expressivo. É por isso que vais caminhar todas as tardes? Tens medo que ele perceba?

Valerie olhou a mãe enquanto a sua mente ponderava se era boa opção dizer que sim. Sentir uma atração física era melhor que estar apaixonada e certamente bem melhor que admitir que tinham feito tudo o que as mulheres da vila sonhavam.

- A verdade é que não sei o que sinto. 

 Valerie desviou o olhar e manteve-se em silêncio sem saber muito bem que dizer. Por um lado gostaria de abrir o coração e ter alguém com quem falar sobre o assunto mas por outro temia que a sua mãe não compreendesse. Que ela não provocara aquela situação, que simplesmente fora apanhada desprevenida por aquele amor. Olhou para a sua mãe e por uns instantes olharam-se mutuamente em silêncio. Silêncio que lhe pareceu interminável. 

- Sabes o que precisamos? De bolachas... umas deliciosas bolachas. - Lana esfregou as mãos nas pernas e levantou-se do sofá - Estás à espera de convite?

Valerie sorriu e estendeu o braço pra a mãe se apoiar. O curto espaço de tempo até chegarem á cozinha foi suficiente para mentalmente agradecer por a sua mãe dar o assunto por terminado. 

Enquanto executavam a tarefa a conversa girou em torno da infância e de como ela insistia em ajudar na cozinha. Riram ao recordar a vez que escorregou e se encheu de farinha ao mesmo tempo que o pó branco voava por todo o lado com a ajuda da brisa que entrava pela janela. 

- Acho que era bom teres um tempo para ti. - Lana colocou a última bolacha no tabuleiro e deslizou este sobre a mesa em direcção à filha - Não te estou a colocar fora de casa! 
- Eu sei. -Valerie trocou o tabuleiro pelo que estava no forno e o cheiro de bolachas recém-feitas encheu o ar. - Hum!!! Que cheirinho! - Valerie mordiscou uma - E tens razão. Preciso de tirar um tempo mas, como disse anteriormente, só depois de estares recuperada. Arranjarei forma de lidar com isto.
- Se ele vier novamente vou dizer que não me sinto bem.
- Claro que não! Não quero que mintas por mim. E não estou a fazer nenhum sacrificío. Sempre gostei de caminhar. 
- Muito bem. - Lana piscou o olho e continuou com ar atrevido - Eu recebo o padre jeitoso e tu foges. 
- Está combinado. 


Depois daquela conversa os dias decorriam com tranquilidade. Tinham uma espécie de acordo tactico, ela saía quando Erick chegava e, após a partida deste, a sua mãe nunca comentava sobre que falavam durante as horas que ele lá estava. Apesar da curiosidade Valerie agradecia não falarem nele. Já lhe bastava as noites onde lhe sussurava palavras meigas e a levava ao delirio. 

- Hoje ele disse que queria falar contigo. - Lana bebericou um pouco de água. - E da forma como olhava para o relógio fiquei com a ideia que te esperou até não poder mais. 
- Não disse que queria? - Valerie continuou a comer fingindo uma calma que não sentia.
- Não. E também não perguntei. 
- Certo. - Valerie limpou os lábios e dobrou o guardanapo sob o olhar atento da mãe. 
- Ás vezes tenho a sensação que me estão a esconder alguma coisa. 
- "Estão"?! Como assim?
- Tu não sabes o que sentes e eu não sei bem se devo acreditar no que a minha intuição me diz.
- E que te diz ela? - Valerie engoliu em seco temendo a resposta.
- Aí é que está! Ela envia-me sinais confusos. Muito confusos. 
- Acho que dás demasiada importância. - Valerie começou a recolher os pratos - Pensei que tínhamos um bom plano. Tu recebes e eu fugo.
- O problema é esse. O que recebo! - Lana acentuou a última palavra dando-lhe um duplo sentido - Mas já percebi que não queres falar no assunto. 
- Obrigada. 


Nessa noite não conseguiu conciliar o sono. Em resultado disso no dia seguinte a sua cabeça parecia latejar. O sol nascia envergonhado por entre as nuvens quando se sentou no degrau da entrada lateral. Apreciava os tons alaranjados do amanhecer quando um barulho junto ao portão lhe chamou a atenção. Não queria acreditar no que via! Erick espreitava por entre as enormes grades. Contrariamente aos dias em que este ia visitar Lana, vestia sempre umas calças bem engomadas e uma camisa, naquele momento vestia um fato de treino azul escuro e uma t-shirt branca. Temendo ser vista entrou em casa sentindo o coração pulsar na sua garganta. A sua mãe ainda dormia por isso se ele a visse não tinha como fugir ao encontro. E ela não estava preparada para tal. 

Sem conseguir acalmar o seu coração deu por si espreitando por entre os cortinados temendo que Tim o deixasse entrar quando chegasse. 
Que faria se tal acontecesse?! Que lhe diria?! Fingiria não sentir nada por ele?! Ou diria tudo o que lhe ia na mente e no coração?! Que sentia ter sido enganada por ele?! Quereria saber porque lhe tinha ocultado o facto de ser padre?! Ou era preferível não saber?! As perguntas nasciam umas atrás das outras quando a sua mãe a chamou.

Enquanto tomavam o pequeno almoço, apesar das conversas animadas da sua mãe, só conseguia pensar em que ficar ali estava a tornar-se demasiado perturbador para a sua saúde mental. 

E caso lhe restassem algumas dúvidas, elas foram dissipadas nessa tarde...  

Pouco depois do almoço uma trovoada fez-se ouvir ao longe e não foram precisos mais que dez minutos para a chuva começar a cair copiosamente. A atração que sentia por dias assim levou-a a ir até à janela e ali permaneceu olhando o céu. 

- Talvez seja melhor colocar mais lenha na lareira. Mais que não seja para que não cries raízes aí. 
- Desculpa. - Valerie colocou um novo madeiro no lume e foi para junta da mãe.
- Nunca percebi esse teu fascínio pela chuva. 
- Nem eu te sei explicar. - Valerie olhou a chuva que batia furiosamente na vidraça - Só sei que nestes dias sinto uma paz interior enorme e caminhar à chuva é como se lavasse a alma. A chuva transmite-me uma felicidade, uma tranquilidade...
- Se só é preciso isso para te sentires feliz e tranquila...

Lana calou-se quando um Tim enchardado entrou na sala.

- Peço desculpa mas está ali o senhor padre.
- Com esta chuva?! - Lana olhou para Valerie e a surpresa era visível no seu olhar. - Nem tu deverias estar aqui! 
- Ia para casa quando o ele chegou. - Tim olhou para as duas - Que lhe digo?
- Que dizes... que entre! Que mais podes dizer?! - Lana ajeitou-se no sofá - E tu faz favor de ires para casa. 
- Com certeza. 

Lana esperou que Tim saísse e voltou-se para Valerie.

- E tu sai daqui! - Lana deu umas palmadinhas na mão da filha - Basta olhar para ti para perceber o pânico que estás a viver. Vamos! 

Valerie beijou o rosto da mãe e foi para a biblioteca. Estava plenamente consciente que não tinha tempo de subir sem ser vista por isso, apesar de ser demasiado perto, era o local mais seguro. Fechou a porta e sentou-se no sofá junto à janela com uma manta sobre as pernas.
A chuva lá fora tinha um efeito hipnotico sobre ela o que acalmava ligeiramente os seus pensamentos. Por momentos pensou que estava a salvo dos seus próprios pensamentos torturantes mas a voz de Erick, misturada com as risadas dele e da sua mãe, chegara a si deitando por terra qualquer tranquilidade que a chuva lhe transmitisse. 

Porque tinha ido ele ali? Chovia copiosamente e nem isso o demoveu! Estava assim tão decidido, ou desesperado, por falar com ela? Se temia que ela fosse comentar com alguém a indiscrição que tinham cometido podia ficar descansado. Não era coisa que se fosse comentar com ninguem. Principlamente depois de saber quem ele era! Ela tinha tanto a perder quanto ele. Ou até mais. Já que a sua sanidade mental estava a ser colocada à prova.
E se queria sair ilesa mentalmente daquela situação tinha que se afastar. E o mais depressa possível. 









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